Textículo

Trump: o curioso caso do candidato que foi eleito pela mídia que o atacava

Comente este artigo

Confesso que este ano eu me afastei das eleições presidenciais americanas - em especial porque fiquei diretamente envolvido com o processo eleitoral aqui em terras tupiniquins.

Porém, nas últimas semanas eu resolvi dar uma acompanhada mais atenta no avanço das eleições lá no país do Tio Sam, uma vez que encerraram-se as eleições municipais (segundo turno) aqui no Brasil. 

Eu acompanhei a movimentação dos dois candidatos nas redes sociais e cheguei a comentar com a minha esposa, Ana:

“Trump vai surpreender. A mídia está falando MUUUUUITO dele. Acima do normal, muito mais que Hillary.”

E ela, com seus olhinhos puxados ARREGALADOS me respondeu da forma mais corumbaense possível:

“Aoooondee? Será?”

Toda análise deve ser feita sem emoção ou paixão. Sem simpatia por NENHUM dos dois candidatos americanos, o que eu estava enxergando destoava da situação que me passavam: enquanto todos os meus conhecidos torciam por Hillary Clinton e AFIRMAVAM que ela ganharia as eleições, o cenário que eu enxerguei foi completamente diferente:

a) Hillary falava em proteger a Liberdade (algo que é obrigação de qualquer governo democrático, pela sua própria natureza), Trump falava em proteger o emprego dos americanos, algo real e que afetava DIRETAMENTE a vida diária de milhões de americanos.

Ele citava o exemplo da cidade de Detroit, que foi a falência por conta da política das montadoras americanas em terceirizar sua produção em países onde a mão-de-obra é mais barata e os sindicatos praticamente não existem - como em Taiwan e China, por exemplo. Hoje Detroit - berço da Chevrolet, da Ford, da Chrysler e outras grandes marcas de automóveis - é quase uma cidade-fantasma, com uma taxa de criminalidade altíssima (é mais seguro andar pelas quebradas de Sampa ou em uma favela do Rio, que no CENTRO de Detroit, à noite).

Para isso, Trump prometeu uma política de sobretaxa para os produtos que forem produzidos FORA dos EUA (carros americanos serão sobretaxados em 35%, segundo ele) se quiserem retornar para o mercado americano. Até a Apple entrou no jogo, sendo ameaçada por Trump a produzir iPhones, iPads e Macs em território americano, sob pena de ser sobretaxada quando seus produtos retornarem para o solo americano. 
Os americanos desempregados e com empregos ameaçados é claro, adoraram.

b) Hillary - por exemplo - defendia o aborto em qualquer instância, a qualquer momento (inclusive até em um momento bem próximo ao nascimento). Trump falava em defender a FAMÍLIA e seus valores (em um país de maioria protestante-evangélica).

c) Hillary defendia uma maior abertura dos EUA aos imigrantes (em um momento em que os principais telejornais do país mostravam o problema que a Europa está enfrentando com a imigração ilegal oriunda das guerras do Oriente Médio - causadas  em boa parte por conta de Hillary, que era a Secretária de Estado dos EUA). Trump falava em uma América para os americanos.

d) Hillary defendia a legalização dos imigrantes. Trump batia nos imigrantes ilegais, porque eles não pagavam impostos e “roubavam” empregos americanos. Quem é ilegal não vota, portanto foi um tempo inútil desperdiçado por ambos, sobre o assunto.

e) Trump tinha um tempo maior de exibição na TV, e boa parte desse tempo mostrando os temas polêmicos e declarações escabrosas que ele produzia. Sabem aquele ditado “falem bem, falem mal, mas falem de mim?”. Pois é, ele funciona. Nos EUA não existe propaganda eleitoral gratuita - por isso as campanhas de lá são bilionárias, financiadas por empresas, corporações e pelos eleitores que COMPRAM bonés, camisetas, adesivos, bottons e ainda DOAM dinheiro em espécie para a campanha do seu candidato em questão. 

