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‘O CARNAVAL DE CORUMBÁ ESTÁ MORRENDO!’

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Essa é a frase que andei ouvindo de amigos e conhecidos nos últimos dias, pelas minhas andanças durante o período do carnaval na cidade de Corumbá - o Point do Carnaval Sul-mato-grossense e considerado por muitos, o maior e melhor Carnaval do Centro-Oeste Brasileiro.

Sim, o Carnaval de Corumbá está morrendo, pelo menos o formato atual que conhecemos. Aliás, se levarmos em conta o passado do Carnaval de Corumbá, a folia de Momo já morreu e renasceu diversas vezes. E como o esperado, esse formato criado em 2005 já está ficando obsoleto e deverá morrer em breve. Para que você entenda como isso está acontecendo, é necessário que você LEIA este texto até o final, antes de mimimizar muito nos comentários. Combinado?

Então vamos começar pela história do nosso Carnaval, para entendermos esse processo:

O Carnaval de Corumbá nasceu nas ruas, na forma de cordões carnavalescos e blocos “sujos”. Por ser um povo isolado geograficamente durante muito tempo, o corumbaense não media esforços para a diversão, em uma terra quente e repleta de mosquitos. Amigos reuniam-se, fantasiavam-se e partiam para as ruas empoeiradas da Cidade Branca com muito álcool na cabeça e confete e serpentina nas mãos (e muitas vezes, com frascos de lança-perfume). Esse formato permaneceu assim até meados dos anos 1950.

Com a criação dos clubes sociais (Riachuelo, Corumbaense, Marítimos, Grêmio, etc.), a festa ganhou um certo glamour e com ela, uma nítida divisão: a nata da sociedade ia para os clubes mais pomposos, a classe média ia para os clubes não tão pomposos quanto os primeiros e os pobres divertiam-se nas ruas, em cordões e blocos carnavalescos simples, mas repletos de felicidade, samba e alegria.

Essa fase do Carnaval dos Clubes e Cordões nas ruas foi um pouco mais longa, indo do finalzinho dos anos 1950 até o final dos anos 1980, quando os blocos particulares passaram a invadir esses espaços privados (Afoga o Ganso, Só Tufando, CuidAIDS, Kalangos Sedentos, Caciquetando, Unidos por Uma Garrafa, entre outros).

Este blogueiro, no carnaval de 1988 no Corumbaense F.C. Linguarudo, desde aquela época. / Imagem: Fotógrafo Wanderley

Porém os clubes - por uma série de razões financeiras e administrativas - deixaram de serem atrativos para seus sócios e faliram (o Corumbaense F.C. foi o único que não fechou suas portas - ao contrário do Riachuelo, Marítimos e Grêmio - mas chegou bem perto), deixando os “blocos de clube” e foliões independentes sem espaço.

Então nos anos 1990 os blocos já sem seus clubes de apoio passaram a ter uma postura independente, em “concentrações” particulares. Começavam também os bailes populares na tradicional Avenida General Rondon e os cordões e blocos mais pobres agonizavam. O carnaval de desfiles era tão pobre, mas tão pobre que a gente só conseguia diferenciar um cordão ou um bloco de uma escola de samba, porque escola de samba tinha um ou dois carros alegóricos (e feios).

Era visível que o carnaval de rua estava moribundo e iria morrer em breve.

Aí vieram os anos 2000, com uma nova mentalidade de governo estadual e municipal que tinha o propósito de valorizar a cultura regional - e valorizou: investiu nos eventos locais, injetou recursos nas escolas de samba e blocos “oficiais”, em shows e atrações nacionais e novamente o carnaval de rua começou a ser atrativo para os foliões. Os blocos independentes cresciam, mas não rivalizavam com as escolas de samba, pois não recebiam recursos públicos (e até hoje não recebem). E nos anos 2000 Corumbá teve o período que eu considero o ápice do seu carnaval, fase esta que foi até cerca de 2010, 2012.

E então começou novamente uma fase de declínio. “Como declínio? A cidade sempre lotou no período de Carnaval!!”. Sim, a cidade fica cheia, mas eu quero que você entenda que o EVENTO CARNAVAL está ficando desprestigiado: as pessoas continuam visitando Corumbá no período carnavalesco, mas não estão participando da festa, da forma como participavam antigamente.

Para você compreender o que estou falando, vamos dar uma olhada no panorama do evento ao longo dos últimos 10 anos?

