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Cai, cai, avião…

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No dia 23 de maio de 1992 a máfia italiana cometeu um dos seus mais ousados e violentos assassinatos: a do magistrado Giovanni Falcone, que morreu em um atentado que até hoje parece coisa de filme de cinema.

Falcone foi literalmente dinamitado juntamente com sua esposa e juíza Francesca Morvillo e três agentes de sua escolta (Vito Schifani, Rocco Dicillo e Antonio Montinaro).

O extermínio de Falcone foi uma vendetta (vingança) por conta do maxi-processo chamado “Mãos Limpas” (que se assemelha em muito à nossa Lava-Jato) que ele e um outro juiz chamado Paolo Borsellino (e dinamitado 56 dias depois) moveram contra a máfia: centenas de mafiosos (a maioria chefões, autoridades políticas e empresários) foram presos e muitos dos segredos da máfia tais como símbolos, rituais e modus operandi foram revelados ao mundo. Para se ter uma idéia de como a Itália vivia impregnada pela Máfia e a corrupção que caminhava junto com ela, um cara chamado Giulio Andreotti que foi SETE vezes primeiro-ministro da Itália foi condenado definitivamente pela justiça italiana, por associação mafiosa - mas ele estava tão velho na época que foi “salvo” pela prescrição legal. A Máfia tinha em suas mãos centenas de políticos nacionais e locais, empresários, policiais, juízes, promotores, tudo. Quem praticamente comandava a Itália era a Máfia, através de um Estado paralelo.

Voltando ao dia que Falcone morreu, ele tinha saído de Roma - onde preparava projetos de lei antimáfia para o Ministério da Justiça e da Graça e desembarcou no aeroporto militar sicilialno de Punta Raisi. Ele ia à Palermo e sua esposa (que era Juíza da Infância e da Juventude) resolveu acompanhá-lo.

Dois veículos Fiat blindados esperavam por eles no aeroporto, juntamente com seus homens de escolta. Como ele quase não dirigia, resolveu dirigir um dos carros naquele dia - e seu motorista ficou sentado no banco de trás e acabou sendo o único sobrevivente da tragédia.

Para chegar até Palermo, Falcone precisava passar por uma estrada. E foi nessa estrada que o braço da Máfia Italiana comandado por Giovanni Brusca - o capo dei capi (o chefe dos chefes) encheu de dinamite as tubulações de escoamento de água que passavam embaixo da auto-estrada e o próprio Brusca detonou os explosivos assim que viu os carros se aproximando, a partir de uma elevação rochosa próxima, através de um aparelho de rádio.

Assim que o primeiro veículo passou sobre os dutos, os explosivos detonaram. Falcone estava no segundo veículo e morreu no hospital, após várias tentativas de reanimação.

Falcone morreu, mas naquele momento a força da Máfia Italiana começava a morrer, também. 

Falcone foi um dos mentores da Operação Mãos Limpas e muita coisa mudou na legislação italiana, após a sua morte, que teve muita repercussão mundial em uma época onde não havia internet - mas obteve uma pressão popular imensa, por parte dos cidadãos italianos.

A Itália passou a ter uma legislação especial para tratar dos crimes da máfia, pois segundo o entendimento e a experiência dos italianos, não poderiam tratar os mafiosos como criminosos comuns.

Sendo assim, após esses eventos o Ministério Público passou a ter total controle sobre a atividade policial, além de total independência. Aqui no Brasil, as atribuições de Polícia Judiciária são de competência da Polícia Civil - que por sua vez são subordinadas ao Executivo dos Estados e a Polícia Federal é comandada pelo Executivo Federal.

Depois dos assassinatos dos juízes, criaram um corpo de magistrados idôneos e uma polícia especializada em organizações criminosas - permanentemente, não apenas uma Força-Tarefa que poderia ser dissolvida a qualquer momento.

E não foi só isso que mudou: as penas mínimas para os associados à Máfia passaram a ser de 20 anos sem condicional, sem visitas íntimas e com total controle do contato dos presos com o exterior: todas as visitas (inclusive com os advogados) são gravadas, para evitar o controle de um mafioso preso com membros de sua equipe lá fora.

