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Análise Eleições 2016: O que aconteceu em Corumbá?

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Corumbá é uma cidade única: e aqui não vos falo apenas pela sua posição privilegiada no Pantanal, seu sotaque diferenciado, cultura e costumes exclusivos. Para que vocês entendam o que aconteceu em Corumbá - uma eleição que praticamente o prefeito Paulo Duarte (PDT) já considerava ganha - e com várias pesquisas dando vitória a ele - é necessário voltar um pouco no tempo, para entendermos esse fenômeno.

A POLÍTICA em Corumbá funciona de uma forma completamente diferente do trivial - só para se ter uma idéia, passamos quase os últimos 20 anos “brigados” com os governadores do Estado - porque aqui o pixito canta: afinal de contas, quem é que fundou esse Estado? Quem é que aguentou mosquito, cheias e sofreu nas mãos dos paraguaios? Quem é que é considerada a Capital do Pantanal de facto? Com o orgulho corumbaense não se brinca, papito - e ai daquele que brincar com essa máxima.

O ÚNICO governador que entendeu isso até hoje ( e parece que Reinaldo Azambuja já pegou o fio da meada ) foi o Zeca do PT: com seu jeito populista e carismático, foi direto no ponto fraco corumbaense e passou a valorizar a Cidade Branca, não apenas enviando recursos, obras e projetos para a região, mas também fazendo-se presente em datas festivas e ocasiões especiais.

O corumbaense em si, é um povo carente de atenção - afinal de contas, vivemos no meio do NADA, cercado de Pantanal de todos os lados (e em um desses lados temos dois países estrangeiros e com menos recursos que a gente). Quem conquista um povo hospitaleiro e brincalhão como o corumbaense, conquista tudo nessa cidade que possui a maior extensão territorial do Estado e é a segunda cidade no ranking de arrecadação financeira do Mato Grosso do Sul.

Sendo assim, Zeca do PT transformou o corumbaense fiscal de rendas Ruiter Cunha de Oliveira em prefeito, em 2005 - logo depois de ter transformado o corumbaense Delcídio em Senador pela primeira vez, em 2002. No ano seguinte, pouco antes de deixar o Governo do Estado (pois não poderia mais se reeleger) ainda conseguiu, com a ajuda de Ruiter (então prefeito de Corumbá) a eleger Deputado Estadual um outro corumbaense fiscal de rendas, pela primeira vez: Paulo Roberto Duarte.

Paulo já tinha sido Secretário de Fazenda, Chefe da Casa Civil e Secretário de Infraestrutura e Habitação durante a gestão do Zeca do PT. Sendo assim, em sua primeira eleição em um cargo eletivo e já direto para Deputado, Paulo teve 18.475 votos em Corumbá e 23.632 votos em outras cidades. Nada mau, para alguém que vivia em Campo Grande e só aparecia em Corumbá de vez em quando. Podemos ver aí claramente a influência de Ruiter (Prefeito de Corumbá na época) e de Zeca em sua primeira eleição.

Neste momento, Corumbá orgulhava-se dos seus três corumbaenses que receberam a benção de Zeca: Ruiter, Delcídio e Paulo Duarte. Corumbá estava em júbilo, nunca foi tão agraciada.

A alegria do corumbaense pela atenção e contemplamento era tanta, que Ruiter foi reeleito em 2008 com 81% dos votos válidos sobre seus adversários. Foi um verdadeiro massacre - e isso porque o Governador na época (André Pucinelli) fazia de tudo para emperrar o processo político em Corumbá. A cidade só não sentia isso mais porque o Governo Federal era do PT e recebia muitos recursos federais - o que amenizou a política da cidade, frente ao Governo Estadual.

Em 2010, Paulo Duarte foi reeleito Deputado Estadual. Mais uma vez, Corumbá foi decisiva em sua reeleição: 20.060 votos só na Cidade Branca, 20.931 no resto do Estado.   
  
Zeca após terminar seu segundo mandato político como Governador, estava afastado do processo. Logo era impossível não creditar esta vitória mais uma vez ao então compadre Ruiter Cunha de Oliveira, que estava na metade do seu segundo mandato. 

Porém nos seus oito anos de administração, Ruiter não fez sucessor dentro do seu grupo, em Corumbá. Não havia ninguém que reunisse as qualidades somadas “competência, carisma e popularidade” entre seus potenciais sucessores. Para que a região permanecesse com o grupo, alguém de fora teria que partir para “o sacrifício”: esse alguém era Paulo Duarte.

Isso de cara não agradou boa parte dos corumbaenses: Corumbá perderia seu ÚNICO representante na Assembléia Legislativa - e deixou muita gente descontente em Corumbá. 

Porém com um bom marketing e mais uma vez o apoio do então compadre Ruiter Cunha que encerrava seu segundo mandato, Paulo se elegeu Prefeito de Corumbá com 53,77% dos votos válidos, o que representou 27.400 votos.