2009 - De acordo com a Policia Militar, 40 mil pessoas assistiram os desfiles das escolas de samba - e o público do show foi inflacionado pelas descidas de blocos particulares, como o Afoga O ganso e Os cafajestes. Era uma terça-feira de Carnaval.

2010 - A expectativa era de de 20 mil pessoas, e segundo a prefeitura na época, atraiu cerca de 25 mil em seu balanço final, movimentando cerca de R$ 5,4 milhões na economia local. O município investiu cerca de R$ 2,2 milhões e os governo estadual e federal, cerca de R$ 530 mil.

2011 - Para 2011, a expectativa da Prefeitura de Corumbá era a geração de mais de 2 mil empregos diretos ou indiretos e cerca de 10 mil turistas por dia circulando e consumindo dentro da cidade, 2 milhões investidos.

2012 - Expectativa de 10 mil pessoas, nada de anormal.

2013 - A cidade recebeu 8.167 turistas confirmados através de uma pesquisa. Primeiro estudo concreto sobre o assunto.

2014 - Em 2014 surpreendentemente a Prefeitura divulgou que o carnaval de Corumbá atraiu 140 mil pessoas nas cinco noites da folia, o que daria em média um público de 28 mil pessoas por dia. A prefeitura estimou que foi movimentado cerca de 12 milhões na festa. Realidade? Cerca de 8.206 turistas.

2015 - Em 2015 a Prefeitura disse que bateria recordes de público, porque Bonito e outras cidades deixaram de fazer o carnaval naquele ano. Mas a quantidade de turistas não aumentou, aliás foi quase idêntica ao ano anterior: 8.340 turistas.

2016 - Foi o ano do polêmico patrocínio carnavalesco (e o monopólio) de uma cerveja desconhecida ao paladar do corumbaense (ruim, ao meu paladar pessoal). Estranhamente, a prefeitura não apresentou um balanço geral da economia movimentada naquele ano, nem do público recebido. Ficamos sem dados para esse ano.

2017 - Esperados 40 mil foliões durante todos os dias do evento e destes, 10 mil turistas. 99% dos 1321 leitos teriam sido reservados. Os números levantados apontaram que Corumbá recebeu 11.518 turistas e a movimentação financeira no período gerou um fluxo de R$ 1.677,554,08 reais na cidade (comércio formal, comércio informal, barracas, ambulantes, remuneração de postos de trabalho dos blocos oficiais e independentes e gastos dos blocos oficiais e independentes), mas não foram computados os dados referentes a outros segmentos da economia. Sinal ruim. Gastamos mais que arrecadamos?

2018 - Mais uma vez, esperava-se receber pelo menos 20 mil turistas - informação publicada até mesmo no Ministério do Turismo - mas como sempre, acabamos recebendo os mesmos 8.000 turistas de sempre (8568, para ser mais exato). Mas um dado alarmante, que passou despercebido e que já deveria ter acendido o alerta vermelho para os organizadores do evento: apenas 63,4% vieram com o propósito de curtir o Carnaval, ou seja: desses turistas, apenas cerca de 5.432 vieram para o EVENTO Carnaval - o restante veio apenas para aproveitar o feriado. Na época foi divulgado que a cidade movimentou 14 milhões de reais - mas incluiu nessa “movimentação” os investimentos públicos realizados para a execução do Carnaval - algo errado, pois praticamente a maioria desse dinheiro não ficou na cidade (contratação de palcos, atrações nacionais, iluminação, estrutura). Até mesmo o dinheiro repassado para as escolas de samba provavelmente foi gasto na compra de matéria-prima fora da cidade - então essa “movimentação” de dinheiro circulante foi bem menor que a apresentada oficialmente.

2019 - Chegamos a um paradoxo: restaurantes cheios, hotéis lotados, mas o EVENTO Carnaval - especialmente os desfiles dos blocos oficiais e escolas de samba amargaram um público presente bem menor. Com o cancelamento do festejo de Momo em diversas cidades do Estado, a cidade esperava receber o ambicioso número de 30 mil turistas por dia - praticamente quase 4 vezes a média dos carnavais anteriores. Os investimentos (cerca de 3 milhões) continuaram na média dos Carnavais anteriores.

Porém, visivelmente essa debandada de turistas para Corumbá não aconteceu - e essa expectativa da Prefeitura baixou no Domingo de Carnaval para 15 mil turistas (o seria um excelente número, escapando dos oito mil de sempre).