Trump estava aparecendo mais na mídia, e com isso despertando o interesse daquele eleitor que não ia votar, porque estava de saco cheio da política do país e em especial, da política assistencialista que Obama vinha desenvolvendo nos últimos oito anos. Nos EUA, o voto não é obrigatório, logo tirar essas pessoas de casa foi essencial para sua vitória. 

Eu vi que as coisas estavam caminhando para o lado errado, quando comecei a me deparar com camisetas e bonés SATIRIZANDO Trump, produzidas pela turma de Hillary. Propaganda gratuita sendo paga pelo adversário. Que coisa maravilhosa de se ver, no mundo do marketing.

f) Os EUA tem a opinião pública mais frágil e volátil do Mundo. Qualquer coisa é motivo de escândalo. Bill Clinton (marido de Hillary) quase caiu quando foi Presidente por conta de um inocente boquetinho oferecido por uma estagiária da Casa Branca. Quase toda a classe artística da música, tv e cinema apoiava Hillary Clinton, inclusive aqueles que se envolveram em escândalos. Lady Gaga vestida de nazista apoiando Hillary com certeza trouxe mais prejuízo à imagem de Hillary do que benefícios. Protestos de ativistas peladas no momento da votação - no local onde Trump votava, em um país que tem SEIS fusos horários - só serviu para reforçar a idéia que Trump lançou que Hillary é aquela feminazi da faculdade de humanas, que curte sexo liberal, bebida, drogas e rock’n roll - e quem apoia ela, também faz parte da mesma turma.

g) Na parte de segurança, Trump foi fenomenal. Na média, o americano comum é meio covardão - daí a grande quantidade de armas existentes nos lares americanos. Para o americano médio, quanto mais armas em casa, maior a sensação de segurança. Trump, - ao contrário de Hillary e Obama - não está nem aí para o desarmamento civil. 

O serviço militar nos EUA não é  obrigatório e as Forças Armadas tem que rebolar muito para convencer os cidadãos (inclusive mulheres) a engajarem em um dos exércitos mais belicosos e em atividade do mundo. E Trump já afirmou que a prioridade dos EUA será a política interna, daí o suspiro aliviado do Oriente Médio e da Rússia: espera-se um “descanso” do Exército americano nos próximos anos, com a redução de suas atividades no exterior.

Trump deu destaque à segurança interna, inclusive com a construção do polêmico MURO que separa os EUA do México. Na prática, isso não muda muita coisa: já existe uma enorme cerca de metal e arame farpado nessa fronteira há tempos. Drones e helicópteros sobrevoam a área 24 horas por dia e patrulhas terrestres caçam ilegais o tempo todo, naquela região. 
Bizarramente, até mesmo famílias inteiras de VOLUNTÁRIOS americanos reunem-se aos finais de semana na área de fronteira armados de rifles com miras telescópicas para atirarem em mexicanos ilegais que cruzam a cerca. A Constituição Americana diz que eles estão fazendo o certo, protegendo seu país de invasores estrangeiros.

E isso em uma fronteira onde é comum gangues mexicanas matarem pessoas decapitadas ou queimadas vivas, em pilhas de pneus - para o horror da opinião pública americana.

Logo, construir um muro não é grande coisa a essa altura do campeonato, não é mesmo? O que vai mudar nessa situação é que os ilegais terão que aprender a saltar com vara, se a grande MURALHA for construída. 

E como vimos, não deu outra coisa. Trump venceu as eleições sem muito esforço, prometendo uma administração mais voltada para a política interna, para a economia interna - do que se envolver em questões externas. Rússia e Oriente Médio respiraram aliviados - afinal de contas, existia o grave perigo de uma mulher obcecada pela GUERRA gerenciar diretamente um dos mais perigosos exércitos do mundo - com milhares de bombinhas nucleares à sua disposição.

