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2016: Um ano memorável

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Confesso que não percebi o momento que registrei a imagem que ilustra esta matéria - durante as convenções municipais em Corumbá do PDT, dia 05 de Agosto de 2016.

Na ocasião fiz uma sequência de imagens da chegada do então Prefeito Paulo Duarte na convenção com meu próprio celular, para ilustrar uma matéria a ser divulgada no dia seguinte no meu jornal MS Diário e essa imagem me chamou a atenção porque independente das razões (provavelmente calor ou a sensação de sufocamento provocado pelo tumulto da chegada), o instantâneo retratou um ar de desespero - ainda que a intenção não fosse essa - e acabou tornando-se uma imagem rara e única.

O mais incrível é que quase perdi todo o acervo de imagens daquela noite, assim como o meu celular - por conta de uma agressão seguida com uma tentativa de roubo (com destruição do meu iPhone) que sofri na saída da referida convenção. Devido uma dessas ironias do destino que só o Universo conhece, meu aparelho semi-destruído foi recuperado pela Guarda Municipal e as fotos puderam ser resgatadas da memória da máquina após muitos dias na assistência técnica - porém meu inseparável aparelho infelizmente não sobreviveu ao ataque.

O que eu não imaginava é que essa foto acabaria tornando-se quase que premonitória - ao ilustrar uma hipotética expressão de desespero - poucos meses depois, com o resultado das eleições municipais quando Paulo foi derrotado pelo seu ex-amigo e ex-compadre Ruiter Cunha de Oliveira, dia 02 de Outubro do mesmo ano.

A luta pela disputa pelo poder em Corumbá foi memorável (e fomos bons em uma análise do que iria acontecer, em Janeiro de 2016). De um lado, um ex-prefeito que apesar de ter o apoio do Governo do Estado do seu lado, fez uma campanha modestíssima e sem respaldo financeiro - aquele apoio moral que no final das contas ajudou, mas não encheu barriga (para se ter uma noção, ouvi dizer que muitas vezes faziam vaquinha para comprar marmitex para o guarda que tomava conta do comitê eleitoral). Do outro lado, um prefeito que tinha toda “a máquina” municipal em suas mãos: obras foram inauguradas o tempo todo durante o ano eleitoral, praças pipocavam pela cidade toda e escolas e creches eram “reformadas” à toque de caixa durante todo o processo eletivo e algumas obras com resultados muito, muito ruins
Subitamente a cidade que ora estava entregue às traças agora tinha uma movimentação estranha, após 3 anos de estagnação. Apenas para título de conhecimento do leitor de como andava Corumbá (uma cidade turística), 6 pontos de hospedagem entre hotéis, pousadas e albergues fecharam na cidade e o comércio em declínio só salvou-se por conta da variação cambial entre dólar e real - os bolivianos fizeram a festa na Cidade Branca em 2015-2016. 

Paulo também teve à sua disposição o maior número de partidos aliados (17 no total), apoio de lideranças importantes do setor comercial e muitos recursos financeiros - como foi observado em sua campanha muito bem produzida, com farto material publicitário e com o agregamento massivo dos funcionários públicos municipais (pelo menos em tese, pois muitos fingiam prestar apoio à ele, temendo represálias dos seus gestores, que não perdoavam “traições”).

Mas nem dinheiro nem a quantidade imensa de partidos aliados, nem o intenso recrutamento e “policiamento” de funcionários públicos e cabos eleitorais além do principal - a gestão da máquina municipal - puderam salvar Paulo de uma derrota memorável, perante seu agora arqui-inimigo Ruiter Cunha. Escrevi um artigo em detalhes, analisando tudo o que aconteceu, neste artigo.

Era um fato que a derrota de qualquer um dos dois teria consequências terríveis para o lado perdedor, principalmente o tão temível ostracismo político - aquele triste fim de carreira que todos os profissionais que levam a política a sério temem: ser um looser, aquele perdedor que vai ficando cada vez mais isolado e todos querem evitar. Ruiter já vinha de uma derrota para Deputado Estadual e já tinha passado pela dor de perder, mas carregava consigo na bagagem de ainda ser lembrado como um dos prefeitos mais populares da história de Corumbá. Paulo por outro lado, ainda não havia perdido (fato pelo qual sua música de campanha soberbamente carregava na letra de uma estrofe a frase: “Nasceu pra vencer”) e estava com a máquina administrativa municipal nas mãos - e carregava nas costas a pressão de NÃO perder. Afinal de contas, mais vergonha do que não ganhar é PERDER o que têm, gerenciando uma série de recursos  possíveis - o que em tese, gera uma vantagem descomunal em relação aos adversários. Daí a vergonha imensurável, o fato de perder com “a máquina” nas mãos.

