Por mais que o trabalho de Dante esteja em várias frentes. No carnaval é onde sua obra ganha mais visbilidade junto ao grande público. Em 2020, na Paraíso do Tuiuti, criou esculturas em escala real de mulheres marcantes da comunidade. No desfile deste ano, desenvolveu bonecas em tamanho humano para a comissão de frente da União de Maricá representando a Mãe Cacilda de Assis. O projeto, desenvolvido a convite do carnavalesco Leandro Vieira, emocionou o público e rendeu nota máxima dos jurados.
Dante também marcou presença no audiovisual. Na novela "Renascer" (TV Globo), recriou o emblemático personagem Cramulhão com técnicas inovadoras de manipulação. Em "Desalma" (Globoplay), contribuiu com a criação de bonecos que ampliaram o tom sombrio da série. No cinema, trabalhou no filme de animação "47", que conta a história de um menino com síndrome de Down e foi premiado no Cannes Lions e no Grand Clio. Além disso, foi convidado a criar e assinar o troféu exclusivo do programa "Caldeirão com Marcos Mion", inspirado no ator e músico Lucio Mauro Filho. Na moda, colaborou com o estilista Walério Araújo no São Paulo Fashion Week, criando uma máscara especial em homenagem à mãe do estilista. Suas criações também estiveram presentes em shows da banda Blitz, com cabeças gigantes que se tornaram marca registrada das apresentações do grupo. Evandro Mesquita, líder do grupo, virou fã do artista. "As cabeças criadas por ele são nada óbvias e cheias de personalidade. Elas trazem uma expressividade intensa", comenta.
Dante falou ao Correio da Manhã sobre seu processo criativo e lamenta que trabalhos como o seu não sejam tão valorizados quanto deveriam.
Seu trabalho se destaca pela ausência de interferência tecnológica. O que te motiva a manter um processo artesanal em uma era tão digital?
Dante - Me identifico com a temporalidade do processo artesanal, pois nele encontro um ritmo que reflete meu próprio tempo e a maneira como escolho estabelecer minhas relações, inclusive as tecnológicas. Acredito que o meu trabalho manual é, em muitos aspectos, uma reflexão sobre a dinâmica que busco manter em minha vida cotidiana. Em uma sociedade que constantemente me pressiona a ser mais produtivo e acelerado, procuro respeitar o tempo necessário para a maturação de um processo artístico, um tempo que muitas vezes se distorce em relação ao ritmo do mercado e da tecnologia. Além disso, vejo na artesania uma essência genuína, profundamente conectada às minhas emoções, que torna cada criação única e carregada de significados pessoais.
Como se dá o processo de criação de um boneco ou máscara? Existe um ponto de partida comum ou cada projeto nasce de forma diferente?
Em relação à ideia ou conceito, a proposta é sempre que meus bonecos e máscaras contem uma história. No entanto, essa história é, inicialmente, desconhecida. Cada narrativa é o combustível que impulsiona a criação e transforma uma ideia em algo tangível. No começo, é sempre um abismo — não tenho uma ideia clara do que vai surgir. Esse desconhecimento é algo que me instiga profundamente, pois se trata de transformar um pensamento abstrato em uma obra de arte. Quanto à técnica e construção, embora existam algumas semelhanças, como materiais com os quais tenho mais afinidade e que funcionam melhor para certos resultados, essas questões são muito mais concretas e palpáveis, especialmente em comparação com o processo criativo, que é mais instável e incerto.
Você tem alguma referência artística específica que influenciou seu estilo?
Cresci em Realengo, subúrbio do Rio de Janeiro, onde meu contato com a arte era bem limitado. Naquela época, a internet não estava tão presente como é hoje. No entanto, sempre fui uma criança sensível e curiosa, o que me tornava muito receptivo ao que estava ao meu redor. Absorvia as influências do carnaval de rua. O cotidiano e as pessoas do meu bairro também fizeram parte desse processo de formação. Era uma criança mais reservada e muito imaginativa. Muitas vezes, o quintal de casa se tornava meu laboratório criativo, onde eu recolhia materiais para inventar bonecos. Assistia muito à TV, e sem dúvida, os desenhos animados e o cinema foram grandes fontes de inspiração e referência para mim.
Seus bonecos têm um papel narrativo muito forte no teatro. Você os considera personagens ou extensões dos atores?
Eu vejo como um corpo híbrido, uma fusão entre o ator e a figura inanimada. No teatro, um boneco sem a presença de um ator é quase como negar seu potencial de encantamento. O que dá vida a esse objeto é a conexão entre o performer e o boneco, criando uma espécie de diálogo que transcende o simples movimento. O processo é um jogo coletivo, onde o ator se disponibiliza a conhecer o corpo do boneco, e o boneco, por sua vez, responde ao movimento e à energia do ator. Essa troca é essencial, porque, se houver esse jogo, uma relação profunda e simbiótica pode se formar. É nessa interação que o encanto acontece, pois é quando o boneco se torna mais do que um objeto - ele se torna um personagem vivo, capaz de emocionar e envolver o público.
