Por: Affonso Nunes

Eterno caso de amor com o mar

'Nós e o Mar', álbum de Roberto Menescal, Diogo Monzo e Ricardo Bacelar | Foto: Divulgação

Por Affonso Nunes

Adepto da pesca submarina nos tempos da juventude, Roberto Menescal tem uma profunda relação com o mar. Muitas vezes o jovem que participou da primeira geração da Bossa Nova preferia estar mergulhando do que dedilhando o violão que o faria famoso mundo afora. Mas foi justamente voltando de uma dessas aventuras submarinas que ele e o parceiro Ronaldo Bôscoli conceberam o seu maior sucesso, "O Barquinho".

Já faz tempo que Menescal deixou o equipamento de mergulho de lado, mas a paixão pelas coisas do mar sempre se expressa em sua vida. O vaivém das ondas, o encontro com a serenidade e outras sutilezas da vida se faz presente em "Nós e o Mar", seu mais novo trabalho fonográfico, realizado a seis mãos com os músicos Ricardo Bacelar (piano, teclados e percussão) e Diogo Monzo (piano e teclados). Acompanha o trio a cozinha formada por Nelio Costa (baixo) e Pantico Rocha (bateria).

Com participação especial de Leila Pinheiro, convidada do trio na versão de "Bye Bye Brasil" (Menescal/Chico Buarque), o disco celebra os 85 anos de Roberto Menescal, privilegiando versões instrumentais para parcerias do mestre da Bossa Nova com Bôscoli. Os três se revezam nos arranjos de cada faixa, mas a identidade sonora do trabalho sugere que o barco tem o mesmo comandante.

"O projeto nasceu por iniciativa da produtora cultural Fernanda Quinderé, que trouxe a proposta para o selo Jasmin Music. Inicialmente, a ideia era gravar um álbum instrumental, mas depois resolvemos incluir três faixas cantadas. Nós gestamos este disco como uma homenagem ao Menescal e foi uma felicidade recebê-lo em meu estúdio, aqui em Fortaleza", conta Bacelar, que produziu "Nós e o Mar".

"Nós e o Mar" proporciona a rara oportunidade de ouvir Menescal cantando duas joias de seu repertório, algo raro em sua carreira. "Quando o Ricardo me convidou, a gente foi armando o repertório: ele deu algumas sugestões, o Diogo as dele e eu as minhas, mas algumas coisas nasceram na própria gravação do disco. Inclusive a ideia de eu cantar, que veio do Ricardo", conta Menescal. "Eu perguntei a ele: 'tem certeza'? Mas como a gente estava num clima legal, acabei botando voz em "O Barquinho" e "Ah! Se eu pudesse", relembra, com bom humor.

"A primeira e única vez que cantei 'O Barquinho' na minha vida foi no Carnegie Hall, em Nova Iorque, em 1962. Eu ia fazer outra coisa de violão e tal, mas o produtor me convenceu a fazer 'O Barquinho'. Estreei e encerrei a minha carreira de cantor ali, no Carnegie Hall", brinca o músico.

Já o pianista, compositor e arranjador fluminense Diogo Monzo, músico popular com a alma erudita, conheceu Menescal em 2017, quando lançou um álbum em homenagem ao pianista e compositor Luiz Eça. "O Menescal foi um dos primeiros a ouvir esse disco. Trabalhar com ele agora foi maravilhoso, um grande aprendizado. Menescal é um artista muito generoso e amável", pontua Monzo, que assina os arranjos de "O Barquinho", "Nós e o mar", "Ah! Se eu pudesse", "A morte de um Deus de sal" e "Copacabana de sempre".

"Eu busquei misturar nos arranjos linguagens ligadas à música erudita e à música popular. Fruto da influência que tenho de Luiz Eça, esse trabalho tem aspectos harmônicos ligados à música impressionista", destaca.

Ricardo Bacelar e Roberto Menescal se conhecem há tempos, desde que o músico cearense viveu no Rio, quando integrava a banda Hanoi Hanoi. São de Bacelar os arranjos para "Rio", "Você", "Vagamente" e "A volta". O arranjo de "Bye Bye Brasil" é de Menescal e Ricardo. "Como produtor, a ideia foi preservar o suingue característico do violão do Menescal como pilar, e trazer uma informação nova à Bossa Nova, usando órgão e alguns teclados para dar uma textura mais contemporânea ao trabalho. Menescal deu o mote: fizemos um samba diferente, um sambete", define Bacelar, que atuou nos dois lados do processo. "É sempre um desafio ser arranjador, músico e também produtor de um projeto, função que requer um olhar mais abrangente ", afirma.