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Na Morte, todo mundo é Santo

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Enfim, após todas as tentativas possíveis disponíveis para reabilitar sua saúde em um dos maiores hospitais particulares do país, lamentavelmente Dona Marisa morreu - após uma agonizante luta contra os efeitos devastadores de um acidente-vascular-cerebral ao qual foi acometida no dia 24 de Janeiro passado.

Entre as várias manifestações de ódio e piedade que vejo nas minhas timelines de redes sociais, meu sentimento é inócuo -
em relação à Marisa não consigo sentir pena, não consigo sentir ódio: apenas uma simples indiferença.

Marisa era esposa do ex-presidente Lula e assim como muitos dos seus amigos, desfrutou das benesses conquistadas sabe-se lá a que custo pelo partido que ajudou a fundar, pelo seu marido “ingênuo”, pelos seus filhos envolvidos na Lava-Jato (assim como ela) e toda uma quadrilha de empresários, políticos e funcionários públicos que se organizaram para tomar de assalto dinheiro que era do povo.

Vi com uma certa ingenuidade argumentos que resumiriam-se a esta frase:

“Ela foi uma coitada, corna e testa-de-ferro do marido”.

Engraçado que algumas das mulheres que vi dizerem isso são amigas que, nos seus momentos de desdém à traição alheia, juram que preferem serem chifrudas - mas com dinheiro suficiente para consolar sua dor de corno em Paris - do que estar na condição de corna simplória, como boa parte das mulheres cornudas neste país e que podem, no máximo, aplacar seu sofrimento em Maricá.

Marisa viveu bons anos às custas do povo Brasileiro e nem de longe conseguiu dar um feedback na condição de primeira-dama à altura como Dona Ruth Cardoso, por exemplo - que conseguiu deixar um legado pedagógico e social que tiramos proveito até hoje.

Talvez por isso meu sentimento continua sendo de indiferença.

Ela não deixou legado algum, além de ter seu nome marcado na história do Brasil como a primeira ex-primeira-dama a ser ré na maior ação contra a corrupção no Brasil, a Lava-Jato.

“Eu só sinto pena da família - afinal de contas uma mãe morreu, uma avó morreu.”

Sempre é uma boa argumentação. Mas isso não funciona comigo. Não consigo ser hipócrita, é o meu jeito, eu sou assim. 
  
Pena, eu consigo sentir dos familiares e empregados do empresário Luís Antônio Scussolino (66), de Rio Claro (SP) - que suicidou-se dia 21 de Junho do ano passado. Por conta da crise, precisou demitir 223 funcionários e sua fábrica faliu. Enquanto seu corpo era velado, sua casa era assaltada por bandidos. 

Pena eu sinto dos milhões de brasileiros que perderam empregos, ficaram doentes ou morreram hipertensos, diabéticos, infartados ou com o mesmo AVC que acabou fulminando a ex-primeira-dama (mas que no caso dela era uma doença pré-existente à Lava-Jato) - por conta da crise provocada pelo roubo sistemático e reiterado do dinheiro do povo, aquele mesmo dinheiro que Dona Marisa acabou desfrutando, direta ou indiretamente.

Quantas mães morreram por conta da crise? Quantos pais se mataram? Quantos avôs e avós se tornaram doentes crônicos? Infelizmente não sabemos, porque a  corrupção tem dessas coisas de não conseguir quantificar seus estragos: é gente que morre porque não tinha remédio, porque não tinha médico, porque não tinha polícia suficiente, porque tinha um buraco no caminho, porque o banco comeu - com Dona Marisa sendo partícipe disso tudo.

Todas essas pessoas afetadas por uma situação onde ELA sempre levou vantagens eram também pai, mãe, avô ou avó de alguém. E são para essas pessoas que eu consigo manifestar minhas condolências.

Talvez se Dona Marisa tivesse mostrado o que é ser uma mulher empoderada de verdade (dado um pé-na-bunda no marido canalha que levava a amante para todas suas viagens à trabalho) e não mais uma mulher submissa pelo macho; se Dona Marisa tivesse mostrado que uma mulher de respeito se importava mais com a Ética do que dinheiro e tivesse aberto o jogo de vez na Lava-Jato; se Dona Marisa tivesse procurado reparar os erros que diretamente ou indiretamente ajudou serem cometidos - meu sentimento em relação à ela fosse outro.

Dona Marisa vai embora e deixa filhos e netos muito bem de vida, marido famoso, (ainda) poderoso e uma fortuna considerável (menos o sítio e o triplex, que não era dela e nem de ninguém da família) - ao contrário de milhões de mulheres neste país que partem e só deixam saudades para seus entes queridos, além de contas à pagar.

A Morte meus amigos, vem para todos. E quando ela chega, tudo cessa: dor, ódio, raiva, ideologia conflitante. Cessa tudo.

Porém, a Morte é uma coisa tão paradoxalmente engraçada que até mesmo bandidos acabam virando santos em discursos emocionantes à beira do caixão (ou nas redes sociais). Talvez seja parte da crendice brasileira no subconsciente coletivo - o medo em desagradar o(a) falecido(a), e quem sabe ganhar alguma simpatia de sua provável existência pos-mortem. Talvez seja a nova modinha brasileira em ser politicamente correto, juro que não sei.

Para os que ficam, os sentimentos são variados: amor, paixão, dor, ódio, raiva ou até mesmo o sentimento de Justiça sendo feita (a turma que está brigando com quem está tirando sarro com a morte da Dona Marisa é a mesma que tirou sarro quando morreu o filho do Geraldo Alckmin - sim amiguinhos, o Mundo dá umas voltas estranhas - por isso não desejo a morte de ninguém).

E no final,  a Justiça nem de longe foi feita, na realidade: com sua morte, Marisa escapou de ser julgada e levou consigo uma boa parte do que sabia para o túmulo.

E mesmo assim,  eu só consigo sentir indiferença.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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