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A falácia das ambulâncias pelo Carnaval

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Que a saúde do Brasil anda pela hora da morte, isso não é novidade para ninguém: que digam os corredores do SUS lotados de gente quebrada, dengosa, zikada e microcefálica.

Então devemos estar certos ao cancelar as verbas destinadas ao Carnaval (aquela festa pagã criada com a anuência da Igreja, pois não conseguiu erradicar o culto à Baco, ainda que sob os mais terríveis castigos físicos e financeiros). Afinal de contas, se você não consegue eliminar seu inimigo, transforme-o! Pois a mesma Igreja sabiamente chegou à mesma conclusão cesariana que o povo não pode sofrer 100% do tempo; e precisa de um pouco de pão e circo de vez em quando, para descarregar o estresse da turba.

“Chega de Carnaval! Precisamos de ambulâncias!”- dizem os novos politicamente corretos.

Também acho. Então devemos acabar também com o São João, outra festa pagã incrustada na nossa cultura. Dinheiro jogado fora, quantas UPAs poderiam ser equipadas com a grana do São João?  
    
Vamos também acabar com o Natal. Imagine a quantidade de energia que os governos pagam nessa época de ano, só para manter essas luzinhas acesas - sem contar com o custo de manutenção das mesmas e da decoração de Natal. Pensem só quantos remédios poderiam ser comprados se acabássemos com o Natal?

E a Festa da Uva, a Oktoberfest, o Festival de Parintins, o Festival das Flores, a Páscoa em Gramado, a Festa do Peão em Barretos e tantos outros eventos culturais e folclóricos que acontecem no Brasil - e que levam o suado dinheirinho dos impostos aplicados na sua essência? Tem que acabar!   
  
Ao invés do Governo gastar nesses eventos - patrocinando e divulgando - deveria estar comprando ambulâncias e remédios, certo? 

Errado.

Aprendam coleguinhas: festas populares não são ruins para o Governo, são boas viu?

Dispa-se desse sentimento de culpa “enquanto você se diverte, tem uma porrada de gente morrendo nesse Brasil”.

Primeiro, porque existe uma coisa chamada “verba orçamentária”, que está presente em todos os níveis do Governo, deste país: a Prefeitura, o Estado e o Governo Federal tem recursos já destinados em LEI, para investirem nessas áreas. Não se preocupem: não é o mesmo montante destinado à saúde e a educação, é coisa muito pequena, se comparado com estes dois itens essenciais ao desenvolvimento da nossa sociedade.

Mas é uma verba que existe para essa finalidade - e não deveria ser usada para outros fins: porque investir nessas festas culturais populares é um puta investimento. 

Primeiro, porque cada lata de cerveja, cada saco de confete, cada espetinho que você compra em um ambulante - já tem os impostos embutidos nesses produtos. Vou dar o exemplo desse último, o espetinho: o Estado recebeu os impostos da compra do palito, da carne, do carvão e dos temperos. E para o ambulante trabalhar, ele teve que pagar uma taxa para a Prefeitura. E o cliente para acompanhar o espetinho, comprou um refrigerante (cujos impostos já estão lá, em cada gole que você tomou) e se der bom, até a camisinha que você usar ou o quarto de motel que você pagar, estarão gerando receitas para o Governo. 

Festas assim, são excelentes para a economia pois o Governo investe um valor pequeno (se comparado com a arrecadação final), movimenta a economia, arrecada impostos, a turma se diverte e todo mundo fica feliz no final. O pão e circo que agrada a todos (César era um gênio, né?).

Até mesmo os que não gostam dessas festas populares, gastam uma grana ( e arrecadam impostos ) em “retiros”, sejam ela espirituais ou não: locação de ônibus, de clubes, compra de comida, bebida, hotéis… todo mundo, invariavelmente acaba ganhando com essas festas.

Mas na cabecinha microcefálica popular, essas festas populares são vistas como GASTOS, e não como INVESTIMENTOS - pois na verdade é exatamente isso que é: um belo investimento.  
  
Afinal de contas, qual é o investimento atual no mercado financeiro,  onde você aplica 2 milhões de reais 20 dias antes do Carnaval e ao final dele, você tem 10, 15 milhões nos seus cofres? Então, né?

Mas Fabão, e as ambulâncias? As ambulâncias não existem, porque você é trouxa, meu amigo. Dinheiro para isso, tem - assim como tem dinheiro para ser investido em festas populares, existe MUITO MAIS DINHEIRO para ser investido na Saúde.  
  
Ademais, comprar uma ambulância não resolverá a vida do município, se não tiver grana para pagar motoristas capacitados, treinamentos periódicos e manutenção da mesma. E depois, grande coisa ter uma ambulância novinha em folha, se ao chegar no Pronto Socorro, não tiver medicamentos ou médicos. Falácias.
 
E o que você fez, durante todo esse tempo? Reclamou bastante nas redes sociais? Fez uma denúncia ao Ministério Público? Se perguntou o que o seu governo fez com o dinheiro que retornou dos investimentos do Carnaval? Continuou votando nos mesmos caras que ano após ano dizem que a coisa vai melhorar - mas nunca melhorou e nem tem perspectivas que isso mude? 

Não adianta colocar a culpa no Carnaval, no São João ou em qualquer outra festa popular que seja. Isso é de longe, a coisa mais ignorante a ser feita, neste momento.

A culpa é sua, que não liga para o que o seu Prefeito faz (ou não faz). A culpa é sua, que não cobra dos vereadores da sua cidade, uma fiscalização efetiva sobre os atos do Executivo Municipal. E a culpa continua sendo sua, se pouco se importa com o que os Governos Estadual e Federal fazem ou deixam de fazer.

Carnaval é bom para todos, tenha certeza disso. O que precisa mudar é a sua atitude - para evitar que o Governo continue brincando e fazendo a folia, com a sua cara.    

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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