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Não fale mal do Brasil, seu vira-latas!

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Quando em 1950 a Seleção Brasileira sofreu do Uruguai uma derrota traumática em pleno Maracanã, o célebre dramaturgo carioca Nelson Rodrigues - o escritor que celebrava a tragédia dos cornos - cunhou a expressão “Complexo de Vira-Lata”.  Disse o Nelsão:

“Por complexo de vira-lata entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima.”

Segundo o escritor, o brasileiro é aquele cara que se acha incapaz de ser grande e mete o pau em si mesmo, sem precisar que mais ninguém faça isso - porque não encontra motivações nem referências para tal.

Discordo enormemente, Nelsão!

O brasileiro é criativo, inteligente e possui uma capacidade evolutiva imensa, basta olhar para a nossa história: a invenção do avião, do balão estático, da chapa de radiografia, do rádio (não, não foi Marconi - foi o padre Roberto Landell de Moura, mas que por ser padre, foi acusado de feitiçaria e ele teve que esconder sua invenção), do cartão telefônico, do identificador de chamadas, do soro antiofídico, da descoberta da Doença de Chagas, o aperfeiçoamento das vacinas e a criação das campanhas de vacinação, além da questionável urna eletrônica - entre inúmeras outras descobertas e invenções que estão em prática pelo mundo todo, facilitando e melhorando a vida do homem contemporâneo. Inclusive o escorredor de arroz

Temos muitas, muitas razões, motivos e referências para nos sentirmos os Reis da Cocada Preta. Porém, o brasileiro tem quatro probleminhas que estão impregnados na nossa cultura de massa e no nosso subconsciente coletivo, há muuuuito tempo:

A PREGUIÇA

O primeiro deles é a preguiça. Cara, como é cansativo ser brasileiro. Só de pensar no trabalho que vai dar, é melhor deixar pra lá. Muitos inclusive deixarão de ler esse texto até o final, porque ele é longo, então vou comentar logo sáporra, porque já tirei minha conclusão, não preciso ler mais (ou vão dar a desculpa que eu escrevi muita merda no início-  logo nem vão se dar o trabalho de ler até o final. Rsrsrrs). Aliás, o brasileiro é tão preguiçoso para ler, que até criaram o apelido pejorativo TEXTÃO, para qualquer texto em que você precise dar duas roladas, pela tela.

Nós até pensamos e temos boas e criativas idéias, mas a preguicinha que nos acompanha desde os tempos indígenas não as deixam se concretizarem. Temos tanta preguiça, que tem até população de um ESTADO inteiro que é estereotipado como preguiçoso, acima da média geral: dando a entender que passam a vida em cima de uma rede, bebendo água de côco. E riem disso, pois faz parte de sua identidade cultural.

A preguiça brasileira reflete-se em toda a sociedade, em especial na política: pra que ter trabalho criando e investindo educação de qualidade para a maioria da população pobre? Dá muito trabalho! Vamos criar cotas e o resto que se vire! O negócio não é facilitar o acesso à "educação superior"? Então toma! 
Pra que realizar campanhas intensivas de trânsito e construir estradas mais seguras? Reduza a velocidade e aumente a quantidade de pardais - dá menos trabalho e é mais lucrativo. Podem observar: boa parte da burocracia brasileira é criada apenas com o intuito de postergar o trabalho a ser feito,  pelo maior período de tempo possível.  

E a prestação de serviços? Trabalhador brasileiro dá uma ESTRANHADA quando vai para fora, pois o ritmo lá é outro - e sem  a legislação trabalhista que existe por aqui, que é uma avó (melhor que mãe). Quantas vezes você entrou em um estabelecimento e parecia que estavam te fazendo um favor, ao te atender? Malemolência rulez!

A MALANDRAGEM

O segundo probleminha, é a malandragem. Nenhum personagem foi tão bem retratado por um estrangeiro, como Walt Disney fez, ao criar o Zé Carioca no filme animado “Você já foi a Bahia?” (The Three Caballeros, 1944). Esperto, malandrão, fascinado por mulheres, samba, cachaça e charutos - o papagaio é o cara que no filme sabe tudo e se diverte com com a ingenuidade dos estrangeiros. Dizem que quem está de fora, enxerga melhor do que quem está dentro - e o Waltão acertou com uma precisão cirúrgica.

