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Cotas: o Apartheid Brasileiro

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Benedito sempre estudou na escola pública. Seus pais tiveram uma vida miserável no Nordeste e tentaram a sorte em Campo Grande, assim que ele nasceu, há 19 anos - logo depois da família frustar-se em São Paulo, onde nasceram dois dos seus irmãos mais velhos.

Depois de muita insistência dos seus pais, que batalharam muito para que o filho tivesse condições de estudar sem precisar trabalhar (muito), convenceram o filho caçula a realizar o ENEM. Benedito só os ajudava na feira aos fins-de-semana (quando não era época de provas) e vinha se preparando para a grande prova, havia alguns meses. 

Seu irmão mais velho queria seguir a carreira de feirante, “não se dava bem com os livros”- conta o pai - e hoje é o braço direito dele, na hora de carregar caixas e mais caixas de frutas. O filho do meio terminou o segundo grau, mas não quis encarar a “prova das provas” nem vestibulares: depois que arrumou um emprego em uma empresa de vigilância como office-boy, fez um curso de segurança particular e hoje trabalha arriscando a vida carregando dinheiro em um carro blindado de uma agência de transporte de valores. 

Mas Benedito ainda era a esperança de Totonho e Lindalva,que os rumos da família Silveira seriam mais prósperos, pelo fato do filho ter um Canudo na mão. E assim, ele fez o ENEM e #partiufaculdade.  

Mas Benedito encontrou um problema nesse sonho: ele tinha nota suficiente para conseguir uma vaga no seu tão sonhado curso de Agronomia - mas infelizmente ele ficou naquele umbral da pontuação, cujas vagas são destinadas às cotas.

Benedito é loiro de cabelo “embolado”, dos olhos mais verdes que você possa imaginar - um capricho da genética dos colonizadores europeus que estiveram no Nordeste, em ação há muito tempo, mas que se perpetuaram geração após geração.

E assim, Benedito ficou esse ano fora da faculdade. Talvez faça mais um cursinho, com as economias que ganhar do seu pai, na feira. Talvez ele se esforçe mais para sair do seu carma de trabalho braçal. Ou talvez ele se conforme com o destino de sua família — e que não será ele a ser o primeiro Silveira “dotô” a trazer o canudo para dentro de casa.

A história acima é fictícia, mas acontece com mais frequência do que você imagina.

As leis de cotas raciais são de longe, a coisa mais absurda já criada dentro do sistema legal brasileiro: ao estabelecer vagas em qualquer tipo de concurso público (e aos poucos, migrando para a iniciativa privada) criamos um sistema onde a lógica da meritocracia passa a ser estabelecida apenas pela côr de pele ou qualquer outro fator discriminatório que alguma “minoria” possa  reivindicar nesse momento, ou em um futuro próximo (LGBTs, ex-usuários de drogas, bipolares, torcedores do América, do Vasco e de outros grupos que por alguma razão sentem-se oprimidos pela sociedade). Basta ter ou criar uma associação ou entidade com esta finalidade e pressionar os políticos - que como todos sabemos - detestam perder votos e ficar com a imagem de “politicamente incorreto”, perante à sociedade.

O absurdo das cotas começa em COMO você estabelece quem é negro ou índio, por exemplo: apenas pela observação visual do indivíduo.

Olhem o meu caso: Avós paternos negros, portugueses e bolivianos. Avós e bisavós maternos italianos e paraguaios, em sua maioria. Mãe branca e pai negro. Quem garante que a minha composição genética é mais negra que branca? A côr da minha pele? Estamos usando o mesmo sistema que Hitler usava para identificar as raças e etnias que ele desejava eliminar? Eu baixo as minhas cuecas e vejo que sou negro. Quando minha mulher  beija meus grossos lábios, é a boca de um negro que ela beija - mas minha pele é clara e meus cabelos são lisos e castanhos. De qual raça eu faço parte? Quem sou eu?

E depois, como fica o caso do negro cujos pais são bem-sucedidos, tendo ele todo o suporte necessário para ter um desempenho razoável ao longo de sua vida escolar - insuficiente para não precisar de cotas, mas suficiente para pegar a vaga de alguém pobre e que realmente precisaria?

Cotas não agregam. Elas separam e discriminam.

Eu tive a oportunidade de conferir isso in loco, quando trabalhei viajando pelo Mato Grosso. Ao visitar um grande cliente, ele me confessou que tinha um grande problema nas mãos: por idéia dos filhos, aceitou implantar um sistema de cotas dentro de sua rede de lojas (para passar a imagem de moderninho e antenado com as últimas tendências sociais) registraram em ata na junta comercial e toda aquela papagaiada para fazer bonito para o SEBRAE, Bancos e instituições avaliadoras - só para descobrir que a contratação destinada a preencher cotas era um problema mais complexo do que eles imaginavam:

A cidade era praticamente colonizada por gaúchos, gente branca, loira e de olhos coloridos. Reservaram 20% das vagas para cotas raciais e não tinha gente para preenchê-las. Haviam vagas em aberto, mas não podiam contratar gente branca; os funcionários existentes ficavam com raiva, porque não podiam preencher a vaga (se a vaga fosse melhor que o cargo que ele ocupava) e não podiam indicar os amigos ou parentes que estivessem desempregados e precisando de trabalho. E quando finalmente a vaga era preenchida, o cotista era visto como “tomador de emprego” e passava a sofrer bullying e discriminação de outros funcionários. Não demorava muito, e geralmente o pobre funcionário cotista pedia demissão. Funcionários negros que já trabalhavam na empresa antes da política de cotas, passaram a serem discriminados: algo que talvez não tivesse ocorrido, se a contratação se desse pela capacitação - e não, pela côr de pele.

