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Corumbá: Nosso orgulho, nossa ruína

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Eu - como todo bom corumbaense nato  - costumo dizer a todos os meus amigos e conhecidos que Corumbá é, sem dúvida o melhor lugar do Mundo para se viver: fomos abençoados com um Pantanal maravilhoso, nossa cultura é riquíssima em costumes e tradições e temos uma história repleta de grandezas e fortes emoções: como consequência disso tudo, o corumbaense é um povo extremamente orgulhoso de suas raízes - muitas vezes, beirando ao fanatismo. Vôte!

É claro, o corumbaense tem suas razões. Afinal de contas, praticamente todo o povoamento do território imenso dos Mato-Grossos começou por apenas quatro cidades: Cuiabá e Cáceres, ao Norte; Corumbá e Ladário, ao Sul. Na época em que o Mato Grosso era um só, Corumbá chegou a ser a segunda maior e mais importante cidade do Estado - e só não chegou a ser capital do então novo Mato Grosso do Sul, por causa da sua má localização geográfica na fronteira - um problema, para uma capital. Mas mesmo assim, os corumbaenses com seu orgulho centenário não desistiram do seu ego e autodenominaram a cidade como “Capital do Pantanal”. 

Aliás, vou mais longe: a vida na face da Terra começou em Corumbá, onde foi achado o fóssil Corumbella weneri, com cerca de 550 milhões de idade, na Cacimba da Saúde (os dinossauros surgiram há apenas 60 milhões de anos). Pensa no tamanho do orgulho do corumbaense, ao saber que a VIDA na Terra começou ali: aaaaaaaaaaala!

O corumbaense é orgulhoso do seu sotaque, erroneamente confundido com o sotaque carioca, muito comum na cidade de Ladário, esse sim, um frequente ponto da imigração carioca pelos motivos militares óbvios. O sotaque corumbaense é o mesmo sotaque que os primeiros bandeirantes descendentes de portugueses aportaram em suas terras brancas, há quase dois séculos e meio atrás - afinal de contas, ficamos isolados durante muito tempo, longe da casa de titia, o que preservou o nosso sotaque único.

O corumbaense é orgulhoso da sua comida pantaneira, onde o Sarravulho (um prato derivado da culinária portuguesa feito com miúdos de boi, azeitonas, batatas e vinho tinto) é exibido aos visitantes como sua mais fina iguaria, ao lado das comidas importadas dos seus vizinhos latinos, como a saltenha, o arroz boliviano e a sopa paraguaia.

O corumbaense é orgulhoso pelas suas tradições folclóricas e festivas. Do Carnaval ao Banho de São João, para o corumbaense não existe lugar no Brasil onde a cultura seja a mais bonita, a mais colorida, a mais animada.

Mas espia só: o corumbaense enche o peito para falar que resiste à um calor de 45º à sombra, que sobrevive à um frio de gelar os ossos (cujo tempo vira da noite pro dia), que consegue respirar fumaça na época das queimadas no Pantanal e que mosquitos fazem parte do rol de animais de estimação. Baratas? Pffffft! Nós temos aqui o BARATÃO! Baratas são para os fracos, senhoras e senhores!


Essa aqui nem é uma das maiores - até isso está mudando na região.

E até pouco tempo atrás, éramos orgulhosos pela vida tranquila que tínhamos - até que a cocaína e a receptação de carros roubados na fronteira tirassem essa tranquilidade divina dos habitantes da região - e com ela, a tradição de fazer a roda de cadeiras na calçada, onde a família e os amigos sentavam-se para jogar conversa fora, até tarde da noite. Ainda peguei essa época, saudades. 

Sim amigos. Somos orgulhosos por sermos corumbaenses. E é exatamente esse orgulho que nos mata, lentamente.

Nós não admitimos que a nossa Corumbá esteja em franca decadência. Não passa pela nossa cabeça a possibilidade de uma cidadezinha que começou ontem - como Bonito - possua um turismo muito mais evoluído, mais rentável, menos agressivo ao meio ambiente e mais movimentado que o nosso - e sem Pantanal, hein?

De forma alguma vamos admitir que Aquidauana já tenha um cinema moderno e 3D, dentro de um shopping com praça de alimentação - enquanto Corumbá já chegou a ter 4 cinemas comerciais funcionando ao mesmo tempo (eu cheguei a pegar dois, em funcionamento) e que hoje, não tenha nenhum. 

Nunca vamos aceitar o fato de que vivemos uma economia baseada na micro-economia (boa parte dela,informal), que apesar de sermos a segunda fonte arrecadadora do Estado, a renda não é distribuída de forma justa na região. Fazemos de conta que não percebemos a quantidade imensa de negócios informais proliferando na cidade - apenas porque grandes empresas não querem investir aqui; e nas raras vezes que investem, não existe mão-de-obra qualificada porque o Governo não se preocupa com seu povo.

