Por: Pedro Sobreiro

Angel Ferreira: 'Há uma importância cada vez mais urgente da sabedoria ancestral'

Angel Ferreira buscou inspirações nos ensinamentos de Sidarta Gautama, o Buda, em seu espetáculo, em cartaz no Teatro Poeirinha | Foto: Divulgação

Em 2024, o desabafo de Angel Ferreira sobre a falta de público de seu monólogo "Sidarta" comoveu os cariocas. O vídeo viralizou nas redes sociais e deu uma 'acordada' em parte do público que passou a olhar com mais carinho para o teatro. O vídeo deu resultado e acabou com uma reta final de casa cheia para o monólogo que virou um dos grandes sucessos do último ano. Ao fim da temporada carioca, o ator levou o espetáculo para Goiás e agora retorna às cidade para uma nova temporada, desta vez no Teatro Poeirinha, em Botafogo.

Em entrevista ao Correio da Manhã, o ator comenta os aprendizados deste período com a peça baseada no livro "Sidarta", de Hermann Hesse, e retrata a trajetória do protagonista em sua busca interior, combinando narrador, personagens e interpretação.

"Sidarta" é inspirada no livro de Hermann Hesse. Como ela chegou a você?

Angel Ferreira: Eu tava numa confusão danada, como quase todo mundo, no começo da pandemia. Morando na Chapada dos Veadeiros, ouvindo o rio e sabendo em que fase a lua está. Queria um livro que me inspirasse a falar dessa reconexão com o mato, os bichos. Queria a saga da formação de um personagem que fosse inspirador a ponto de fazer sentido repetí-lo tantas e tantas noites como o teatro faz. Nisso encontrei essa obra infinita que me serve hoje como prática e oração.

No ano passado, você postou um desabafo sobre a falta de carinho do público com as produções teatrais. Felizmente, sua mensagem chegou às pessoas e a reta final da temporada de "Sidarta" no Rio foi marcada por muitos elogios e sessões lotadas. Como você avalia esse apreço - ou a falta de - do carioca pelo teatro?

Na verdade, como a gente passa horas na tela do celular, sinto que há uma importância cada vez mais urgente dessa sabedoria ancestral, dessa tecnologia humana simples, de se juntar pra contar e ouvir história. As pessoas, pós pandemia, pós fim do Ministério da Cultura e sua retomada, parecem cada vez mais conscientes do quanto esse ritual presencial, da comunhão do efêmero - que não é capturado pela memória de uma câmera - é um tipo de medicina. Ir ao teatro, pra mim, sempre representou uma espécie de cura e pertencimento, me ajudando a suportar o mistério de estar vivo aqui e agora. Mas ainda estamos encontrando novos lugares (páginas, blogs, perfis), muitos deles ótimos inclusive, que capilarizam a divulgação da agenda cultural, que antes ficava mais concentrada nos grandes veículos. É um momento que nos pede maior atividade pra buscar e pesquisar o que rola na cidade.

O que poderia ser feito para mostrar que o teatro é uma arte para todos?

Precisamos de políticas públicas de incentivo, que possibilitem ingressos gratuitos, que oportunizem transportes que levem o público para os teatros, e que leve as peças pra todos os lugares que não tem ainda grupos locais. Mas o mais importante pra mim é tornar o teatro uma ferramenta de autoconhecimento, um direito a todes, desde a escola. Tornar as artes cênicas uma matéria tão importante quanto matemática desde a infância. Para que tenhamos médicos, engenheiros ou dentistas mais sensíveis. Se todes tivéssemos feito teatro na escola, teríamos um mundo mais empático, menos bélico e mais livre espiritualmente.

Você sente que o ramo da arte suga a essência artística de atores e atrizes, que, por pressões financeiras, acabam encarando o ofício com um viés mais econômico do que efetivamente artístico?

Quando o artista tá lutando pra sobreviver: comer, morar, ter saúde, se transportar, se sentir seguro... vai ficar numa situação que pode ter que aceitar qualquer trabalho que surja. Quando a gente vê países que tem conseguido criar estrutura econômica cultural, que compreendem que o dinheiro investido em peças, filmes, séries e toda expressão artística dum lugar, traz dinheiro de volta pra sociedade, que gera emprego, renda, mais impostos, e percebe que esse dinheiro não é perdido: então os artistas também podem ser fiéis a suas pesquisas, partilhando com o mundo seus lampejos de percepção sensíveis, podem contribuir seguindo sua essência. Acredito nessa retomada que estamos vivendo e o cinema nacional nos mostrou claramente essa força.

Você recentemente se mudou para Goiás para seguir com seu processo de autodescoberta. O que te levou a embarcar nessa aventura? E como é voltar ao Rio para essa nova fase de "Sidarta"? Há alguma diferença entre o público carioca e goiano?

Tenho base também agora em Cavalcante no interior de Goiás, e quando estou lá sinto a potência da comunidade. Isso de passar na casa de uma amizade à tarde pra poder tomar café, pensar um novo projeto fazendo reunião indo daqui até ali de bicicleta, na rua de terra sem trânsito - lá é uma cidade que não tem semáforo - isso me anima e emociona. Voltar ao Rio é lembrar que no caos urbano também há beleza, e que na verdade fazer essa ponte entre modos de vida tão distintos, onde o tempo é sentido de outra forma, me provoca e inspira meu fazer. Me dá senso de realidade e evita que me aliene em outra bolha. Mas o público é parecido, a diferença é que na Chapada tem menos movimento de teatro, raras peças se apresentam... é trabalharmos pra formar plateia e criar hábito de ir ao teatro. O que compensa é que o público se sente imensamente grato com tudo que acontece lá. Abri a Casa Candeia de Cultura ano passado e tem sido uma grande aventura colaborar com a arte local.