Estudo aponta dificuldades na medicina

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Tâmara, de Tocantins, faz tratamento oncológico em São Paulo

A assistente de produção Tâmara de Araújo, 34, deixou a cidade de Aguiarnópolis (TO) e viajou 1.730 km até Barretos (SP) em busca de tratamento para um câncer de mama. "Minha vida mudou da noite para o dia. Tive que deixar meus filhos e partir", afirma.

Em 2021, ela identificou um nódulo no seio e procurou atendimento médico no Tocantins. "A médica contou que eu não precisava me preocupar, por ser jovem", diz. Dois anos depois, veio o diagnóstico de câncer de mama avançado, luminal B, grau 2 — um tumor agressivo que cresce rápido.

Situações como a de Tâmara não são incomuns. Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), entidade privada sem fins lucrativos focada em aprimorar políticas públicas de saúde, mostra que, em 2023, a proporção de pacientes que buscam tratamento fora das suas regiões de saúde é de 15,3%. Desses deslocamentos, 35% envolvem casos de alta complexidade.

A pesquisa, que usou dados da plataforma FluxSUS, projeto do Ieps que mapeia o fluxo de pacientes no SUS, aponta que diagnósticos como malformações congênitas e neoplasias (tumores) são os que mais forçam a migração de pacientes para além dos limites de suas regiões.

A pesquisadora Frederica Padilha, autora do estudo do Ieps, explica que as regiões de saúde foram criadas para integrar serviços de um conjunto de municípios avizinhados, mas a falta de um responsável claro e o repasse de verbas diretamente aos municípios, e não à região, prejudicam a gestão.

Para Tâmara, permanecer em Aguiarnópolis, na Região de Saúde Bico do Papagaio, diminuiria as chances de sobrevivência. "Se eu estivesse no meu estado, teria que me locomover a todo momento para conseguir as coisas", diz.

Em Barretos, Tâmara conseguiu antecipar o tratamento no Hospital de Amor. Ela e o marido, que precisou se demitir do emprego para ajudá-la, ficaram na casa de uma amiga para conseguirem se manter. "Quando aperta, minha mãe faz rifa no Tocantins para nos ajudar", conta.

O técnico em enfermagem José Victor, 22, viajou 2.200 km de Bom Jardim (MA), na Região de Saúde Santa Inês, até Barretos (SP) para tratar um condrossarcoma, um tipo de câncer ósseo inicial. "Após o diagnóstico, fiquei muito abalado, desenvolvi depressão, ansiedade e algumas fobias", afirma.

No interior paulista, ele passou por uma hemipelvectomia interna, cirurgia rara no Brasil que remove parte da bacia e do osso ilíaco, na parte superior do quadril. Sem vagas nos alojamentos do hospital, ele precisou alugar uma casa, com a ajuda financeira da família, para continuar o tratamento.

Após a cirurgia, José passou dois meses em cadeira de rodas e teve dificuldades para se alimentar. "O Hospital de Amor me salvou", relata, já de volta a Bom Jardim.

Com o aumento no deslocamento de pacientes, o Hospital de Amor expandiu suas unidades no Brasil. Pinto explica que o grande fluxo de pessoas do Norte levou à decisão de criar uma unidade em Porto Velho.

Frederica Padilha, do Ieps, ressalta que, apesar do aumento do número de deslocamentos, já se percebe uma redução na distância percorrida pelos pacientes, resultado da ampliação da rede hospitalar.

A telessaúde tem se destacado como alternativa para reduzir deslocamentos, ampliando o alcance em áreas remotas e facilitando o acesso a especialistas. Dados da Seidigi (Secretaria de Informação e Saúde Digital) mostram que, em 2023 e 2024, foram realizados 141,5 mil teleatendimentos e 1,6 milhão de telediagnósticos.

No Hospital de Amor, a telessaúde tem média de 7.000 teleconsultas mensais, incluindo atendimentos assíncronos.Para Tâmara, a telessaúde oferece conforto ao evitar deslocamentos desnecessários. "Não difere de um atendimento presencial", diz. Ela tem acompanhamento por videochamada e tira dúvidas pelo WhatsApp.

Por Gustavo Gonçalves (Folhapress)