E é claro, a sociedade italiana também fez a sua parte: A Associação Comercial Italiana passou a excluir dos seus quadros não apenas os empresários que tiveram negócios com a Máfia, mas também os empresários que não denunciam os mafiosos e pagam as taxas exigidas pelos mafiosos, para “proteção”.

Mas nada disso teria acontecido se a opinião pública - a pressão popular exigida por um país livre dos tentáculos mafiosos da corrupção - tivesse efeito. O povo exigiu providências das autoridades políticas para que esse câncer fosse extirpado da Itália (o que acabou não acontecendo de facto, mas nunca mais a Máfia teve a importância e o poder que teve em seus “áureos” tempos). 

O Brasil não tem uma “máfia italiana”, mas tem coisa muito pior:  temos organizações criminosas que comandam o país diretamente de presídios e financiam políticos. Temos centenas de políticos contaminados pela corrupção e que continuam dando as cartas no poder. Temos juízes que vivem das benesses financeiras da propina e que aumentam a sensação de impunidade geral que a nasça vive. Temos todo um crime organizado no Brasil que se puxar a “capivara”, a lista vai lá de cima do morro do Vidigal até a rampa do Planalto.

Ulysses Guimarães, Eduardo Campos, Teori Zavascki.  

Um causou prejuízos imensos a grupos políticos, outro tornou-se persona non grata por ser dissidente de um grupo e o último acabou tornando-se a principal ameaça a vários grupos espalhados pelo país.

O que esses homens tem em comum é que cada um deles de uma forma ou de outra - certa ou errada - acabaram estragando os planos de gente poderosa e coincidentemente, todos estavam em veículos aéreos. Eu particularmente, não acredito em coincidências.

Despencar uma aeronave no Brasil não é uma tarefa difícil: basta apenas ter os profissionais certos no aeroporto certo. E depois, dependendo das circunstâncias do acidente, basta jogar a conta no piloto morto - afinal de contas, ele não estará vivo para dar seu depoimento não é mesmo? 

Os métodos que a máfia italiana usava para matar seus desafetos eram violentos propositalmente, justamente para causar o terror em quem pensasse em desafiá-la.

Mortes provocadas por “acidentes” aéreos não tem essa intenção: é só para eliminar o incômodo e seguir em frente, naquela cara-de-pau típica de quem tem o poder, neste país: “não sabia, não sei quem foi, não sei quem fez, não conhecia, nunca vi”: o me-engana-que-eu-gosto que acabamos nos permitindo desenvolver diariamente. Afinal de contas, a dúvida de uma queda traz mais benefícios que a certeza de uma dinamitada em massa.

Até entendo que, pelo devido processo legal e o cuidado em fazer a coisa certa (em parte para não deixar culpados escaparem pelas malditas brechas legais e em parte, para não condenarem inocentes), a Lava-Jato esteja demorando talvez mais que o necessário para prenderem em definitivo, os operadores e chefões da nossa “máfia brasileira”.

Teori morreu sem homologar as dezenas de delações premiadas que alavancaram a operação nos próximos meses, o que resultaria na prisão de gente muito poderosa. Agora o futuro saudável da Lava-Jato parece incerto, pois muita coisa será “travada” e “emperrada” pela morte inesperada do Ministro.

Ou não.

Se o Judiciário for sábio e tiver BOLAS, talvez tomem alguma atitude por virtude da morte desse importante membro e à exemplo da Itália nos anos 1990, passem em definitivo a tratar a corrupção em nosso país de forma diferenciada, com mais celeridade e rigor. Afinal de contas, de nada adianta ter dinheiro, se não tiver VIDA para gastá-lo, né?

Em várias partes do nosso país, existe a lenda que se você se deparar com uma cobra e não matá-la - a mesma acabará picando-o, algum dia.

E aí? Vamos deixar a jararaca viva até quando? 

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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