Araribóia, o convertido que nunca se sentiu aceito

Grupo Teatro Meteco conta a história do mítico indígena, sob a perspectiva dos habitantes originários da Baía de Guanabara

Por

Utilizando recursos cênicos do Teatro de Animação, desnvolvido por Jacques Lecoq, meias-máscaras caracterizam mais de dez personagens arquétipos da sociedade da época

Figura essencial para a fundação das cidades do Rio e Niterói, o mítico indígena Araribóia é tema do espetáculo que o grupo Teatro Meteco apresenta no Teatro Glauce Rocha. Em "Procurando Araribóia", os atores Gabriel Vaz, Gabriela Dyminski, Isadora Britto, Maíra e Nelson Gaia, sob a direção de Matías Palma, resgatam a memória histórica e cultural do Brasil pré-colonial e a contam pela perspectiva dos habitantes originários da Guanabara, desmistificando a narrativa oficial dos conquistadores.

Com uma linguagem satírica e utilizando-se de recursos do Teatro de Animação, a trama se passa no Brasil do século XVI e narra a jornada de vida de Araribóia, desde sua condição como um indivíduo comum até se tornar líder de seu povo, enfrentando decisões difíceis em prol de sua sobrevivência e, também, de suas próprias ambições.

Chileno radicado em Niterói desde 2006, o diretor Matías Palma conta que a escolha do personagem não foi acidental. Grande estrategista e guerreiro implacável, ele é o indígena mais importante na fundação do Rio de Janeiro e considerado o "pai fundador" de Niterói, onde quase toda a equipe do espetáculo reside. Porém, esse mito esconde o fato de que Araribóia se tornou um aliado dos invasores, transformando-se também no primeiro anti-herói do Brasil.

"Araribóia é uma figura controversa e que chama atenção por misturar dois mundos. Ele abraça os portugueses por motivações políticas. Araribóia é expulso de sua terra pelos Tamoios e, em sua diáspora, acaba adotando o cristianismo através do convívio com os jesuítas. No entanto, ao final de sua vida, ele confronta a realidade de nunca ter sido verdadeiramente aceito pelos europeus, apesar de ter se distanciado de sua cultura original", conta.

A dramaturgia, escrita a seis mãos por Matías e pelos atores Gabriel e Isadora, que também são roteiristas de teatro e do audiovisual, se baseou em uma minuciosa pesquisa histórica, construída também na sala de ensaio, em um laboratório que teve início em 2021.

"Procurando Araribóia" traz uma proposta de montagem cênica de Teatro de Animação, moldada pelo teatro gestual desenvolvido por Jacques Lecoq, originado a partir da pantomima clássica na França e sua fusão com o teatro popular italiano. Confeccionadas pelo próprio diretor, 26 meias-máscaras são usadas para caracterizar os mais de dez personagens do espetáculo, seguindo a tradição da Commedia dell'arte italiana e aproveitando os arquétipos da própria sociedade para criar personagens reconhecíveis por todo o público.

A cenografia traz uma grande estrutura móvel de madeira, inspirada nas caravelas, que permite a interação com o movimento dos cinco atores. Projeções inspiradas nas sombras chinesas completam a narrativa visual da peça.

SERVIÇO

PROCURANDO ARARIBÓIA

Teatro Glauce Rocha (Av. Rio Branco 179 - Centro)

Até 22/9, às sextas e sábados (19h) e domingos (18h)

Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada para povos originários e classe artística, além das obrigatoriedades por lei)