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Machado na zona de desconforto

Por Walter Porto (Folhapress)

Machado de Assis vaga aturdido pelo campus de uma universidade carioca em pleno século 21. Ouve de canto o papo de um grupo de amigos e se atordoa com expressões que nunca ouvira antes. "Grupos interseccionais, lugar de fala, centralidade, não binário, cisgênero, epistemologia decolonial, todes. Todes? Seria um deus nórdico?"

O criador de Brás Cubas é ele próprio o defunto-autor de "A Vida Futura", ousado romance escrito por Sérgio Rodrigues que faz troça com as dissonâncias linguísticas e comportamentais que separam o Brasil machadiano do nosso.

O gancho é o seguinte - um projeto chamado "Luta de Clássicos", tocado por uma professora ressentida, propõe reescrever obras de autores brasileiros em linguagem mais fácil para ampliar o acesso à leitura.

Do céu dos escritores, assistem com assombro o narrador Machado e seu amigo José de Alencar, que decidem descer como espíritos ao Rio de Janeiro para puxar o pé da acadêmica - o autor de "Iracema" por temer que isso seja "uma segunda morte", o de "Dom Casmurro" por motivos mais insondáveis.

O imbróglio dá origem a cenas divertidas. O grupo de revisores decide mexer na frase "não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria" para adicionar palavras como "infelizmente" ou uma redentora possibilidade de adoção pelo já cadavérico Brás Cubas.

"Aí entra uma coisa bem do nosso tempo", diz Rodrigues. "Eles não estão interessados em simplificação, mas numa certa formatação moral. 'Isso aí pode dar problema, pode ser ofensivo para alguém.' Nossa época é muito focada nesse tipo de coisa, e tem uma certa razão, mas aplicar isso a um autor canônico fica absolutamente ridículo."

A maneira como Machado se encaixa na militância política de hoje é algo que o romance decide encarar de frente - incluindo as reivindicações mais recentes em reconhecer a negritude do escritor. Numa cena do romance, Machado reage ao ouvir pela primeira vez aquele mesmo grupo de universitários fazer um elogio a ele como autor negro.

"Sonhar com ser clássico, tendo nascido no Brasil, era cômico; alimentar tal sonho sendo filho da pobreza, e ainda por cima detentor de um bom quartilho de sangue negro numa sociedade escravagista -aí a cousa era ao mesmo tempo glória e escárnio", começa o narrador.

"Por outro lado, é fato notório que negro eu nunca quis ser, tendo dedicado cada minuto da vida, cada miligrama de massa cinzenta, cada cálculo e cada sapo deglutido cru a me afastar das agruras reservadas às classes serviçais das quais provinha; caso haja nisso crime, não poderei evitar a condenação."

Era incontornável mostrar Machado atento à discussão sobre sua raça, afirma Rodrigues, que diz ver como justo e positivo que ele seja reivindicado pelo movimento negro. Mas é complicado ter um escritor tão arisco e inclassificável como bandeira de qualquer movimento, acrescenta ele.

"Comecei a pensar o que Machado acharia disso. Quando digo que ele não queria ser negro é um simples fato histórico. É um cara que passava como branco ou quase branco. E é um sujeito que buscou uma posição social que não era acessível a pessoas de sua cor ou classe."

Mais tarde, "A Vida Futura" tem uma longa cena em que uma personagem reage com repulsa a um ensaio real no qual um antigo presidente da Academia Brasileira de Letras, Peregrino Júnior, trata um suposto processo de embranquecimento de Machado como ganho civilizatório.

"Machado evitava falar de seu passado. É um sujeito que tentou, eu acho, não ter cor, ser um homem universal", afirma Rodrigues. "Como ele encararia essa novidade? Eu não queria e nem teria autoridade para fazer com que rejeitasse isso. Mas me parece claro que, sendo quem era, olharia isso com um certo distanciamento irônico. O personagem fica numa zona de sombra que é bem característica dele."

Muitos dos pensamentos expressos nesta entrevista por Rodrigues, escritor branco de 60 anos que teve seu "O Drible" premiado com o troféu Portugal Telecom, atual Oceanos, ressoam na boca da personagem Mariana, uma jovem estudante negra com "um alfinete espetado no nariz" -que no meio do livro passa a se definir como Mar, uma pessoa não binária.

"A importância de espalhar que esse homem tinha sangue negro, que seu pai era um mestiço forro, que seu cabelo era de negro", diz a personagem, "não tem nada a ver com uma essência preta que a gente pudesse encontrar no fundo do texto, mensagens revolucionárias, consciência racial cifrada, nada disso". "Isso é conversa mole. O cara era totalmente assimilado, fez questão de passar por branco o quanto pôde."

A garota criada por Rodrigues, apaixonada pela literatura machadiana e alvo da fascinação de seu ídolo fantasma, é marcada pela inquietude. "Mar tenta pensar da cabeça dela. E entender o Machado com uma sensibilidade mais aguçada que seus companheiros de geração, que estão mais focados numa pauta política."

O autor afirma que seu livro não tem a intenção de ser panfletário nem de antagonizar com ninguém. Mas fazer literatura sempre envolve um diálogo com seus contemporâneos, e é inevitável que seu ponto de vista geracional e artístico esteja realçado na criação literária.

Algo que ele diz ter feito de forma deliberada, por outro lado, é trabalhar a forma e a linguagem da narrativa em primeiro plano, acima até da história. "Isso me parece um pouco demodê hoje. O momento é de valorizar mais o testemunho, as vozes caladas que podem falar."

No testemunho de Rodrigues, o recurso à retórica machadiana tem um quê de salvação. O escritor conta que seus projetos anteriores soaram apodrecidos conforme Bolsonaro e a pandemia sugaram todas as atenções. Mas, de forma paradoxal, foi também isso que o empurrou até Machado.

"A atração gravitacional desse presente é irresistível. Parece impossível não falar de política em momentos assim", comenta. "Então eu voltei a uma prosa antiga, a um jeito desatualizado de escrever, como um truque para conseguir voltar a falar do agora."

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