Palhaços e bufões povoam a escrita cômica de William Shakespeare. E até em sua tragédia mais emblemática de Shakespeare, "Hamlet", a cena dos coveiros introduz um raro momento de comicidade. Ali, o príncipe dinamarquês manuseia caveiras até reconhecer a de Yorick, antigo bobo da corte que marcou sua infância. A imagem de Hamlet erguendo a caveira tornou-se o símbolo da peça, ilustrando como a comédia também se infiltra no drama.
No espetáculo "A Cabeça de Yorick", Hugo Possolo assina texto e direção em uma proposta que inverte essa dinâmica. Três palhaços idosos exploram a morte sob o prisma do humor, lançando um olhar satírico e provocativo sobre a finitude. Ou seja, uma gota de drama adentra na comédia.
A montagem reúne os Parlapatões Hugo Possolo e Raul Barretto ao artista Nando Bolognesi, integrante da Cia. do Quintal. Cadeirante e portador de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), Nando mergulha na temática da morte com a liberdade da palhaçaria, misturando esquetes, interação com o público e improviso.
A peça se estrutura em cenas independentes, conectadas por um fio sutil, onde os personagens enfrentam diferentes perspectivas da mortalidade. Entre os quadros, destacam-se uma palestra motivacional sobre a vida eterna e uma sequência que compila formas inusitadas de suicídio. A abordagem evita a tragédia convencional, propondo saídas que flertam com a esperança.
Paralelamente, o espetáculo resgata um episódio dos bastidores da primeira encenação de "Hamlet". Nele, o comediante Kemp, insatisfeito com sua participação reduzida, abandona a companhia e arquiteta uma vingança contra Shakespeare.
Os três palhaços também refletem, com ironia e deboche, sobre o papel do homem contemporâneo. Entre contradições e exageros, discutem o conceito do "super-homem sensível e desconstruído".
Brincando com os dilemas da existência, "A Cabeça de Yorick" convida o público a revisitar suas escolhas e a encarar os desafios cotidianos sem perder de vista a potência transformadora do riso.
Hugo Possolo, além de dirigir a ópera "Don Giovanni", que estreia em maio no Theatro Municipal de São Paulo, já planeja as comemorações dos 35 anos dos Parlapatões em 2026. A programação inclui uma exposição retrospectiva, o lançamento de um livro de 500 páginas pela Edições Sesc e a participação no Festival de Edimburgo, onde apresentarão o premiado "Os Mequetrefe".
A temporada carioca de "A Cabeça de Yorick" contará com sessões acessíveis: apresentações com intérpretes de Libras nos dias 28, 3, 10 e 17 de abril, além de sessões com audiodescrição em neste domingo (30) e em 13 de abril.
Os Parlapatões também promovem a oficina gratuita "Comicidade Contemporânea", ministrada por Hugo Possolo, no Sesc Copacabana. A atividade acontece no dia 5 de abril, sábado, das 15h às 17h, com capacidade para 40 participantes a partir de 16 anos. As inscrições serão realizadas no próprio dia, entre 13h e 14h, no Sesc Copacabana.
Criado em São Paulo, o grupo constrói sua trajetória há 34 anos, dedicados à comédia com influências do circo e do teatro de rua. Seus espetáculos percorreram festivais renomados no Brasil e no exterior, com destaque para montagens como "PPP @WllmShkspr", "Sardanapalo" e "U Fabuliô".
SERVIÇO
A CABEÇA DE YORICK
Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)
De 27/3 a 20/4, de quinta a domingo (20h30)
Ingressos: R$ 30, R$ 15 (meia) e R$ 10 (associados Sesc)