Ser malandro no Brasil é cultural: furar fila, estacionar em vaga de idoso ou deficiente (é rapidinho, pô!), pedir para o amigo do amigo do amigo do colega agilizar aquela papelada, passando por cima da burocracia normal; fazer um gato no medidor de energia ou de água, instalar aquele Windowszão Piratex Edition, baixar músicas ilegais ou assistir filmes online na faixa (inclusive compartilhando senha do Netflix) são alguns dos “pequenos delitos” cometidos por uma boa parte dos brasileiros - e sim, quase todos eles acham que é “normal fazer isso” - afinal de contas, segundo eles “todo mundo faz”. Pois saibam que boa parte dos serviços e produtos de consumo possui seus preços mais altos do que seria o justo no Brasil, já prevendo essa quantidade imensa de “espertos” fraudadores - e quem acaba pagando a conta (dobrada), é quem decide viver dentro da legalidade.

Levar vantagem em tudo, independente dos princípios éticos ou legais é algo tão forte em nosso comportamento social, que uma propaganda jogou na nossa cara exatamente essa nossa característica e deu origem à famosa “Lei de Gerson”.  

E justamente por termos a malandragem impregnada na nossa sociedade - como parte do nosso modus operandi - é que a nossa política encontra-se atolada até a testa na lama da corrupção: afinal de contas, quem seriam os políticos senão os representantes do povo? Então. Pois é.

A INVEJA

O terceiro probleminha é a inveja. Eu fui aplaudido e crucificado em um outro texto, onde falei um pouco dessa invejinha que o brasileiro sente, pela grama mais verde do vizinho. Não é a inveja do que eles têm - é a inveja do que NÃO SOMOS

Aí alguns de vocês vão dizer que não é inveja, é admiração. Bullshit. O que mais seria o desejo irrefreável de possuir ou gozar o que é de outrem? Carlos Chagas sentiu isso na pele, quando deixou de ser indicado para o Prêmio Nobel de Medicina, apenas porque seus colegas brasileiros invejaram tanto o seu sucesso que fizeram de tudo para atrapalhar sua indicação - que óbviamente, não aconteceu.

Outros dizem que o Brasil ainda é uma criança, se comparado com outros países e culturas, afinal de contas temos só 515 anos de idade, enquanto outros países possuem milênios de evolução e aperfeiçoamento cultural. 

Grandesbuestas. Colombo descobriu a América em 1492, mas os ingleses só conseguiram realizar um assentamento com sucesso em 1607. Em MIL SEISCENTOS E SETE, é que os gringos começaram a tocar rock de verdade nas bandas de lá - são 408 anos na conta. E não vou nem falar da Austrália, que começou a ser colonizada pra valer em 1788 - ou seja - possui apenas 227 anos de colonização.

Ademais, não creio que a nossa sociedade ainda viva comendo bananas, plantando milho e mandioca no meio do mato e deslumbrada por espelhos e quinquilharias. Temos maturidade e senso de observação suficientes, para ver e compreender o que é bom e o que é ruim, assim como incorporar o que é bom e descartar o que é ruim.

A inveja bate, quando vemos um político gringo pego em alguma merda renunciando no dia seguinte, envergonhadíssimo - e aqui, vemos os nossos esperneando pelo cargo, negando tudo na maior cara-de-pau, lutando até o fim - e não muito raro, pedindo seu voto nas eleições seguintes. E em muito país gringo ( e nem precisa ser país desenvolvido ) os corruptos são presos assim que as falcatruas são descobertas e ficam na cadeia até o julgamento, sem chororô. Tem país que até os manda para o paredão, pois consideram a corrupção, o pior de todos os crimes - e aindam mandam a conta das balas utilizadas na execução, para a família. Como não invejar isso?

Todos nós sentimos esse desejo, esse desejo de deixar a batidíssima frase “O Brasil é o país do futuro” para trás e ser efetivamente o “país do Presente”. Eiiiii! Decola, pelamordedeus!!!  Bastaria colocar esse desejo em prática: mas aí nos deparamos com os itens 1 e 2 pela frente.

MARKETING RUIM

O quarto probleminha é o marketing ruim. Vamos lá, o que os gringos procuram quando vêm ao Brasil? Sexo, caipirinha e samba (o futebol também entrava nessa lista, mas eles não precisam mais disso, pois agora eles compram nossos melhores jogadores). Mas quem é que vende esse pacote para os gringos? Nós mesmos! Nós reclamamos que os gringos só enxergam o Brasil através dessa imagem estereotipada de Praia-Sexo-Bola-Carnaval, mas é apenas isso que vendemos para eles, todos os anos.

