Por: Rodrigo Fonseca | Especial para o Correio da Manhã

Mário desvairado

Autor de 'Paulicéia Desvairada', Mário de Andrade (1893-1945) é analisado em 'O Turista Aprendiz' sem as rédeas do documentário ou da ficção pelo realizador Murilo Salles | Foto: Divulgação

 

Sem bater cabeça para a Semana de Arte Moderna de 1922 e às molduras modernista, num exercício crítico radical, "Mario De Andrade, O Turista Aprendiz", o novo filme de Murilo Salles, escava espaços inauditos da literatura (na prosa, na poesia e no ensaio) de prosa com um autor que soube criar e demolir cânones (da cultura) em igual medida.

Abraçado à invenção, o realizador de "Nunca Fomos Tão Felizes" (1984) passeia pelas anotações do inquieto bardo paulistano (nascido em 1893 e morto em 1945) com base em sua visita ao rio Amazonas, em 1927, anterior à criação de "Macunaíma". Um ensaio cinemático estonteante sai desse confronto da imagem com a prosa, num processo de edição sofisticado, batizado em relação a um livro vetorizado por andanças e descobertas.

A partir de questões levantadas por e-mail pelo Correio da Manhã, Murilo explica:

"Mário de Andrade, o turista aprendiz é o nome do filme. Porquê? É Mário de Andrade que 'sonorizo' na tela com as forças de toda sua grandeza. Foi o que me fez decidir pelo incrível ator Rodrigo Mercadante. Ele tem alma andradina. Rodrigo e sua voz dão 'corpo' na alma de Mário, que encorpa a grandeza do texto e da inteligência. É um filme onde se percebe essa incorporação. Um transe. Sem precisar de atabaques. Rodrigo musicou o texto do Mário e o canta, lindamente. Virou parceiro de Mário no filme. E me restou correr atrás do como representar imageticamente os textos. Mas é Mário que rege".

Laureado em festivais como os de Gramado e do Rio por longas como "Nome Próprio" (2007), "Os Fins e Os Meios" (2014) e "Uma Baía" (2021), Murilo conta que seu "O Turista Aprendiz" é fruto de um ritual imersivo na literatura, onde a presença do autor se fazia notar em suas provocações literárias.

"Tive a sorte de conviver com Mário por uns quatro anos, trancado na Biblioteca do IMPA, no Rio. Meses seguidos. Meu exemplar do 'Turista' virou um assombro! E tive a sorte de compartilhar minhas inquietações com Eduardo Jardim. Sim, autor de 'Eu sou trezentos', e com Mário, no ensaio 'O Movimento Modernista', proferido no Rio de Janeiro em 1942, por ocasião dos 20 anos da Semana. Pude perceber os tormentos com 'Macunaíma e outros'. Mário de Andrade, ele, o turista aprendiz".

Um dos fotógrafos mais aclamados do cinema nacional nos anos 1970 e 80, com sucessos do porte de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976) e "Eu Te Amo" (1981) em seu currículo, Murilo revisita seu estudo do legado de Mário sob a ótica da sinestesia.

"Aí entra em cena a minha cabeça regada por filmes, por imagens, pelas cores de minha mãe aquarelista, pelas referências viajando nas paredes dos museus, cheias de formas, luzes, rostos, corpos, pingos de cor, de cores que saem uma de dentro da outra, numa mágica perto do divino. Impressões que ficam vivas pipocando até serem degustadas. E aí, valem as misturas, as camadas, de som, de cinema, de ficção e de documentário, tudo junto ao mesmo tempo. Mas, acima de tudo, uma busca incessante pela paixão: o cinema", diz o diretor de "Como Nascem os Anjos" (1996). "Aos 37 minutos do filme Mário fala da dificuldade de se encontrar palavras que descrevam sensações tais como beleza, êxtase, sublime... Ele acha que essas palavras ficam aquém do experimento sensorial. E aí ele inventa Deleuze, dizendo que talvez seja necessário um tipo de experimentação da imersão cinematográfica com destaque para o pensamento da imagem e do som. Olhem bem o que disse em 1927 (ou em 42?). O que fazer? Obedecer. Obedecer tanto ao plano da imagem, mas num filme tão SONORO, pelo seu som. Pois ruídos, rangeres, o piado, ventos, insetos, suspiros, animais, enfim, emitindo sons que passam a ser composições. Concordo que música não é específica ao cinema. Música é música. Acho que cinema que pensa o som, não precisa de música. Fui descobrir isso com a música composta por Sacha Amback para o letreiro final de 'O Fim e Os Meios'. Depois, isso ficou muito claro em 'Uma Baía'. Pés andando na rua viram música".

Projeções em eventos como o festival Olhar de Cinema de Curitiba e a Mostra de São Paulo coroaram "Mario De Andrade, O Turista Aprendiz" com adjetivos por suas destrezas técnicas (e estéticas) diversas, sobretudo sua engenharia de montagem.

"Esse filme é fruto de uma grande felicidade de encontros! De uma fiel e tenaz equipe, de uma competência criativa incrível da rapaziada da finalização, do elenco, dos figurinos, dos cenários, do visagismo. E da Edição de Som. Também a necessária parceria de anos como Jair de Souza. E de Rodrigo Mercadante/Mário de Andrade", diz Murilo. "Mário está nas telas graças ao milagre generoso dessa turma. Mário Presente!".