Nem sonhando vamos aceitar o fato que Dourados já tenha uma população duas vezes maior que a nossa, e que seu parque industrial caminha em um rumo tão acelerado, que no ritmo atual demoraremos várias décadas para alcancá-los no seu estado atual, hoje. E nem vou falar de Três Lagoas, essa sim, uma cidade que teve dois senadores que olharam com carinho por ela, de VERDADE: o pai Ramez e e filha Simone.

Mas quá, que vamos admitir que JAMAIS tivemos um Senador corumbaense e pantaneiro, que NUNCA se importou conosco e zelou pelo nosso desenvolvimento - dando um migué em todos nós (e que só votamos nele porque o nosso orgulho corumbaense disse isso)! E assumir que fizemos uma cagada imensa, tirando o único Deputado Estadual que tínhamos na Assembléia e que nos garantia representatividade - para colocar ele literalmente "sentado" na Prefeitura, cujo perfil administrativo ele não preenche (e que não tivemos a capacidade de eleger outro, para substituí-lo)? Aoooooondeeee que vamos assumir isso!

É, meus amigos. É o nosso orgulho que nos cega. Não admitimos em hipótese alguma que alguém de fora nos diga o que está errado. Para o corumbaense, só quem está jogando no campo, é que pode opinar. Nada da opinião do técnico, muito menos da torcida, que está enxergando tudinho (e vendo as coisas erradas que estia acontecendo), de fora do campo. Saiu da cidade? “Traidor, traíra! Quando apertar, você vai voltar!” Para o corumbaense médio, saiu da cidade, perdeu o amor por Corumbá. Mais uma vez, o nosso orgulho sobrepujando a razão.

É o nosso orgulho que cava o nosso túmulo.

Fomos tão abençoados com belezas naturais e fatos históricos que moldaram a forma de ser do corumbaense, que nos acomodamos. Achamos naturalmente que Corumbá é a cereja do bolo do Estado, quando na verdade, as coisas mudaram nas últimas décadas - e muito. O Mundo girou bastante, mas não percebemos - ou não quisemos perceber, porque afinal de contas é Corumbá, não é mesmo?

Se não acordarmos para a realidade em breve e focarmos nossos objetivos em uma Corumbá desenvolvida e próspera, talvez em um futuro não tão distante - a gloriosa Corumbá dos tempos de outrora seja apenas uma vaga lembrança na memória falha de pessoas idosas. O não-aceite de que estamos retrocedendo e perdendo espaço dentro do Estado é um suicídio coletivo.

Para se ter uma idéia do nível de ignorância do nosso povo, ontem eu vi um post de uma amiga que estava realizando um trabalho próximo à cidade pantaneira de Aquidauana, e ficou surpresa com a evolução comercial da cidade - como visto logo abaixo:

E uma das respostas (boa parte delas, indignada - e que só não posto aqui, porque é muita vergonha alheia para um artigo só), acreditem - citou que Corumbá era melhor porque tinha, entre seus atrativos, “as compras na BOLÍVIA, nos shoppings BOLIVIANOS”!

Oi? Olaaaaaaaa? Puerto Quijarro agora faz parte do território brasileiro e corumbaense? Juro que fiquei confuso. As compras efetuadas geram emprego e renda, AQUI? Os shoppings são em Corumbá? Corumbá têm shopping e eu não sabia? Tem alguma coisa errada aí, não é mesmo? 

Essa fuga da realidade, sempre achando uma desculpa para amenizar a nossa incapacidade em lutar pelo progresso, infelizmente é uma característica típica do corumbaense médio - que continua vivendo em suas fantasias ufanistas gloriosas, oriundas do século passado. E quando a coisa complicar demais, é só jogar a culpa no pobre Frei Mariano - outro infeliz que lutava pelo progresso corumbaense, e foi crucificado por isso.

Em resumo, para o corumbaense médio estamos na merda - mas somos corumbaenses e é isso o que importa! Pra quê shopping? Pra quê cinema? Pra quê desenvolvimento? É Corumbá, BUGRADA!!!  É Corumbá e PONTO FINAL!!!  
  
Errado. Muito errado.

Eu não sei se algum dia o nosso povo irá acordar com o espírito progressista e disposto a agitar as águas caudalosas e lentas do Rio Paraguai, a ponto de mudarmos até o curso do nosso destino.

Mas sinceramente do fundo do meu coração eu espero que isso aconteça em breve.  
  
Ou é isso, ou corremos o risco de sermos fossilizados na História, tal como a Corumbella: imóveis, presos no calcáreo branco que tanto amamos, petrificados pelo nosso orgulho, aquela nossa velha incapacidade em reconhecermos falhas e os nossos erros.

Despertai, Corumbá! 

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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