Só que havia um agravante nessa história: Paulo não conhecia mais a Corumbá que ele havia deixado nos anos 80. O população havia crescido e se tornado cada vez mais exigente.

Medidas impopulares como o fechamento da Feirinha da BRASBOL (um camelódromo popular que funcionava atrás do principal cemitério da cidade) e a criação de um secretariado composto em sua grande maioria por pessoas de fora da cidade criaram um clima de antipatia em torno do jovem prefeito cheio de garra que havia chegado na cidade disposto a escrever seu nome na história local.

Paulo ficou muito tempo na metrópole e tempo demais no Legislativo (onde sempre cumpriu seu papel com eficiência) e não se atentou aos detalhes, aqueles pequenos detalhes onde o Diabo mora.

Primeiro, cercou-se de gente profissionalmente inútil (porém conhecedores do gênio forte e temperamento explosivo do Prefeito) - que levavam-no apenas notícias boas e que tudo estava sob controle, quando na verdade tal incompetência de sua equipe refletia-se na crescente insatisfação popular (quem você acha que o povo põe a culpa: em um Secretário ou em um Prefeito?).

Então criou-se uma expectativa muito grande em torno de novidades como o novo sistema de transporte público (após um desgaste judicial intenso com a empresa concessionária anterior) e que no final das contas mostrou-se apenas uma troca de nome e de cor dos veículos: a baixa qualidade na prestação de serviços continuou a mesma.

Depois passou a dispensar atenção a coisas que não eram prioridade administrativa tais como o aplicativo Wazze para saber a rota dos ônibus (um serviço online para um público onde a uma maioria de sua população não tem dinheiro sobrando para comprar créditos de internet móvel), reformas de praças feitas em longo prazo e com má gestão do dinheiro público, criação de praças novas mal-planejadas, instalação de Wi-Fi gratuito em algumas praças (enquanto postos de saúde não recebiam exames por falta de conexão à internet) e a criação de um sistema de coleta de lixo reciclável que mostrou-se inútil, por exemplo.

Corumbá é considerada uma cidade turística, mas a qualidade do turismo e a duração dos seus eventos e principais atrativos caiu muito. Festas populares como o São João, que antes duravam quase uma semana agora não ocupavam mais que três dias no calendário local. O Festival Internacional de Pesca deixou de existir. O Festival América do Sul, que já durou cerca de 15 dias em seus áureos tempos, agora também não passa de três. Para se ter uma idéia do quanto esses eventos são importantes economicamente  para a região, esses dias encontrei com um homem que vendia espetinhos no Festival Internacional de Pesca, quando o mesmo existia:   

“Eu ganhava cerca de R$ 7 mil reais por Festival. Deixei de ganhar 28 mil reais nesses quatro anos. Perdi um carro novo, como vou votar em um cara desses?”.

E nem vamos falar na falta de estruturação e criação de atrativos locais - coisa que Bonito dá um show em Corumbá. Para se ter uma noção do quanto o turismo se tornou decadente no período, cerca de 6 locais de hospedagem fecharam suas portas, na região, entre hotéis, pousadas e hostels.

O episódio do fechamento da BRASBOL causou antipatia imediata dos bolivianos residentes na fronteira e Corumbá. A maioria esmagadora dos bolivianos naturalizados não votaria nele, por conta disso. Uma medida desnecessária, tendo em vista a justificativa e a realidade: a feira foi fechada porque segundo Paulo “estava causando a falência do comércio de Corumbá” - porém o público-alvo da feirinha, a população de baixa renda que pagava R$ 40 reais em uma calça jeans (e que não tem R$ 400 para pagar por uma calça similar no comércio local) continuou comprando em uma feirinha, só que agora do outro lado da fronteira e gastando um dinheiro extra para pegar ônibus.

A saúde preenche um capítulo à parte, pois foi um desastre - e é a Secretaria onde o povo literalmente mais sofre, quando é mal-gerenciada. Para se ter uma idéia do desleixo para com a saúde pública instalada na região, foi justamente na gestão de Paulo que a raiva canina retornou ao nosso Estado, após mais de 20 anos depois de ser erradicada - por conta de uma péssima campanha de vacinação local e pela má vontade em colaborar com a vacinação na fronteira boliviana. Em 2015 e 2016 pessoas morriam com síndrome respiratória aguda grave e várias suspeitas de H1N1 em pleno período carnavalesco - mas a Administração contornou a situação enquanto pode, mesmo quando os óbitos surgiram - criando um clima de desconfiança entre a população e a Prefeitura. A falta de especialistas na cidade no sistema público de saúde ( com  um Centro de Especialidades Médicas que não saiu do papel ) só causou mais revolta para quem precisava de um neurologista ou de um cirurgião-oftalmologista.

