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A morte da velha infância

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No momento em que escrevo este texto, eu tenho 43 anos - pois nasci em 1973. Logo, minha infância foi vivida em uma parte dos anos 70, outra parte entre os anos 80.

Ainda que não tenha nascido em família rica, creio que tive uma das melhores infâncias que um garoto poderia desejar: tive uns 3 bonecos Falcon, Fazendinha, vários Comandos em Ação, muitos Playmobil, Forte Apache, dezenas de carrinhos de ferro MatchBox,  Ferrorama, centenas de bolitas, acabei com meus dedos no Aquaplay e me diverti muito com os jogos de mesa e tabuleiro que me ensinaram a ser estratégico, ousado e a blefar quando necessário: W.A.R., Banco Imobiliário (e que destruiu o relacionamento de muitas famílias), Combate, Detetive e o famigerado e odiado jogo de pega-varetas.

Também me mantinha em movimento andando de bicicleta Caloi, nos skates da Bandeirantes, ou ainda brincando de pega-pega, esconde-esconde, pique-latinha (ou taco, uma versão básica e infantil do baseball). Como boa parte dos meus relacionamentos de amizade na minha infância eram com meninas, também me diverti muito jogando queimada ou pulando corda com elas.

Nessa fase eu fui criado pelos meus avós maternos e uma tia solteirona - então não aproveitei muito o lance de jogar bola ou soltar pipa (e talvez daí meu desinteresse pelo futebol até hoje), apesar de experimentar fazer isso algumas vezes - meu Kichute preferido e com “pelinhos” de novo, que o diga.

Quando eu era criança, eu também tive a oportunidade de ter várias coleções de livros de historinhas - e muitos deles com discos de vinil compactos com a interpretação teatral dessas historinhas que me fazia viajar naquele mundo de fantasia. Sem contar com os GIBIS, os quadrinhos que me divertiam por muito tempo - sejam eles de heróis, da Disney, da Turma da Mônica ou de outros personagens clássicos da época.

Também tive o privilégio de ter em casa vários livros didáticos e enciclopédias que me prendiam em horas e horas de leitura e que foram fundamentais para formar a base do meu conhecimento.

Meu tempo para TV era muito escasso: como eu estudava pela manhã, eu só tinha acesso ao Sítio do Pica-Pau Amarelo e aos desenhos matinais do Sábado e do Domingo (minha cidade Corumbá só tinha um canal de TV naquela época - Globo - e parabólicas ainda não eram uma realidade). Em compensação eu acompanhei muitas séries (e nem sempre recomendadas para crianças) como Magnum, As Panteras, Casal 20, O Homem do Fundo do Mar, SWAT, Hulk, Alf O Eteimoso, Trovão Azul, Águia de Fogo, Dallas, Duro na Queda, AutomanGalactica, Buck Rogers, Ilha da Fantasia e várias outras que só de lembrar agora, chega até a dar um suor nos olhos. E ainda me lembro da alegria que eu senti quando meu avô chegou com uma TV em cores, em casa. Que diferença!

Música? Se eu gostasse de uma música só tinham duas opções: ou ficava sintonizado na melhor estação de rádio disponível e torcia para a música tocar naquele momento ou economizava a mesada para comprar um bolachão de vinil com os sucessos que você gostava, para tocar em sua vitrola particular. Foi assim com a Turma do Balão Mágico, A Patotinha, Genghis Khan e algumas coletâneas de trilhas de TV que eu curtia na época.

Nunca tive condições para ter um Odissey, o primeiro videogame lançado no Brasil - só tive um SuperGame (um genérico brasileiro do Atari 2600) já quando era pré-adolescente - mas me acabava em fichas de fliperama no Flipinho e no Flipão, casas de arcades proibidos por praticamente cada família da cidade, que temiam que seus filhos se envolvessem com “fumo, drogas e jogatina.” Logo esses momentos de prazer foram sempre às escondidas, com alguns memoráveis flagrantes que quase me custaram as orelhas.

Enfim, eu passei por uma experiência memorável em SER criança. Eu desenvolvi a criatividade e a fantasia em minhas brincadeiras solitárias com meus brinquedos, despertei a minha imaginação ouvindo histórias, mantive meu corpo em atividade (e ralado, em uma época que Merthiolate ardia) com brincadeiras que promoviam o exercício físico e desenvolvi qualidades como a paciência, esperando por meus programas favoritos na TV ou músicas nas rádios - e a obediência: se teimasse, nada de TV naquela semana (em uma época que se perdesse UM episódio, já era - nunca mais).

Hoje eu me preocupo com o SER criança, em um mundo cada vez mais informatizado e dominado pela tecnologia. As atividades lúdicas tornam-se cada vez mais raras - quase não vejo mais crianças brincando com brinquedos ou realizando atividades em grupo, como brincar de STOP, por exemplo.

E boa parte dessa culpa é nossa, adultos. 

Em um mundo onde cada vez damos importância para o trabalho, quase não nos importamos com o desenvolvimento saudável dos nossos filhos, desde que eles não encham o nosso saco: e isso vai desde a alimentação junkie-food até ao celular ou tablet precocemente dado à eles com Minecraft - para que não torrem a nossa paciência na hora de assistirmos um filme na Netflix, jogar Candy Crush ou responder às mensagens de besteirosl dos amigos no WhatsApp.

Nós também não nos importamos quando em 2014 o Governo proibiu a veiculação de propagandas de produtos destinado ao consumo infantil na TV aberta. Sem anunciantes, os programas infantis e desenho animado desapareceram dos canais abertos, o consumo de brinquedos caiu e é por isso que vemos hoje brinquedos caríssimos, porque com menor venda - aumentou o custo de sua produção. Fábricas de brinquedos chegaram a falir, depois dessa lei.

Com brinquedos custando mais de R$ 500,00 reais e um tablet basicão para o filhote com vários jogos e acesso ao YouTube começando em R$ 150,00 - quem você acha que está ganhando a guerra? 

Ademais, crianças tendem a imitar os adultos (uma das razões pelas quais tiraram os cigarrinhos de chocolate Pan do mercado) e se seu filho vê você divertindo-se o tempo todo na frente de uma tela de computador, um tablet ou celular - ele vai desejar isso também, obviamente.

Isso, aliado à crescente violência urbana (qual foi a última vez que você viu um grupo de crianças brincando à noite, na rua da sua casa?) acabamos por confinar nossas crianças em casa, onde elas estarão seguras(?) diante dos pixels dos seus dispositivos eletrônicos, ao nosso lado.

A internet veio e trouxe a triste realidade de todos estarem conectados e paradoxalmente separados: foi nesse momento, que a velha infância acabou. Ja vi até grupos de Whatsapp onde participam crianças de 7, 8 ou 10 anos (para a alegria dos pedófilos online). 

E com a morte da velha infância, acabou-se a também fantasia. Eu - por exemplo, ACREDITAVA que era possível existirem aventuras como a dos Goonies e que coisas como O Último Guerreiro das Estrelas seria possível. Mas a mesma internet hoje mostra que tudo não passa de maquiagem e efeitos especiais, tornando muito raro uma criança de hoje em dia acreditar na ficção. Crianças de hoje DÃO GARGALHADAS do Freddy Krueger que me fazia perder várias noites de sono, muitos anos atrás.

Enfim, acabou-se o desejo e a forma saudável de SER criança.

A brincadeira ficou sem graça.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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