Quando seu amigo gringo chegou, o que você mostrou do nosso melhor para ele? Certeza que não foi aquela chatice de bossa nova, nem a melhor receita vegana de Bela Gil. Para qual balada vocês foram? Orgulhou-se ao apresentar a “beleza” da mulher brasileira para ele?

E o marketing ruim externo acaba influenciando o marketing interno, aquela criação da imagem e de um identidade nacional bacana que estimula e incentiva a população a mudar de atitude.

Por exemplo, reclamam que o brasileiro só é patriota em Copa do Mundo - pois segundo a maioria da população, é o que fazemos de melhor - mas quantas escolas tocam o Hino Nacional antes de iniciarem as aulas? Quantos colégios possuem OSPB ou Educação Moral e Cívica em suas grades curriculares? Quantas casas você vê por aí, com bandeiras do Brasil hasteadas em seus jardins (na Copa não vale!)? Quantas pessoas você conhece (incluso você, viu?) que sabe pelo menos o NOME do primeiro presidente civil do Brasil? Há quanto tempo ensinam a Constituição Federal nas escolas brasileiras? Ahhh, esqueci que nunca ensinaram - apenas em setembro desse ano é que o projeto de ensino constitucional nas escolas foi aprovado, criado pelo Romário - um jogador de futebol, por ironia do destino.

Não dá. Se não inspira-se patriotismo, ele não nasce do nada. Patriotismo nada mais é que amor pelo seu local - e você não ama o que não conhece intimamente. Você não seria capaz de dar a sua vida (né, Hino Nacional?) por algo que você não foi acostumado a amar, desde a tenra infância.

Os gringos tem um marketing muito bom. Eles nos vendem sua cultura o tempo todo e nós aceitamos e compramos porque eles também são muito bons em serem vendedores - porque eles ACREDITAM no que estão fazendo e que são os melhores no que fazem. Quem trabalha com vendas, sabe do que estou falando. 

Cito como exemplo o Halloween, festa que vem ganhando força no Brasil, ano após ano. O que a turminha defensora da cultura brasileira fez, quando viu que a invasão tinha começado com a popularização da Internet? Criaram o Dia do Saci. DIA DO SACI! Quando? 31 de Outubro, no mesmo dia que o Halloween. Olha a invejinha aí, pelo sucesso da Dona Bruxa nas nossas bandas.  
  
Há quanto tempo o Saci existe no folclore brasileiro? Pois é. E criaram uma data para ele, apenas no Ano da Graça do Nosso Senhor de Dois Mil e Três, quando a coisa começou a degringolar - ou melhor, gringolar.

É claro que não pegou e não vai pegar nunca. Não fomos induzidos  a incorporar o Saci na nossa cultura durante todo esse tempo - e não será agora que ele fará parte dela, da mesma forma que o Senhor Pumpking Jack já faz.

A essa altura do campeonato, você já deverá ter compreendido que o problema do brasileiro não é um complexo de inferioridade mas sim, vícios culturais que estão impregnados na nossa sociedade há séculos - e quando você passa a observar isso, você não está sendo um “vira-lata”. Você apenas despertou para uma realidade que a maioria não vê, vê mas não gosta - ou pior, vê e finge que não vê.

Sendo assim, não se intimide ao expôr os problemas do nosso país e não se acanhe ao elogiar as coisas que deram e dão certo lá fora - e lute para que sejam aplicadas aqui também. É nosso direito, pô!

Talvez Nelson Rodrigues, acostumado a escrever sobre chifres, traições e outras desonestidades existentes nos relacionamentos humanos, acabou também como um dos seus personagens: não aceitando enxergar a verdade à sua frente. E como um bom corno, criou uma desculpa para o óbvio, pois a verdade sempre é doída, nua e crua, como ela só.

Porém, eu prefiro ser o vira-lata livre que rosna e late para o perigo, do que a cadelinha de madame que não conhece o Mundo além dos muros onde está confinada - e só se importa com a ração-nossa-de-cada-dia-dai-nos-hoje.

E aí? Você também é um vira-latas? Qual é o seu pedigree?

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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