Por essas razões, as eleições municipais 2016 entraram para a história política da Capital do Pantanal como uma das mais acirradas do nosso Estado, onde o assunto girava apenas entre os dois principais adversários. Elano (PPS) - o terceiro candidato - acabou não se mostrando uma terceira via eficiente, pois nem era mencionado nas discussões políticas exaltadas que acabei acompanhando em vários trechos da campanha - e seu futuro político parece incerto, após sucessivas derrotas.

Mas que 2016 foi um ano memorável, isso foi. Um ano daqueles que nunca mais esqueceremos em Corumbá. Grupos rivais disputavam o voto dos eleitores com uma paixão nunca antes vista na região. Amizades de muitos anos foram desfeitas. Rivais se aliaram. Para quem gosta das emoções provocadas pela política, Corumbá em 2016 foi o cenário ideal.

Paulo é um funcionário público de carreira muito bem-sucedido e proprietário de um patrimônio considerável. Perdeu o poder que tinha em mãos, mas ainda tem amigos influentes e deve continuar sua jornada política em nosso Estado. Provavelmente deve ser convidado a ocupar algum cargo - seja na esfera pública ou privada - relacionado na área do desenvolvimento econômico industrial ou comercial, sua grande paixão.

Agora politicamente, a história é outra. Antes Paulo Duarte poderia vender a imagem que ele tinha pelo menos 20.000 votos em Corumbá. Sim, ele sempre foi um homem de aproximadamente 20.000 votos na terrinha branca, porém com um detalhe: nas duas vezes em que foi Deputado, esses 20.000 votos de Corumbá vieram com ajuda da máquina administrativa municipal - na época nas mãos do  seu então amigo e compadre Ruiter Cunha de Oliveira, o mesmo prefeito que agora derrotou-o. E quando Paulo gerenciou a MESMA máquina como Prefeito, também ficou na casa dos 20.000 votos (21,027 votos) - o que nos leva a crer que independente do candidato em questão, é  “A MÁQUINA” administrativa municipal é que gera esses tais 20.000 votos.

Se porventura Paulo Duarte retornar à carreira política em 2018, ele NÃO terá a mesma performance de votos que teve nas eleições que disputou, pois o grupo político que gerencia “A Máquina” corumbaense agora não tem e não terá o seu nome na lista de parceiros agraciados. Mas confesso que seria interessante ver qual seria a performance REAL de Paulo sem o auxílio da máquina administrativa municipal de Corumbá, nas próximas eleições. Tenho certeza que muitos se surpreenderão com os resultados, inclusive ele mesmo.

Ruiter por outro lado agora carrega em seus ombros o peso de fazer diferente e não errar, se desejar fazer seu sucessor ou aspirar novos ares na política. Paulo tinha a OBRIGAÇÃO de não perder. Ruiter tem agora a OBRIGAÇÃO de fazer a gestão dos sonhos de qualquer corumbaense. Lágrimas, suor e sangue literalmente foram derramados para isso. No fundo, a tarefa não é difícil: basta apenas vestir-se com o manto da humildade, ter plena vontade em fazer o que é certo, saber OUVIR o povo (e não os puxa-sacos de plantão) e jamais deixar que o orgulho, a vaidade e a soberba tomem conta do seu coração.

Há alguns dias, eu vi uma matéria em um jornal da capital com uma “notícia” ensaiando uma volta por cima da derrota do ainda prefeito Paulo Duarte (escrevo esta matéria hoje, dia 31 de Dezembro). Na matéria, Paulo orgulha-se de ter pago os funcionários em dia (algo que é OBRIGAÇÃO de qualquer gestor público - e que ele tentou PARCELAR as dívidas há poucas semanas e a situação curiosamente mudou depois que Ruiter disse que não aceitaria calado essa decisão) e de quebra, ainda alfinetou as outras gestões anteriores, ao opinar sobre shows e “desperdício de dinheiro público”. Para completar, o título da matéria diz que Corumbá é um "oásis" de gestão financeira pública. Oásis.

Com isso Paulo mostra que ainda é um homem de mídia, o prefeito perfeito que preocupa-se apenas em exaltar suas ações e seus feitos “heróicos” - mas ainda não reconheceu seus erros e falhas, insistindo naquele marketing pessoal já batido que tenta transformar água em vinho, sem sucesso. 

Pois como sabemos afinal de contas, se tudo foi mesmo uma maravilha e se o dever de casa foi feito com esmero, com uma gestão eficiente e extraordinária - Corumbá não estaria amanhã com Prefeito novo, não é mesmo?

FELIZ 2017, BUGRADA!

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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