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A grama e a grana do vizinho

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Essa semana eu vi uma matéria que saiu na Folha de São Paulo, onde uma família reclamava da queda do poder aquisitivo da sua renda familiar - cerca de oito mil reais mensais - e por isso, tinham trocado as suas idas à restaurantes, pelas praças de alimentação nos shoppings, entre outros cortes no orçamento.  
  
Bastou apenas isso, para a pobre-rica família ser execrada, nas redes sociais. “Pobrezinhos!”, diziam uns. “Vem ganhar o salário-mínimo que eu ganho, para saber o que é economizar na vida!”, esbravejavam outros. Os cheguevarianos urravam “Chora aí, coxinhas malditos!” enquanto os mais moderados, tentavam compreender por que uma família reclamava da sua renda, afinal de contas, uma renda muito acima da média do “pobre trabalhador brasileiro”?

O engraçado é que isso é um grande paradoxo: nós reclamamos, mas pagamos por iPhones de R$ 3.000,00,Playstations de R$ 4.000,00, carros que são fabricados no Brasil e que são vendidos por mais de R$ 60.000,00 - e que são exportados no México, por cerca de R$ 25.000,00.  
  
Nós reclamamos todos os dias, do que os políticos fazem - e do que deixam de fazer com o nosso dinheiro, mas todos os anos eles voltam, porque nós os colocamos lá, novamente, eleição após eleição - mesmo sabendo que a palavra de cada um deles, não vale uma nota de três reais. Podem reparar: quantas caras novas, você vê no pedaço? E quantas raposas-de-sempre, retornaram ao galinheiro?  
 
Nós desejamos ter o mesmo padrão de vida dos irmãos Norte-Americanos, com seus carrões e casas maravilhosas, com gadgets à vontade, mas ao mesmo tempo cultivamos uma cultura imbecil de que “é errado ser rico”. Que paradoxo, não? 
  
Para a maioria do brasileiro, o ideal seria ser rico, mas continuar vivendo na favela - porque o bacana é ser humilde. Favelado é cool - o programa “Esquenta” na Globo, mostra isso para nós, todos os Domingos. Que shopping, que nada. Legal é comer espetinho de carne de segunda, tomar cerveja barata ao som de pancadão, enquanto tiros comem solto, entre as casas amontoadas. Achei bacana, quando o músico Seu Jorge quebrou esse paradigma esses dias, onde explicitou suas razões, por não fazer shows na favela: “Lutei muito para sair da favela - não quero voltar para lá”. Sim, ele está certíssimo.
  
Longe de qualquer preconceito, favela e pobreza não são sinônimos de humildade - são sinônimos de fracasso econômico-social. Qualquer outra romantização da pobreza e da favela, é pura conversa fiada, para domesticarão de massas. “Fique na favela, porque isso é lindo. Seja pobre, porque isso é ser digno. Assim, não precisaremos fazer o nosso trabalho”.  
  
O pior é que esse tipo de comportamento já era conhecido e estudado há muito tempo.  
  
A “Cultura da Pobreza” é uma teoria formulada pelo antropólogo Oscar Lewis em seus estudos de comunidades de Porto Rico e do México. Lewis identificou o que acreditava ser um fator importante na perpetuação da pobreza. Independentemente do que tenha originado padrões de desigualdade e pobreza na sociedade, argumentou Lewis, uma vez sejam eles estabelecidos, a vida de pobreza tende a gerar idéias culturais que promovem comportamentos e pontos de vista que a perpetuam. Os pobres podem perder a ambição de melhorar de vida, adotando a crença fatalista de que trabalho pesado e ambição em nada melhorará sua existência. Assim, essa cultura é transmitida de uma geração à outra. Em um sentido, Lewis sugeriu que à medida que indivíduos se adaptam às circunstâncias da pobreza, eles tendem a desenvolver uma cultura compatível com ela e que por isso a sustentam. Esse fato ajudaria a explicar não só padrões de pobreza em sociedades , mas também a incapacidade de países do Terceiro Mundo de se desenvolverem também economicamente - e nesse caso, o Brasil se encaixa perfeitamente nesse modelo.  
  
O desejo de mudar de padrão de vida existe, mas quando nos damos conta que existem pessoas que possuem um padrão de vida melhor que a média, as mesmas pessoas que gostariam de ter essa vida - se revoltam com as que já possuem, como se o fato delas estarem “aproveitando melhor a vida”, fosse a coisa mais errada do mundo. E continuam nas suas vidinhas de sempre - afinal de contas, “é errado ser rico”.  
  
É claro, existem exceções. Para o brasileiro médio, é certo um pobre garoto humilde (preferencialmente, favelado e negro) se despontar como o rei do futebol e ganhar milhões de euros no exterior. Esse sim, merece - ainda que seja um mau exemplo machista, que trata as mulheres como objeto ou ainda, que sonegue impostos fraudando transações. Não importa, ele mereceu.   Isso também vale para qualquer outra estrela do mundo do esporte ou pop - desde que suas origens remontem ao sofrimento e miserabilidade humana.  
  
Mas se você for um empresário mediano, do tipo que fez faculdade, ralou muito em estágios, engoliu muito sapo em outras empresas - até abrir seu próprio negócio, com a cara e coragem que só quem é empresário neste país sabe como é, nesse Brazilzão que possui os maiores encargos econômicos, sociais e trabalhistas do Mundo - e com o fruto do seu suor e trabalho, usufruir do seu dinheiro - seja em viagens, passeios ou restaurantes -ahhhhhh isso não pode,não!   
  
Não interessa que o empresário médio seja o responsável DIRETO pelo emprego da maioria dos trabalhadores. Esse tipo de pessoa não tem direito algum, para reclamar da queda do seu poder aquisitivo.  
  
Porque ganhar dinheiro honestamente, é errado. É um modo-coxinha-de-ser. Aliás, nem precisa ser empresário, não. Se você ganhar uns dois salários-mínimos neste país, você já pode ser considerado ZELITE. 

O engraçado é que, não raro, você ouvir dessas pessoas a seguinte frase, quando tem ciência que um político esta roubando  dinheiro público: “Tá certo, tem que roubar mesmo. Qualquer um que estivesse lá, faria a mesma coisa” - quando na verdade aquela família lá no início deste texto estudou, ralou, trabalhou, aproveitou as oportunidades que a vida lhe ofereceu e  ao final de tudo, contribui para o resto da sociedade pagando impostos além da média (com imposto de renda, na ordem de 27%)  - enquanto o político corrupto está roubando de TODOS, inclusive dela mesma.
O pior que a renda citada, nem é tão alta assim. É menor inclusive, que a renda média da família norte-americana, aquele padrão que tanto admiramos - porque aqui pagamos mais impostos que lá, e temos o pior retorno governamental possível.  
  
A grama do vizinho realmente, parece muito mais verde.   

Mas o que VOCÊ está fazendo, para melhorar O SEU jardim?

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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