Paulo caminhava para o buraco, literalmente: sem manutenção adequada, a cidade encheu-se de buracos (alguns, verdadeiras valas) por todos os bairros e centro - e não havia operação tapa-buraco que desse jeito. A cada pneu furado ou amortecedor quebrado, mais impopularidade.

E Paulo sabia disso. Em 2015 ele contratou uma empresa para fazer uma análise de sua gestão e o resultado não foi animador: em 3 anos de governo, apenas 35% de aprovação. De todos os entrevistados 25% não encontraram NADA positivo em sua gestão. Isso era  preocupante. Muito preocupante.

Finalmente o Prefeito viu pessoalmente uma realidade diferente daquela que lhe era repassada pelas pessoas de sua confiança e resolveu correr atrás do prejuízo, faltando meses para o início do período eleitoral. Mas era tarde demais.

Seu principal adversário político, o agora ex-compadre Ruiter Cunha de Oliveira desde 2015 estava nos projetos do Governador Reinaldo Azambuja. O perfil administrativo do Governador Tucano é muito técnico - e após realizar uma sondagem local em março de 2015 e visualizar que o povo corumbaense sentia saudades da gestão de Ruiter Cunha, não pensou duas vezes em achar formas para recrutá-lo para o seu time. De igual forma, na mesma época começou também um namoro do Governo do Estado com o populista vereador Marcelo Iunes, o político segundo colocado em popularidade em Corumbá. O Governador dava sinais que não jogaria para perder.

Após as eleições de 2014, Ruiter sentiu-se traído pelos seus companheiros - afinal de contas foi notória a falta de empenho do prefeito e ex-compadre Paulo ao não elegê-lo Deputado estadual. Por conta disso, o PT perdeu a sua mais carismática peça em Corumbá em Junho de 2015, quando Ruiter desfiliou-se do partido  - e o homem que um dia tornou o PT de Corumbá o mais forte partido da região agora era um adversário forte o suficiente para erradicar o mesmo “Partidão” de uma vez por todas, na Capital Pantaneira.

Em novembro do mesmo ano, Delcídio (a quem Paulo deu preferência nas eleições 2014) foi preso e caiu em desgraça, como boa parte do PT. Paulo não teria o apoio político-financeiro do seu mentor e o seu partido implodia em denúncias e processos diários de corrupção e lavagem de dinheiro em rede nacional.

Vaidoso, Paulo resolveu sair do PT aos 45 do segundo tempo - e filiar-se ao PDT de Dagoberto, para tentar minimizar os danos do Partido dos Trabalhadores à sua imagem. Não adiantou. Além de não conseguir desvencilhar-se do PT, ainda foi julgado pela opinião pública como um covarde - por abandonar um barco que afundava. Ademais, conectou-se politicamente com o Deputado Federal Dagoberto (PDT), um personagem considerado fraco e inexpressivo politicamente dentro da sua realidade local: Corumbá.

Quando a campanha de Ruiter/Marcelo Iunes consolidou-se, sua derrota dava-se por concretizada, ainda que algumas pesquisas apontassem o contrário: era notório que a Administração estava correndo atrás do prejuízo, mas era tarde demais. Além disso, algumas atitudes corretivas como asfaltar ruas - por exemplo - estavam sendo realizadas com má qualidade e o povo percebia isso. Muitas coisas que não foram realizadas durante os três anos anteriores de sua administração repentinamente passaram a ter destaque na mídia local - e o povo também percebeu.

Repentinamente, problemas de difícil solução como a regularização de terrenos e casas e a emissão de carteirinhas para portadores de necessidades especiais agora eram resolvidos sem nenhuma ou quase sem alguma burocracia municipal. Instantaneamente uma Administração austera e até má-educada nas reclamações postadas nas redes sociais agora era amável e empenhada em resolver os problemas individuais de sua população - e o povo também percebeu isso. 

Paulo Duarte foi o Haddad pantaneiro (Haddad (PT) é o prefeito derrotado de São Paulo que também não conseguiu reeleger-se) pois ambos possuem muita semelhança em seus mandatos e derrotas: jovens e estilosos, fizeram uma política voltada para sua imagem pessoal, mostrando-se como superprefeitos, prefeitos perfeitos em sua visão pessoal e única para transformar um cidade em uma utopia moderna e ecologicamente sustentável: mas falharam no básico, ao não resolver o básico: transporte público, geração de renda e saúde.

Até Zeca do PT, antes um dos responsáveis pela sua construção politica - não o apoiou nesse empreitada. Não fez campanha nem presencialmente, nem virtualmente. Nem um videozinho de celular Zeca enviou para apoiar o Prefeito que estava coligado com o seu partido, o PT. Sem Ruiter, sem Zeca, sem Delcídio, sem Dilma: o Rei estava só.

Sendo assim, não houve marketing, máquina nas mãos e nem um exército de vereadores e funcionários comissionados trabalhando diuturnamente por ele, para vencer essas eleições.

O principal adversário de Paulo, era Paulo.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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