Por: Karoline Cavalcante

Governo brasileiro não consegue negociar tarifaço de Trump

Lula cogita também sobretaxar, como reciprocidade | Foto: Jose Cruz/Agência Brasil

Em meio às crescentes tensões comerciais, o governo brasileiro tem enfrentado desafios para negociar a implementação de sobretaxas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Republicano), que afetarão não apenas o Brasil, mas também outros países. O governo brasileiro tem participado de uma série de reuniões com representantes da administração americana na tentativa de buscar alternativas às tarifas impostas, mas até o momento não há consenso.

O líder republicano vem anunciando que, na próxima quarta-feira (2), será oficialmente implementado o que ele chama de “Dia da Libertação”, quando entrará em vigor a nova rodada de sobretaxas sobre produtos de diversos países, incluindo o Brasil. Atualmente, já vigora a cobrança de 25% sobre as importações de aço e alumínio brasileiros.

Na semana passada, uma comitiva de diplomatas brasileiros, liderada pelo secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, Maurício Carvalho Lyrio, viajou para os Estados Unidos com o objetivo de negociar com a Casa Branca. Durante a visita, que durou três dias, um dos principais tópicos discutidos foi a possível recriação de cotas comerciais para os produtos brasileiros de aço e alumínio. De acordo com a CNN, Trump demonstrou abertura para negociar acordos tarifários, mas deixou claro que qualquer avanço nas discussões só ocorrerá após a implementação das novas sobretaxas, prevista para quarta-feira.

Em um comunicado oficial enviado ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o governo brasileiro expressou preocupação com o impacto comercial das medidas. “O Brasil insta os Estados Unidos a priorizar o diálogo e a cooperação em vez da imposição de restrições comerciais unilaterais, que podem desencadear uma espiral negativa de medidas prejudiciais às nossas relações comerciais mutuamente benéficas”, afirmou o documento, que foi obtido pela Folha de S. Paulo.

Recurso à OMC

Em resposta à possível imposição das tarifas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou, durante sua visita oficial ao Japão, que o Brasil buscará recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) para contestar as novas tarifas. Caso essa medida não traga resultados, o presidente não descartou a possibilidade de adotar medidas de retaliação comercial.

“O Brasil vai tentar negociar ao máximo. Todas as palavras que estão no nosso dicionário de negociação nós iremos utilizar. Mas nós não teremos nenhuma preocupação de recorrer à OMC, que é o lugar onde todos os problemas comerciais deveriam ser resolvidos. Se não for resolvido, temos o direito de impor reciprocidade aos Estados Unidos”, declarou Lula

A possibilidade de recorrer à OMC já havia sido mencionada pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, como parte de uma estratégia para defender o “multilateralismo” e a “complementaridade econômica”. Na ocasião, Alckmin participou de diversas reuniões com representantes do governo dos EUA, buscando formas de evitar as sobretaxas.

Reações 

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também se pronunciou sobre o tarifaço de Trump durante sua participação em um encontro sobre economia e clima na França. Para Haddad, qualquer retaliação aos produtos brasileiros seria injustificável, especialmente diante dos dados econômicos e das décadas de parceria entre os dois países.

“Nós temos uma balança estável e equilibrada; apesar da vantagem dos Estados Unidos em relação ao Brasil, ela está relativamente equilibrada. Nós que teríamos mais espaço para crescer no comércio com eles”, afirmou o ministro, durante uma conferência na universidade Sciences Po, em Paris.