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A Covardia Presidencial e a Hipocrisia Artística

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Por uma série de razões do destino fui criado pelos meus avôs maternos  - e meu avô Domingos era uma espécie de “mediador” dos meus direitos: era ele quem dava a palavra final se eu poderia - por exemplo - jogar bola no Jardim da Independência, desde que meu boletim tivesse em dia ou não tivesse feito alguma travessura durante a semana em questão. Por mais que minha avó e uma tiazona intercedessem à meu favor, se ele dissesse que não, era não e ponto final. Podia chorar e espernear: não era não.

O Domingos - um italianão das antigas - era um homem muito fiel aos seus princípios, sua palavra valia mais do que tudo. Ele usava um vistoso bigode e tenho certeza que aquele ditado do “fio do bigode” cairia muito bem sobre a sua pessoa. Ele tinha palavra, e bolas.

Infelizmente não é isso o que vemos em nosso atual Presidente em Exercício, Michel temer.

Ao extinguir o Ministério da Cultura (e incorporá-lo ao Ministério da Educação) por cerca de uma semana e logo em seguida mudar de idéia - apenas porque um bando de artistas que viviam às custas da Lei Rouanet e que eram beneficiados por outros incentivos “culturais” distribuídos pelo Governo Dilma resolveram “protestar”, Temer mostrou que não tem a coragem necessária para suportar o peso da pressão, sobre suas decisões.

O pior é que além da covardia presidencial de Temer, verificou-se uma burrice tremenda: o grupo pelo qual ele atendeu suas reivindicações é exatamente o grupo que não o apoia de forma alguma e fará de tudo para derrubá-lo do governo. Ou seja, vai dar força para aqueles que não contribuirão de forma alguma para sua gestão. Além de covarde, foi burro. 

Artista no Brasil é um classe trabalhadora muito interessante: é o único trabalhador que você tem que pagar antecipado para que ele possa realizar seu trabalho, para que ele então possa fazê-lo e ganhar mais dinheiro em cima disso. Trabalha sem se importar com os custos. Se tiver patrocínio, trabalho - se não tiver, não. São poucas e raras, as exceções.

Veja a quantidade de patrocínios que as peças de teatro e filmes nacionais têm - isso apenas para ser produzida. A quantidade de patrocinadores é tanta, que eu costumo brincar que ninguém chega atrasado no cinema para assistir um filme nacional, dada a quantidade de créditos de patrocinadores, que são exibidos antes de começar a película.

Quase nenhum artista no Brasil tem BOLAS de chegar em um banco - como qualquer outro empreendedor comum - e botar o nome para fazer um financiamento para custear a sua obra. Quero ver qual é a “estrela” global que tem RABO, para agir dessa forma. A desculpa geralmente é: “isso não é um negócio, é arte, é pelo amor a cultura”.

Até entendo que um ou outro projeto necessite de patrocínio para ser realizado, porque não é viável comercialmente - mas infelizmente não é isso que vemos acontecendo, com shows comerciais sendo realizados com dinheiro que em tese seria público, de Cláudia Leite a Luan Santana. 

Juro que até valorizaria esses protestos, se pelo menos não tivesse conotação estritamente política e fossem realizados de forma hipócrita: afinal de contas não vi nem um protestinho que seja, por conta dos sucessivos cortes que o Ministério da Cultura vinha sofrendo, ano após ano, desde que iniciou-se a gestão de Dilma. Para se ter uma idéia, só em 2015 o Governo Federal bloqueou quase 25% dos R$ 928,5 milhões de reais previstos pela Lei Orçamentária de 2015 para a pasta e destinou esses valores para outras áreas - uma das várias pedaladas de Dilma que estão culminando no seu impeachment.

Nenhum artista se manifestou. Todos fizeram o papel de crianças cagadas, dentro de suas fraldas da conivência.

E essa pataquada artística não se restringiu apenas à artistas globais: na minha cidade natal - Corumbá-MS - um grupinho de “artistas” também realizou um “protesto” pelas ruas da cidade por sinal muito mal gerida por uma administração petista, recentemente convertida para o PDT - aliado de Dilma.

E para que vocês tenham uma noção da hipocrisia de tal “protesto” o mesmo foi iniciado defronte ao Instituto Luiz de Albuquerque, o ILA - um prédio histórico tombado pelo IPHAN que abriga obras e riquezas culturais locais de valores inestimáveis e que está caindo aos pedaços, pela má gestão municipal e sem interesse ou fiscalização do Governo federal.

Perguntem para esses artistas se ALGUM DIA eles fizeram uma manifestação para salvar o ILA ou seu acervo cultural? 

A resposta é óbvia.

Sendo assim, quando um PRESIDENTE afina suas decisões para um punhado de hipócritas, fica complicado acreditar que ele terá BOLAS para realizar os ajustes fiscais, eleitorais e econômicos que um dia se propôs a fazer - afinal de contas, são problemas de uma ordem infinitamente mais complexa do que o simples ato de extinguir um Ministério e todos os parasitas que eram beneficiados por ele.

Dilma - ao contrário - realizou um monte de medidas drásticas (e ruins) e que culminaram na sua impopularidade sem procedentes (e que enfraqueceram-na politicamente até o ponto que todos sabemos), mas ela teve coragem (e cara-de-pau) para isso - fazendo valer jus, ao seu slogan “Coração valente”.

É por isso que fico feliz com a decisão de Temer não sair candidato para uma provável reeleição: afinal de contas, para ser Presidente de um país como o Brasil, tem que ter coragem.

Dilma tinha, Temer não tem.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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