Leitor compara a ação dos fiscais aos da famigerada carrocinha, que corria atrás dos cães soltos pela cidade. Chamado de 'Herodes' por outro leitor, o DF Legal nega que esteja numa cruzada contra brinquedos infantis pela cidade
A nota publicada ontem por "Brasilianas" sobre a cruzada do DF Legal contra brinquedos infantis pela cidade incomodou o secretário de Estado de Proteção da Ordem Urbanística, Cristiano Mangueira de Sousa. Mas não ao ponto de fazê-lo mudar de posição e se explicar sobre o que de fato está acontecendo.
"O secretário não dá entrevistas, é como ele prefere trabalhar. Mas enviarei uma nota para seu e-mail a respeito, para que (o DF Legal) possa dar o esclarecimento aos leitores", afirmou a prestativa Assessoria de Imprensa da autarquia, logo nas primeiras horas de ontem.
E acredite, caro leitor... o DF Legal disse, em nota, que a auditora "até foi gentil" em avisar previamente que irá apreender o brinquedo. Segundo a Secretaria de Ordem Urbanística, a lei não prevê "aviso prévio". Segundo eles, "a regra é que seja feita a apreensão imediata".
Confesso que não sei onde é que o DF Legal entende que essa justificativa ameniza ou ajuda na imagem que ele mesmo está construindo: a de perseguição a brinquedos de crianças pelas superquadras do Plano Piloto (não nos chegou relato que isso esteja acontecendo em alguma outra das 34 Regiões Administrativas. Mas vai que...)
Corre, que lá vem o DF Legal!
Agora, imagine você, caro leitor, a seguinte cena: numa entrequadra do Plano Piloto, várias crianças brincando num pula-pula numa manhã de sol, entre elas algumas com autismo. Quando, de repente.... uma van encosta, lotada de fiscais, que descem e saem correndo pelo gramado, alcançam e desmontam o brinquedo. Daí embolam tudo e jogam o que sobrou num caminhão. Que sai em disparada!
Pra trás, sobrou um tanto de crianças chorando... Pais e babás sem entender nada! E um cenário de caos no meio da quadra... Se os vizinhos reclamavam de barulho das crianças, quero ver o que aconteceria num cenário deste!!! "Chama a polícia", certamente alguém gritaria.
Foge, que lá vem a carrocinha!
E sabe o que um outro leitor de "Brasilianas" lembrou? Das famigeradas carrocinhas, que existiam pela cidade. "Meu maior medo na infância era meu cachorro fugir e de a carrocinha pegar ele", disse-me ele. E complementou: "Se nada mudar, dentro de alguns anos, as crianças de hoje poderão dizer: 'Meu maior medo na infância era o DF Legal chegar e pegar o meu pula-pula'.
Eu também era criança quando existia a carrocinha. Eu morava em Taguatinga. E me lembro de ver uns sujeitos correndo atrás da cachorrada e apreendendo, com um enforcador amarrado num pedaço de pau, uns coitados vira-latas que vagavam pelas ruas de então. Era uma gritaria de gente escondendo cachorro e um tanto de crianças chorando.
(Agora, os vira-latas ganharam status, viraram SRD e muitos são chamados de carinhosamente de Caramelo, com direito a lei de proteção e tudo mais. Certíssimo).
As carrocinhas sumiram das ruas do DF desde 2013, quando a Zoonoses deixou de realizar o trabalho ostensivo de recolhimento de cães na rua. Pra quem não sabe (ou não viveu aquela época de terror), depois de apreendidos, se não tivessem donos que reclamassem em poucos dias, eles eram sacrificados. Em câmara de gás.
Em 2021, foi sancionada a Lei 14.228, de 20 de outubro, que extinguiu a carrocinha e, com isso, ficou proibida a eliminação de cães e gatos por órgãos de controle de zoonoses, canis públicos e outros estabelecimentos oficiais.