A inovação durou um ano - o período de testes que o sábio pai e fundador da empresa havia fixado, antes de tornar o sistema de cotas como princípio imutável da Empresa.

“Deixa essa coisa de cota pro governo”- disse ele.

O mais triste dessa história toda é que o Governo, ao assumir a sua incapacidade de criar uma política educacional forte, investindo a maior parte do orçamento no aprimoramento cultural do seu povo - garantindo de forma real a evolução da nossa sociedade - nos faz regredir 200 anos na nossa história, exatamente nos tempos do Colonialismo Imperial, quando toda uma sociedade olhava para os negros e índios como seres inferiores, incapazes de evoluírem.

Ao tratarmos partes da nossa sociedade como gado, apartando e qualificando de acordo com sua raça, desconsideramos todo o sacrifício que os nossos ancestrais fizeram, para que o Brasil se tornasse livre e democrático - tanto os pobres africanos que foram escravizados (pelos seus conterrâneos) e vieram parar aqui em navios negreiros portugueses, quanto os imigrantes europeus e japoneses que vieram substituí-los após sua abolição (e trabalhavam de forma tão escrava, quanto eles).   

Quando tratamos o negro, o índio, o LGBT e qualquer outra pessoa que por alguma razão sinta-se “discriminada” de forma paternalista e com privilégios superiores aos demais, estamos jogando no lixo todos os direitos e garantias individuais que a Constituição Federal nos garante, desde 1988. Afinal de contas, não seríamos “todos iguais perante a Lei”?

Ahhhh, mas tem a dívida histórica e…

Nunca vi, no nosso sistema legal, algo parecido com o que a China Comunista faz, até hoje: se seu pai cometer um crime e a polícia chegar na sua casa e ele não estiver lá, é você quem vai para a cadeia - até que ele se apresente. Azar seu se ele não aparecer, durante os 10 anos de cadeia que ele foi condenado.

Sendo assim, você pedir reparação por algo que nem o seu tataravô sofreu é de um egocentrismo sem tamanho. E por ironia, os “verdadeiros brancos” do Brasil (italianos, alemães, russos, suecos e ouras colônias de imigrantes europeus), os caras da raça “branca caucasiana” de verdade  só aportaram por aqui depois da abolição. Nem tiveram nada com isso e estão pagando o pato, de graça. 

Na real na real, essa “dívida histórica” deveria ser cobrada dos países africanos que venderam os inimigos do seu povo (às vezes, seu próprio povo) - pois é sabido pela História que os portugueses não adentravam selva africana adentro, caçando presas humanas - eles chegavam nos portos africanos e dispunham de um mercado repleto de “produtos” já prontos para encarar uma viagem intercontinental: mulheres, homens fortes e crianças. Portugueses compravam uma mercadoria que lhes era oferecida. É justamente na na Mãe-África, que essa dívida deveria ser cobrada - mas por conveniência da "causa", não é.

Porém, para uma sociedade evoluída, o passado ficou para trás. Um país que não tem a capacidade de seguir em frente, ficará sempre preso aos ranços do passado. Podemos sim, usar o passado como EXEMPLO, para que erros e abusos não aconteçam mais - mas não viver, em função dele.

Como? Punição severa e exemplar para os crimes de racismo, seja ele qual for. Japa? China? Branquelo? Turco? Negão? Cadeia. Vale para um, vale para todos. Não podemos deixar passar nada em branco (sem trocadilhos). Discriminou pela côr? Cadeia, babaca! Agindo dessa forma, passaremos a enxergar todo e QUALQUER tipo de raça ou etnia como uma só, a raça HUMANA.

Querem uma política de cotas? Que elas sejam então, Cotas Sociais: vagas reservadas para aqueles que não tiveram boas oportunidades na vida, pessoas de BAIXA RENDA, independente da sua cor. Negros não são maioria no Brasil? Então pela lógica não haveria “prejuízos” para a raça negra, se estabelecerem cotas sociais, não é mesmo?

E o mais importante: precisamos ter a garantia que cada brasileiro deste país tenha educação de qualidade, fazendo valer cada centavo de imposto que pagamos de forma absurda, neste país. Uma educação com uma qualidade de tal nível, que não hajam diferenças nos resultados entre um aluno da escola pública, do aluno da escola privada. Não é difícil. Basta ter comprometimento de todos.

O Brasil moderno é conhecido pelo mundo todo como um país agregador e acolhedor de raças, costumes e culturas.

Por favor, não destruam isso.  

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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