Mas números são números. Se a expectativa de turistas recebidos noticiada fosse 30% a mais que 2018 (que recebeu 8.518 turistas), então esse número seria próximo de 11 mil turistas e não os 15 mil anunciados.

Atente-se ao fato de que os hotéis estavam lotados no período que antecede o Carnaval - comum nessa época do ano, quando termina o período da piracema, preferido pelos pescadores porque em tese encontrarão os espécimes maiores e mais fortes para a pesca esportiva.

Carnaval em Corumbá? Não, Fátima do Sul em 2018. / Imagem: Divulgação

TURISMO ESTÁVEL, EVENTO CARNAVAL MORRENDO

Observando os dados dos últimos 10 anos, concluímos que o número de turistas caiu (eram aproximadamente 12.000 no início dos anos 2010) e manteve-se em média na casa dos 8.000 turistas que comparecem na região durante o Feriado de Carnaval e em nenhum dos anos a expectativa da quantidade de turistas à receber correspondeu à realidade recebida.

E porque o Carnaval de Corumbá - NO FORMATO QUE CONHECEMOS ATUALMENTE - está morrendo? A resposta não é simples e envolve uma série de questionamentos. Vamos lá:

1. Falta de estrutura turística e de eventos

Há pelo menos 30 anos não temos mudanças significativas na rede hoteleira em Corumbá e os restaurantes locais começaram a modernizar-se há pouco tempo, de uma forma geral. Isso significa que durante todo esse tempo a nossa capacidade de receber turistas não aumentou, ainda que tenha aumentado a quantidade de turistas estrangeiros no Brasil e com projeções de um crescimento recorde no setor este ano.

Ou seja, não estamos ganhando tanto dinheiro quanto poderíamos estar ganhando - aliás, estamos perdendo. Pois se a quantidade de turistas está aumentando como uma tendência geral e o setor de turismo local está estagnado sem profundos investimentos, então estamos fazendo algo de errado.

Sabemos que a quantidade leitos em Corumbá não aumentou nas últimas duas décadas, pelo contrário, retraiu - pois se considerarmos que pelo menos um hotel de porte médio (Hotel Internacional, Rua Dom Aquino, Centro) e outras pousadas menores e hostels fecharam suas portas nesses últimos cinco anos, a cidade não ganhou novos leitos com esse empreendimento - e ainda continua no “prejuízo”.

Apenas no ano passado o maior hotel da cidade investiu e ampliou sua capacidade de hospedagem com 36 novos apartamentos, o que em tese corresponderia até 144 leitos a mais, se computarmos a capacidade máxima de 04 hóspedes (apartamentos quádruplos) nesses novos apartamentos.

De acordo com a EMBRATUR, Corumbá ocupa o terceiro lugar no ranking hoteleiro do estado com cerca de 1.904 leitos, mas fica bem atrás da cidade de Bonito, que possui praticamente o dobro de leitos: 3.963, no total.

Ou seja: dos 8.000 turistas que continuam vindo para Corumbá no Carnaval, apenas 2.000 destes se acomodam em hotéis - e os outros 6.000 restantes tem que se virar na casa de parentes, amigos e até mesmo em hotéis e pousadas nas cidades fronteiriças da Bolívia. Incômodo, né?

E mais: nem todos esses leitos disponíveis em Corumbá possuem o mínimo da qualidade aceitável: estão inclusos aí os famosos “muquifos”: hotéis e pousadas com qualidade de higiene duvidável e sem o mínimo de conforto em sua estrutura. O turista que tiver o azar de pegar uma hospedagem dessas dificilmente voltará a visitar nossa cidade. E sim, estamos perdendo turistas por conta desses “empreendimentos” de baixo nível a cada ano que passa. É necessário rigor e fiscalização severa nos empreendimentos que atendem os turistas.

2. Indisponibilidade de linhas aéreas.

Sabemos que quase 80% dos turistas que vem passar Carnaval em Corumbá vêm da Capital, Campo Grande. Viajar 900km (ida-e-volta) de carro, cansado e com o risco de pegar umas capivaras e antas pelo caminho - além de mais de 20 radares, um pedágio e o estresse de final de feriado? Não, obrigado.

3. Falta de diálogo com o Governo Federal.

O que a EMBRATUR poderia fazer para ajudar o desembaraço no turismo das cidades na fronteira? Os estrangeiros (principalmente os bolivianos) deixaram de gastar MUITOS dólares no Carnaval em Corumbá por conta de problemas com a imigração. Os que conseguiram entrar, torraram muito dinheiro por aqui com comida, roupas, presentes e hospedagem. Os mais abastados vieram de Santa Cruz - uma viagem de pelo menos 1.300 km (ida-e-volta)- e por conta dos problemas na imigração esse ano, muitos resolveram voltar para casa sem mesmo ingressar no Brasil.