Como foi o desafio de recriar o Cramulhão para "Renascer"? Houve alguma inspiração específica para a estética final do boneco?
Criar para a TV sempre me estimula de maneira única. Ao longo dos anos, fui conquistando o espaço necessário para ter a liberdade de propor e desenvolver minhas ideias, o que é extremamente gratificante. Quando sou convidado para um projeto televisivo, sinto-me motivado porque sei que há um interesse genuíno pela identidade que imprimo no meu trabalho. Isso tem acontecido em novelas, séries e outros projetos, nos quais consigo deixar minha marca. No caso de Renascer, por exemplo, o desafio foi ainda mais instigante. Busquei inspiração nas referências da arte popular, como objetos e figuras do folclore, que trazem esse caráter onírico e simbólico tão forte. A partir disso, procurei incorporar também influências cinematográficas, de maneira a criar algo que não fosse apenas visualmente impactante, mas também com uma profundidade que dialogasse com a linguagem cinematográfica, trazendo um resultado que fosse tanto teatral quanto expressivo.
Você acredita que a presença de bonecos no audiovisual ainda é subestimada no Brasil?
O cinema de animação tem sido palco para artistas incrivelmente talentosos, que se dedicam a explorar as mais diversas técnicas. Em meu trabalho, a artesania é uma característica central, porém hoje, também vemos uma enorme evolução nas criações de bonecos, com novas abordagens e técnicas sendo utilizadas. Acho que o cinema de animação se apresenta como um campo vasto para bonequeiros, onde a tradição da artesania e as possibilidades da tecnologia se encontram, criando um espaço para experimentação, inovação e, principalmente, para a expressão artística de uma maneira que é tanto técnica quanto profundamente estética.
A criação das bonecas da comissão de frente da GRES União de Maricá impressionou o público. Como foi dar vida a Mãe Cacilda de Assis nesse projeto?
Foi uma experiência incrível e um verdadeiro privilégio ter recebido o convite de Leandro Vieira, um mestre do carnaval, para mergulhar na vida dessa mulher que foi um ícone da religiosidade afro-brasileira. Foi uma oportunidade única de me aprofundar em sua história e retratar sua imagem na escola de samba. Durante cinco meses intensos de criação e construção, reuni um fotos e imagens de Cacilda, uma das maiores mães de santo dos anos setenta e oitenta no Brasil. O objetivo deste projeto era representá-la de maneira realista, mas, ao mesmo tempo, intensificar sua expressão emocional e sua identidade. Foram 15 bonecas em escala humana, esculpidas e trabalhadas com extremo cuidado. Contei com o apoio da minha equipe de confecção e com o figurino poético da figurinista Tereza Nabuco, minha grande parceira na arte, que tem um olhar magistral na criação de figurinos, especialmente os inspirados nas matrizes afro-brasileiras.
Você sente que o carnaval ainda abre espaço para inovação na arte de bonecos e esculturas?
O carnaval, assim como outras manifestações festivas populares, como por exemplo o festival de Parintins, representa uma oportunidade única para grandes artistas, escultores e criadores darem vida ao seu trabalho e ganharem visibilidade. Essas festas são momentos de celebração da criatividade e da cultura, e nelas podemos encontrar uma verdadeira explosão de arte, especialmente no que se refere à criação de alegorias, bonecos e máscaras. No entanto, sinto que podemos ir ainda mais longe. Percebo que para essa arte seja cada vez mais valorizada e se desenvolva, é essencial investir de forma contínua e estruturada na formação e profissionalização dos artistas. Com mais recursos direcionados para a capacitação desses profissionais, seríamos capazes de expandir ainda mais as possibilidades criativas e proporcionar melhores condições de vida para profissionais da arte.
A arte de bonecos é pouco valorizada como expressão artística no Brasil?
Em muitos casos ela ainda é pouco valorizada, apesar de seu grande potencial e riqueza cultural. Muitas vezes, essa forma de arte é vista apenas como uma atividade lúdica ou infantil, quando na verdade ela carrega um imenso valor simbólico, estético e narrativo. É isso que tento acessar com meu trabalho trazendo a imagem do boneco como algo presente e contemporâneo. Bonecos têm a capacidade de contar histórias e transmitir emoções de uma forma única, tanto no teatro quanto em outras manifestações artísticas. No entanto, o reconhecimento desse trabalho como arte, com o devido espaço e respeito, ainda é um desafio.
Entre teatro, audiovisual, carnaval e moda, qual dessas áreas mais te desafia criativamente?
Cada segmento artístico traz um desafio único, pois mesmo que o processo criativo se repita, o que sempre muda é a maneira como ele será recebido. O espectador, com suas experiências e vivências, está em constante transformação, e isso implica que cada vez que ele se depara com uma obra, ele a vê com novos olhos. A mesma peça, o mesmo espetáculo, pode gerar reações e interpretações distintas dependendo do momento e do estado de espírito do público. Por isso, o maior desafio não está apenas na execução do trabalho, mas em como ele consegue tocar, sensibilizar e estabelecer um vínculo com o espectador.