Quando estourou o escândalo do Mensalão na metade do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, os partidos de oposição discutiram se deveriam apostar no impeachment do então presidente ou na evolução de um processo de desgaste que o deixasse sem condições de vencer a reeleição. Optaram pela segunda hipótese: desgastado, Lula ficaria sem condições de se manter competitivo. Passado o escândalo, Lula fez mudanças, conseguiu recuperar o seu governo e acabou reeleito em 2006, terminou seu segundo mandato como o presidente mais popular da história e elegeu Dilma Rousseff sua sucessora em 2010.
Após a Operação Lava Jato, a opção com relação a Lula, então, foi avançar sobre Lula na justiça. Ele acabou condenado e preso. Lula ficou preso por um ano e sete meses e não pôde disputar a eleição em 2018. Mais tarde, descobriu-se o conluio político entre o ex-juiz e hoje senador Sergio Moro (União Brasil-PR) e os procuradores em Curitiba. As condenações contra Lula foram anuladas, ele recuperou seus direitos políticos e pôde concorrer as eleições em 2022, derrotando o então presidente Jair Bolsonaro, que tentava a reeleição.
Assim, nos dois maiores momentos de crise política que sofreu, Lula viu seus opositores optarem por caminhos diferentes, e nas duas oportunidades ele conseguiu dar a volta por cima e virar o jogo. Para o cientista político André Cesar, os dois episódios permeiam a opção que Lula fez agora pela deputada federal e presidente do PT, Gieisi Hoffmann, para a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República.
Aposta de risco
“Lula está fazendo uma aposta de risco”, considera André. “Se der errado, ela não altera o quadro que já estava muito ruim para ele. Se der certo, Lula poderá mais uma vez se valer da ideia de que é um gênio da política, com incrível capacidade de reinventar”.
Segundo apurou o Correio da Manhã, Gleisi não era desde sempre a opção de Lula para as Relações Institucionais. Na verdade, o presidente cogitou fortemente leva-la para a Secretaria de Governo, no lugar de Márcio Macedo. A Secretaria de Governo cuida da interlocução com os movimentos sociais, e Gleisi poderia contribuir para fortalecer o governo junto à própria militância do PT.
No caso, Lula cedia à ideia de dar as Relações Institucionais, que faz a articulação política, para o Centrão. O cálculo superficial era óbvio. Se o Centrão hoje domina a correlação de forças no Congresso, natural que fizesse a articulação. O problema: Lula começou a desconfiar que nada obteria de vantagem caso entregasse o campo da articulação ao Centrão.
Centrão
Na reunião ministerial que fez no final de janeiro, Lula perguntou com todas as letras aos ministros não petistas se seus partidos estariam com ele até o final do governo. Só obteve respostas vagas. Na semana passada, o Correio da Manhã perguntou diretamente ao ministro do Turismo, Celso Sabino, do União Brasil, se seu partido pretendia estar com Lula até o final do governo. “Seria o caso de perguntar ao Gilberto Kassab se o PSD estará com Lula até o final do governo”, foi a resposta de Sabino.
“Ficou claro para Lula que a cada rodada da negociação, o Centrão aumentava o valor do cacife e nada entregava de concreto”, avalia André Cesar. Um exemplo concreto de como os ministros não conseguem garantir apoio dos grupos conservadores aos quais estão ligados é Carlos Fávaro, do PSD, observa o cientista político. “Em vez de aproximar a bancada ruralista e o agronegócio do governo, o Fávaro é que está se afastando, brigando com os ruralistas”.
Solução caseira
Tudo isso levou Lula, avalia André Cesar, a optar por uma solução caseira. Leva Gleisi, da chamada “Turma de Curitiba” (aqueles que mais se aproximaram e prestaram solidariedade e Lula no período da sua prisão na sede da Polícia Federal em Curitiba) para o seu entorno. Abre ainda espaço no comando do PT para outro nome da sua confiança, que é o ex-prefeito de Araraquara Edinho Silva.
A essa altura, portanto, André Cesar já desconfia se haverá mesmo a propalada reforma ministerial mais ampla. Até pelos dados surpreendentes de uma pesquisa Atlas/Intel da semana passada que mediu a popularidade dos ministros.
Segundo a pesquisa, a ministra mais bem avaliada no momento é Simone Tebet, do Planejamento. Ela tem 62% de ótimo e bom. O segundo é Mauro Vieira, das Relações Exteriores, com 54%. E a pesquisa mostra que não estão mal ministros ligados ao PT. Macaé Evaristo, que substitui Silvio Almeida nos Direitos Humanos, tem os mesmos 54% de ótimo e bom. E Wellington Dias, da Assistência Social, que Lula chegou a cogitar tirar há alguns meses, tem 51%.
Na outra ponta, estão ministros que Lula justamente retirou dos quadros do Centrão. O ministro mais mal avaliado é Juscelino Filho, das Comunicações, que pertence ao União Brasil, com 70% de ruim e péssimo. André Fufuca, dos Esportes, filiado ao PP, tem 55% de ruim e péssimo. Mesmo percentual do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Ou seja, na guerra interna no PT com Gleisi, a pesquisa mostra como Haddad ao final ficou chamuscado.