Por: Inácio Araujo (Folhapress)

CRÍTICA / FILME / VITÓRIA: O salto de maturidade de Andrucha

Fernanda Montenegro e Linn da Quebrada em 'Vitória', drama sobre os tênues limites entre a vida 'normal' e a vida em comunidades | Foto: Suzanna Tiere/Divulgação

Talvez as drogas não sejam mais um aspecto da civilização, mas sejam hoje o aspecto central, aquele em torno do qual giram todos os outros. É nessa direção que parece apontar "Vitória", o novo filme de Andrucha Waddington.

O que vemos em cena é um caso particular. Nina (Fernanda Montenegro) é a senhora que vive em modesto apartamento de Copacabana. À sua frente, ela lembrará, em outros tempos havia uma floresta. Hoje existe um ponto de drogas na entrada de uma favela. Os tiros, frequentes, podem atravessar sua janela, entrar na casa. Podem ferir uma vizinha (Linn da Quebrada).

Nina pede providências à polícia, naturalmente, e escuta as desculpas esfarrapadas de sempre. Até que ela compra uma máquina de filmar e passa a documentar o que acontece bem diante de sua casa. Como todos sabem, as imagens são uma arma (e assunto para algum outro artigo ou estudo, ou o que seja), e Nina tenta que sejam vistas pela polícia. A polícia não está nem aí. Mas um repórter policial (Alan Rocha) se interessa pelo assunto, o que pode mudar toda a situação.

Visto assim, "Vitória" parece um filme sobre "fait divers" carioca, do Rio, onde a distância entre a vida "normal" e a "comunidade" não passa, com frequência, de alguns metros. Mas é bem mais do que isso. Trata-se, por um lado, de observar como essa proximidade age sobre a vida das pessoas (as "normais" e as da "comunidade").

Mas, por outro, o filme deixa claro o que essa civilização de violência, de metralhadoras em punho, de tiroteios e disputas por pontos entre gangues rivais significa. Ou antes: como esse ponto de tráfico não é senão um fio de uma imensa organização de que até os barões criminais da favela não são mais do que um elo torto - no caso, o chefão do morro nem pode ir a um pronto-socorro e tem que se valer dos serviços compulsórios de Nina.

Isto é, a chamada boca de fumo, com seus pés de chinelo armados e perigosos, é pouco mais que um detalhe nessa organização que passa por corrupção de policiais, de políticos, juízes etc. Trata-se de uma organização transnacional capaz de produzir lucros exorbitantes e desvios morais também exorbitantes. Nessa teia sólida, a personagem frágil de uma senhora de idade irrompe como uma anomalia. Passar de um caso isolado à abordagem de um fenômeno social dessa amplitude não é fácil. Talvez deva muito à própria Nina da vida real (cuja aventura foi documentada em reportagem de 2005 e em livro). Talvez deva muito a Fernanda Montenegro. Mas é inegável o salto que dá Andrucha Waddington em relação ao seu trabalho anterior. Este é um filme de maturidade, em que imprime um registro terno na primeira parte e na segunda investe na tensão gerada pelos acontecimentos.

O filme se beneficia de um bom roteiro, mas falha, no entanto, na construção da personagem do jovem morador da favela e amigo de Nina (Thawan Lucas). O problema, no caso, não é que ele passe meio abruptamente de jovem simpático a usuário e traficante; o problema é que a explicação é jogada nas costas dos traficantes adultos e não nas condições de vida de crianças como ele.

É um senão significativo, já que outros papéis aparecem bem definidos, há os policiais corruptos, os relapsos, os honestos, por exemplo. E também os tenebrosos traficantes do morro não são mais que engrenagens de uma complexa rede de interesses. Complexa e mafiosa, sabe-se. Olhar as coisas por esse prisma é um ganho importante.