Grande Rio faz uma travessia mágica na Amazônia

Agremiação de Duque de Caxias se vale de uma rica tradição oral ligada ao fenômeno da pororoca

Por Affonso Nunes

Vitor Souza Lima/Divulgação
A Grande Rio navega na história das princesas turcas que se tornaram animais de poder na Amazônia

A história que a Acadêmicos do Grande Rio leva este ano à Marquês de Sapucaí é transmitida de geração em geração nos terreiros de tambor de Mina da Amazônia paraense. Ela começa com a chegada de três princesas turcas à Amazônia, em busca de cura. Leonardo Bora, carnavalesco da escola, revela que o enredo "Pororocas Parawaras: as águas dos meus encantos nas contas dos curimbós" traz um tema nunca contado no Grupo Especial. 

"É uma história de matriz oral que narra a jornada de três princesas turcas que, ao se encantarem em alto mar, atravessaram o espelho do encantamento, não conheceram a morte e se transformaram em entidades místicas. Elas chegam ao Brasil e se 'ajuremam' no coração da floresta, ou seja, participam dos ritos da Jurema Sagrada [religião que mistura elementos africanos e indígenas], tornando-se animais de poder", detalha o carnavalesco.

No desfile, a cantora Fafá de Belém vai representar a princesa Mariana, a mais velha das três princesas, que se apresenta na figura da arara cantadeira. A princesa Herondina, que é a do meio, e simboliza a onça, terá na avenida a atuação da atriz Dira Paes. A terceira, mais nova, Jarina, representada pela jibóia e pela borboleta, será a cantora Naieme.

A influência da canção "Quatro Contas", de Dona Onete, foi fundamental para a construção do enredo. Essa conexão com os mestres do carimbó é um dos elementos centrais da narrativa da Grande Rio. "Essa história está muito presente nos terreiros da Mina Paraense, um complexo religioso que mistura crenças africanas e indígenas. O próprio conceito de pororoca, o encontro das águas dos rios da Amazônia com as águas do oceano, simboliza essa fusão. O enredo é todo baseado nesse encontro, na hibridação, e é com esse espírito que a Grande Rio quer inundar a Sapucaí.

 ENREDO: "Pororocas Parawaras: as águas dos meus encantos nas contas dos curimbós"

A Mina é cocoriô!
Feitiçaria parauara
A mesma lua da Turquia
Na travessia foi encantada
Maresia me guia sem medo
Pro banho de cheiro
Na “en-cruz-ilhada”, espuma do mar
Fez a flor do mururé desabrochar
Pororoca me leva... Pro fundo do igarapé
Se desvia da flecha, não se escancha em puraqué
Quem é de barro no igapó é Caruana
Boto assovia (oi) mãe d'agua dança!


Se a boiúna se agita... É banzeiro! Banzeiro!
Quatro contas, um cocar!
Salve a arara cantadeira!
Borboleta à espreita...
E a onça do Grão-Pará

Na curimba de babaçuê
Tem falange de ajuremados
A macaia codoense é macumba de outro lado
Venham ver as três princesas 'baiando” no curimbó
É doutrina de santo rodando no meu carimbó!

E foi assim... Suas “espadas” têm as ervas da Jurema
Novos destinos no mesmo poema
E nos terreiros, perfume de patcholi
Acende a brasa do defumador
Pra um mestre batucar a sua fé
Noite de festa! Curió marajoara...
Protege Caxias nas águas de Nazaré!
É força de caboclo, vodun e orixá!
Meu povo faz a curva como faz na gira!
Chama Jarina, Herondina e Mariana
Grande Rio firma o samba no Tambor de Mina!

Autores: Mestre Damasceno, Ailson Picanço, Davidson Jaime, Tay Coelho e Marcelo Moraes