Hillary não conseguiu convencer o eleitorado jovem a se engajar em sua campanha para apoiá-la de facto (que por sua vez, zoava muito Trump nas redes sociais) e várias pesquisas de análise do seu perfil demonstravam que ela não conseguia passar a imagem de uma mulher confiável. Para muitos americanos, Hillary era uma mulher que usava uma máscara de boazinha e preocupada com as minorias - mas por trás havia uma mulher belicosa e disposta a ir para a guerra, na primeira oportunidade que tivesse.

Trump - ao contrário - sempre falava o que pensava sobre assuntos delicados, polêmicos e sensíveis (para o horror da sua assessoria de comunicação) e com isso acabou conquistando aquele americano que a primeira vista não gostava dele, mas depois passou a admirá-lo por conta da sua sinceridade e honestidade.

“Taí um cara que é meio maluco, mas pelo menos eu sei o que ele pensa, pois ele não esconde isso”. 

E tome voto. 

Para uma sociedade que acredita que o ato de jurar sobre uma Bíblia antes de um julgamento em um tribunal tem validade, falar a verdade, apenas a verdade e nada mais que a verdade tem um grande peso, no final das contas.

E quem o ajudou a ficar conhecido pelos EUA todo? A Grande Imprensa que tirava sarro, que o atacava, que o achincalhava todos os dias. 

Ao abordar temas polêmicos, Trump gerava buzz (um “burburinho”) GRATUITAMENTE e ficava cada vez mais conhecido, ao despertar o interesse de pessoas que passaram a acompanhar suas peripécias (vejo algo parecido acontecendo por aqui).

Não creio que Trump colocará em prática METADE dos temas polêmicos que colocou em voga, em sua campanha. A exemplo de Lula - que em sua campanha disse que não pagaria a dívida externa, que estatizaria a Vale e outras grandes empresas que tinham sido privatizadas e outras fanfarronices - e no final, quando pegou a caneta, saiu-se melhor que o coxinha Fernando Henrique Cardoso em matéria de administração movida à tendência mercadológica capitalista.

Também não acho que isso trará grande impacto na economia. Brasileiros continuarão visitando os EUA e seu visto para a Disney não será cancelado - fique tranquilo. Quem tem que se preocupar é quem está economizando para passar uma semana dormindo no deserto, guiado por um COYOTE - e não quem vai passar pela alfândega de um aeroporto americano, com o passaporte carimbado. Os EUA movimentam por ano 217,9 BILHÕES de verdinhas americanas com o turismo em seu território e eles não serão loucos de diminuir ou pior, acabar com essa receita.

Prevejo uma diminuição na privacidade americana e das pessoas que consumirem produtos de telecomunicação/informática americanos. Trump já deu sinais que não tolerará a proteção da privacidade, em nome da prevenção terrorista: em campanha, Trump até começou uma campanha de BOICOTE à empresa das maçãs - depois que a Apple se recusou a fornecer os dados de um suspeito terrorista ao FBI.

Trump, no final das contas não será nada muito diferente do que Reagan ou Bush Pai ou Bush Filho foram: economia estável, sensação de segurança aumentada e uma política internacional mais fechada. 

Podemos esperar sim, uma sobretaxa dos nossos produtos para a prática de sua política protecionista - então serão uns 4 anos de tempos difíceis para o nosso agronegócio na exportação para os EUA - mas por outro lado, com uma grande produção interna aqui no Brasil e com dificuldades de escoamento, podemos esperar um BARATEAMENTO de alimentos por aqui, em breve.

No final das contas, talvez para nós brasileiros a vitória do Trump não seja tão ruim assim.

A parte chata disso tudo, é que o iPhone vai ficar mais caro.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

Dê sua opinião, comente este artigo!

ATENÇÃO: Os comentários desta matéria são gerenciados pelo Facebook - que posta, agrega os comentários e os exibe nesta página. Este site não se responsabiliza por qualquer comentário indevido, feito à qualquer pessoa ou instituição - sendo cada comentário, de inteira responsabilidade dos seus respectivos autores e as denúncias deverão ser encaminhadas diretamente ao Facebook.