Textículo

A Vida que não Vale nada, a omissão que Vale muito.

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Em dois dos meus textos, eu disse que é desumano comparar tragédias e expliquei, no meu ponto de vista, porque os franceses não tem culpa da adesão em massa (ainda que virtualmente), da solidariedade brasileira (razão pela qual gerou muito mimimi nas redes sociais - ainda que a França tenha enviado condolências para o Brasil, uma semana antes dos atentados, em Paris).

Nos dois textos, em muitos comentários, vi pessoas se indagando por quê a grande mídia não está dando atenção para essa tragédia, da mesma forma que os atentados em Paris estão sendo divulgados, nestes rincões tupiniquins.

Deixando de lado todo o contexto de um atentado terrorista, de um grupo maluco que pretende atacar o resto do Mundo para impor a sua fé - e que pode com isso, provocar um conflito de proporções mundais, a resposta é bem simples:  
  
Dinheiro, o velho e bom papel-moeda que compra sangue, silêncio e poder.

Duvida? Então vamos fazer uma breve observação: 50% da Samarco pertence à Vale, e a outra metade, pertence à anglo-australiana BHP Billiton.

Certo…mas e a Vale? Quem comanda a Vale?

A Vale é controlada pela Valepar, com 53,9% do capital votante - e o resto, é distribuído entre o Governo Federal (5,3%), BNDESpar (5,3%), investidores brasileiros (14,8%), ações na Bovespa (16,9%) e 46,2% de investidores estrangeiros.

Acontece que a Valepar, a empresa que CONTROLA a Vale também é toda fatiada: 49% das ações são dos fundos de investimentos administrados pela Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil é o maior fundo de pensão da América Latina); A Bradespar, do Bradesco, tem 17,4%; A multinacional Mitsui, um dos maiores conglomerados japoneses, possui atividades que vão de bancos à petroquímica, passando pela Sony, Yamaha e Toyota, e possui 15%; e o BNDESpar, que tem 9,5% do controle, do controle da Vale. (PS: existe ainda na conta, 0,03% da Elétron e do Opportunity - mas que é irrisório, nesse balancete).

Ficou claro? Ainda que a vida de pessoas, rios, peixes e água potável não tenha preço, a grande imprensa possui outros interesses econômicos - tendo em vista, que boa parte dos proprietários da Vale, são gordos anunciantes, nos grandes grupos de comunicação - e incluso aí o Governo Federal, que costuma ameaçar quem não joga no mesmo time que ele.

Ademais, com muita exposição na mídia, é inevitável a geração de questionamentos. E nesses questionamentos, sairão perguntas como:

- Quem faz a fiscalização dessas minas?
- Quais são os critérios dessas fiscalizações?
- Se existe tanta propina realizada dentro do Governo, quem garante que essas fiscalizações são idôneas?
- Quem valida os procedimentos de segurança, dentro dessas minas? Essas normas de segurança estão sendo REALMENTE, seguidas à risca?
- Se o Governo é responsável pela fiscalização e também é ACIONISTA da empresa, não temos aí um conflito de interesses na hora de cobrar e punir os responsáveis?
- Porque tanta quantidade de metais pesados como o mercúrio, para lavagem de minério de ferro, uma coisa que em tese, deveria ser um processo simples? É sabido que metais pesados servem para separar o ouro, de outros metais. Essa mina teria licença para extrair ouro?
- Não havia um plano de contingência, se o pior acontecesse? Ninguém previu uma catástrofe dessas? Nem se um terremoto acontecesse na região?

Enfim, são várias perguntas sem resposta - e boa parte delas, porque simplesmente eles não querem, que esses questionamentos ocorram. Não é economicamente interessante. Terroristas do ISIS não são anunciantes, então tá de boas.

Não interessa se o Rio Doce (aquele mesmo Rio Doce que foi retirado do nome oficial da Vale ), foi declarado oficialmente, morto .   
  
Não importa se pessoas e animais morreram, ou ainda, centenas de milhares de pessoas terão muitas dificuldades pela frente - inclusos aí, beber água potável.

Nenhum deles quer saber, se até mesmo o ecossistema de Abrolhos, será atingido pela lama tóxica.

Todos eles estão se lixando, se estamos diante da possível maior catástrofe ambiental no Brasil, nos últimos 100 anos.

Apenas o lucro, e bons negócios importam. E sem repercussão, não há engajamento - pelo menos, não da forma como DEVERIA ser.

O que deveríamos fazer? Atacar naquilo que todo grande canal de comunicação mais teme: AUDIÊNCIA! Boicote total, à imprensa que não divulga nada (ou divulga com desdém) uma tragédia dessas. Eles já estão sentindo o impacto da internet em sua grade de programação, há tempos (Vide Netflix, sites de conteúdo alternativos e Torrents).

Mude sua atitude, que eles mudam. Quer um exemplo? 

Lembra-se quando a imprensa chamava os manifestantes de vândalos? Lembra-se quando o apresentador Datena tomou uma surra em tempo real, quando colocou no ar uma pesquisa, cujo resultado ele teve que engolir à seco? Foi só a população se revoltar contra ESSA imprensa, que eles mudaram o discurso, rapidinho, e se posicionaram, ao lado da população - não pelo fato de que eles respeitam o povo e sua forma de pensar  - mas sim - porque anunciante nenhum quer associar sua imagem ou seus produtos, em meios de comunicação mal-vistos pelo povo..e com índices de audiência, em queda livre.

Não veja seus programas. Não acesse seus sites. Mande mensagens de repúdio, para seus editores. Existe um tipo de imprensa que só cai na real, quando os números da audiência caem.

A cidade de Mariana foi coberta de lama tóxica. Jogue um pouco dessa lama, neles. O Rio Doce morreu? Você não! Mostre, que você está vivo!

A Vida para eles, não vale nada - mas para quem realmente se importa, a Vida é inestimável.

E você? Quanto vale uma vida, pra você?

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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