4. A má-propaganda da violência.

Nos bons tempos do Carnaval em Corumbá - uma época em que os “Direitos dos Manos” não apitavam em todos os assuntos possíveis do planeta - quando alguém se metia em confusão no Carnaval ia preso e só saia na Quarta-feira de Cinzas. Era o castigo para o fanfarrão metido a causar confusão - e dava certo, pois a taxa de violência era menor. Duas mortes no primeiro dia do carnaval do ano passado fizeram a diferença no público esse ano, especialmente o público local. Este ano foi bem tranquilo e sem nenhuma morte, mas também a quantidade de público foi bem menor - pois com o público reduzido, naturalmente aumentou a proporção de policiais para a quantidade de pessoas presentes.

5. Desinteresse das novas gerações pela cultura das Escolas de Samba.

Antigamente existia uma cultura em torno do Carnaval corumbaense que passava-se dos pais para os filhos. Com a “modernização” da sociedade e principalmente do ECA ( Estatuto da Criança e do Adolescente) ficou muito mais difícil a participação de crianças e adolescentes no Carnaval - e com isso, a não-criação de memórias afetivas e emocionais que perdurem a ponto de causar interesse nessas pessoas quando elas atingem a idade adulta. O resultado é esse que estamos vendo: os “fanáticos” pelos desfiles de hoje são apenas as pessoas dos 35 anos para cima, que não vivenciaram essas proibições/restrições dos dias de hoje. Atualmente os jovens não se interessam mais pelos desfiles, preferindo os blocos de sujos e blocos particulares: dá menos trabalho, não existem regras para desfilar e a diversão para eles é maior. Podem observar: os jovens que se envolvem com as escolas de samba locais nos dias atuais são os que tem pais que possuem alguma função dentro da escola (mestre-sala, porta-bandeira, passistas, bateria, etc…) - e olhe lá!

Este escriba com menos de 1 ano de idade, no Carnaval de 1974. Dificilmente o Conselho Tutelar dos dias de hoje permitiria que eu fose para a farra com os meus pais ( ainda mais fantasiado de forma politicamente incorreta, com essa "apropriação cultural") / Imagem: Álbum de Família

6. Não-profissionalização do evento

O Carnaval de Corumbá é diferenciado de muitas cidades do estado, mas não é o único. Fátima do Sul, Três Lagoas e Campo Grande possuem escolas de samba, por exemplo.

Como corumbaenses e bons bairristas que somos, rimos durante muitos anos do Carnaval de Campo Grande - mas eles estão se profissionalizando a passos largos, ano após ano. Aqui as escolas de samba continuam dependendo diretamente dos recursos públicos para a “mágica” acontecer, o que é errado - muito errado. Escolas de Samba deveriam se profissionalizar como um time de futebol: vendendo camisetas, fantasias parceladas no cartão, ter sites com histórias, galerias de imagens, enredos para download, carteirinhas de sócio e tudo o que for necessário para ter um envolvimento emocional com seu folião e sua torcida. Fantasias e eventos com descontos e lugares exclusivos para seus sócios-pagantes,e a palavra mágica: PLANEJAMENTO. Digo PLANEJAMENTO porque esse ano a Prefeitura ADIANTOU com bastante antecedência os recursos para as escolas de samba comprarem adereços e matéria-prima para suas fantasias e carros alegóricos - e o resultado não foi tão bom quanto esperávamos, apenas mais do mesmo. Aliás não consegui distinguir alas de fantasias desse ano das que desfilaram no ano passado - só as compradas fora, sinto muito.

Falando em dinheiro público, esse dinheiro deve entrar como um bônus e não como o recurso principal. As escolas devem buscar e cobrar seus representantes políticos para conseguirem apoio para construirem seus barracões - e com isso, construírem um grande espetáculo DE VERDADE. O que estamos vendo HOJE não justifica uma viagem de 900 km dos nossos principais turistas, pois isso ele já está vendo em Campo Grande. Precisamos mostrar MAIS e MELHOR, precisamos EMPOLGAR o turista para que sua viagem seja uma experiência inesquecível.

Vi turistas em restaurantes e em outros eventos que NÃO DESCERAM para a Avenida porque estavam vendo a qualidade do desfile pelo telão ou pelos seus celulares - e desanimaram de descer.

7. Comodismo no Marketing

Várias cidades cancelaram seus carnavais em 2019. Felizes com essa notícia, nos acomodamos e não fizemos o dever de casa. “Lançar” a festa em um shopping center na capital não garantem 20, 30 mil turistas e caixas registradoras cheias. É necessário uma exposição maciça na mídia para dizer a esse turista que tinha programado brincar seu feriado em outro lugar que estamos aqui de braços abertos para recebê-lo, e recebê-lo BEM. Fizemos propaganda nas cidades onde o Carnaval foi cancelado? Fizemos algo para que o folião que desanimou de pular o Carnaval em Aquidauana porque ele foi cancelado e convence-lo a vir brincar em Corumbá e NÃO descansar em Bonito, pagando até 2 vezes mais caro para isso?

E depois já está mais do que provado que propaganda na TV atinge mais as classes C e D/E. As pessoas com mais dinheiro para viajar e gastar com turismo quase não assistem televisão aberta - mas estão de olho em seus celulares, em sites de notícias, redes sociais e mensageiros instantâneos. Ademais, a mídia eletrônica permite que você visualize o alcance REAL da sua publicidade e se você está tendo resultados - e assim, ajustá-los de acordo com os resultados do monitoramento - coisas que infelizmente os meios tradicionais de comunicação como o rádio e TV não permitem. Até um OUTDOOR nessas cidades resolveria mais que propaganda na TV, por exemplo - porque atingiria as pessoas que tem carro e portanto, com mais probabilidade de viajarem.

A verdade é que com essa noticia de cancelamento do Carnaval em várias cidades nós acomodamos e esperamos as coisas acontecerem - e elas não aconteceram como o esperado, pois outras cidades fizeram seu dever de casa direitinho e comeram uma fatia desse bolo - até mesmo a pequena e quase desconhecida Piraputanga.

8. Praça de Alimentação ruim, comida ruim.

A localização da praça de alimentação não é funcional. Os camarotes e as cercas limitam o acesso do público que está do outro lado da Praça. Se estiver do lado errado e sentir sede ou fome durante a apresentação de uma escola - vai ter que esperar até o final. Talvez por conta disso muitas pessoas levaram suas próprias bebidas e lanches para a Avenida - e não apenas o público dos camarotes.

Também não sei qual foi o critério adotado para conseguir uma barraca para o comércio de comida ou bebidas durante o Carnaval. Mas definitivamente não foram o sabor nem a higiene. Eu esperava uma praça de alimentação rica, variada e saborosa como a que encontrei no Festival América do Sul no ano passado - mas para minha decepção só encontrei pratos pobres, sem sabor (ou salgados demais) e até mesmo salmonélicos (vi molhos expostos borbulhando de fermentação e teve um carreteiro que experimentei que acabou me custando 2 flaconetes para reposição da flora intestinal e muitos litros de água de coco) - com raras, raríssimas exceções.

Quem vendeu bebida não reclamou - porque fez muito calor - mas comida foi um item indigesto nesse Carnaval. Era melhor e mais vantajoso ficar nos restaurantes fora do circuito.

9. Não conhecemos nosso público, muito menos o nosso turista.

Alguns estudos foram feitos no passado (e outros foram feitos de forma dúbia, duplicando dados e coletando-os de forma errada), mas não de forma contínua e confiável. Os estudos que envolvem o perfil do turista tem que ser contínuos, pois o gosto do consumidor é volúvel e muda muito rápido. Logo, um estudo de três, quatro anos atrás não se aplica à realidade atual.

Esse ano PESSOALMENTE entrei em contato com os principais hotéis, pousadas e restaurantes de Corumbá. Perguntei para cada um deles se a Prefeitura ou outro órgão havia deixado um questionário para que o turista preenchesse e assim, ajudar a traçar o perfil do nosso visitante - para aprimorar os serviços oferecidos. Pois é, ninguém fez essa pesquisa. Coincidentemente, apenas no ultimo dia do Carnaval - na TERÇA-FEIRA - quando a festa praticamente já havia acabado para muitos turistas (pois pegam a estrada para voltar para casa), é que me informaram que uma equipe passou entrevistando alguns turistas, em alguns restaurantes - mas é claro, esses dados coletados não corresponderão à realidade do evento como um todo.

Também é errônea uma forma muito usual de coleta de dados no conhecido posto fiscal Lampião Aceso - uma prática de várias gestões - por duas razões:

  • A) O condutor está cansado, viajou centenas de quilômetros para chegar, quer descansar e vai responder o mais rápido possível para se livrar desse incômodo. Logo, os dados não serão confiáveis.

  • B) Não sabemos por quanto tempo esse turista fica na cidade (ele pode ter mudado de idéia e ter voltado mais cedo para casa ou ainda, mudado de planos e seguir caminho pela Bolívia.

A forma mais correta seria deixar um questionário a ser preenchido pelo turista no check-in e um outro questionário de feedback no seu check-out de hospedagem, para saber o que ele gostou e o que não gostou - assim como é feito nos grandes pólos turísticos do Brasil. Nos restaurantes, mais um formulário para o cliente preencher enquanto aguarda a conta - e mais uma vez, ter o feedback dos preços, valor da comida e suas impressões sobre o ambiente. A turma do marketing coletaria e cruzaria essas informações e - com os dados pessoais coletados do turista nesses questionários (telefone, email, WhatsApp) - criaria campanhas personalizadas e mais eficientes para os próximos eventos e até mesmo programar treinamentos e especializações para os profissionais do turismo e empresários que trabalham na região.

É por isso que a maioria dos dados apresentados no balanço de Carnaval causam estranheza. Hoje não sabemos nem se vale a pena investir a média de R$ 3 milhões de reais em um evento desses - porque não sabemos com exatidão a quantidade real de turistas que recebemos, muito menos o dinheiro deixado aqui (em especial os estrangeiros que pagam em espécie e dificultam a contabilidade oficial dessas operações financeiras).

Bloco de sujos e blocos particulares deverão ser a nova tendência dessa nova fase do Carnaval. Até o Rio de Janeiro está visualizando essa tendência. Na foto, este escriba pronto para AHAZAR no Bloco Sujo "Cibalena"- em 2015. / Imagem: Fábio Marchi, via celular.

Carnaval em Corumbá? Não, em Campo Grande. Aos poucos e pelas beiradas eles estão chegando lá. / Imagem: Divulgação

O CARNAVAL DE CORUMBÁ ESTÁ MORRENDO ENTÃO?

Se nada for feito a curto prazo, “morrerá” sim - pelo menos esse formato atual. Vimos ao longo da história que a festa carnavalesca local se reinventou ao longo dos anos e querendo ou não, isso está acontecendo novamente.

Sem atrativos que justifiquem a presença do público na avenida, o povo está dando prioridade para uma diversão pontual nos blocos de sujos, blocos particulares e optando por descansar e relaxar nos dias restantes - evitando assistir ou participar dos desfiles. Os desfiles aliás, deixaram de ser populares: cada edição vemos mais camarotes, maiores, mais pomposos e que criam um nítido apartheid na festa mais democrática da nossa cultura. As cercas ajudaram a manter a ordem para os desfiles, mas tiraram o contato humano da população com suas escolas, distanciando a paixão e a emoção do povão. Cheio de regras e imitando o carnaval carioca - mas sem a glamour deste último - os desfiles perderam sua essência original e tornaram-se mecanizados, rigorosos e desprovidos de empatia. Os cordões, coitados, que deveriam ser um patrimônio cultural da nossa região, foram relegados a um melancólico encerradores de festa - aquele garçom que recolhe as mesas quando o bar fecha - quando na verdade deveriam estar abrindo a folia, pois são eles que preservam heroicamente a tradição centenária ORIGINAL do nosso carnaval.

Sabemos que a cidade não vai deixar de faturar no período, pois a região ainda é um point procurado para descanso, passeios, lazer e compras na Bolívia - o que explica o fato de que hotéis e restaurantes sempre cheios. De outro lado, a cidade está sendo visitada paradoxalmente por um novo perfil de turista: os evangélicos - que vem fugir do Carnaval na cidade mais carnavalesca do Estado. Só de UMA igreja, contei quatro ônibus de turismo, sem contar com as demais.

É necessário que o poder público e a classe empresarial ligada ao comércio e ao turismo passem a conversar mais entre si, pois sem estudos e sem uma real profissionalização do setor, vamos perder fatias maiores do mercado a cada ano que passar.

E aí quando acordarmos, sambaremos bonito - no pior sentido da frase.

PS: A foto de capa deste artigo é da Rua Frei Mariano, às 20:30h da Terça Feira de Carnaval, em Corumbá, este ano.

Fábio Marchi

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