Textículo

O Feminismo Machista que condena “Marcelas”

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Confesso que não imaginava que meu texto “Bela, Recatada, do Lar e Livre” fosse atingir as proporções que atingiu: mais de meio milhão de visualizações, dezenas de milhares de compartilhamentos e centenas de comentários (até o momento da publicação deste artigo).

Porém isso serviu para observar que existe uma quantidade imensa de mulheres que apoiam a Marcela Temer, seu casamento e estilo de vida - contraposto à uma minoria que disse que “não tem nada contra a Marcela, mas que não vai aceitar a imposição de um padrão de comportamento como o único correto”.

É claro que tiveram aquelas pessoas que comentaram só para descer a lenha na pobre Marcela, chamando-a de vagabunda, prostituta e aproveitadora do dinheiro alheio - algo triste de se ver, uma vez que foram comentários escritos por mulheres. Mas para a esperança da humanidade - foram muito poucas que comentaram dessa forma, o que me deixou extremamente feliz (mas menos feliz do que se não tivessem comentado essa vergonha alheia). 

E teve também uma minoria que me acusou de não entender absolutamente nada de feminismo - inclusive na palavra de algumas, sou um “machista enrustido”. 

Confesso que isso me machucou. Machucou porque não sou machista, muito pelo contrário: não há ninguém na minha família que seja mais feminista do que eu - nem as mulheres que fazem parte dela.

Fui criado por mulheres, em sua maioria. Minhas melhores amigas na infância eram meninas e na escola, relacionava-me mais com meninas do que com os garotos. Tinha tudo para ser gay (se essa fosse a minha natureza) mas eu sempre fui hétero e um admirador apaixonado do sexo oposto. E pela experiência adquirida através da observação (e convivência) ao longo dos anos, posso dizer hoje que transito muito bem nesse complexo universo feminino.

Para minha sorte (menos nos dias de TPM), hoje eu convivo diariamente com pelo menos seis mulheres: minha esposa Ana, minha filha Isabelle, minha cunhada Andréa, minhas sobrinhas adolescentes Gaby e Dani e minha sócia Lu. E só não entram nessa lista minha mãe Vera e minha irmã Renata, porque estamos morando em cidades diferentes. 

Por ter toda essa bagagem, nunca me encaixei no padrão estereotipado do machista clássico: nunca tratei mulheres como objetos de posse, jamais exigi virgindade ou recato como pré-requisito para um relacionamento (ainda que tenha tido experiências do tipo, por caprichos do destino), nunca defendi qualquer tipo de submissão feminina ao homem - muito pelo contrário, sempre defendi IGUAIS direitos e deveres entre homens e mulheres (inclusive o serviço militar obrigatório e salários iguais - afinal de contas o que está em questão é o trabalho a ser feito, e não o sexo) e aceitaria numa boa inverter os papéis-comuns da sociedade e ser “do lar”, uma vez que sou caseiro, curto ficar com a família e gosto muito de cozinhar (mas não sou recatado).

E ainda assim, mesmo assim - fui taxado de machista, por algumas mulheres e uns poucos homens.

Machista, apenas por defender um ponto de vista diferente sobre o overreacting que a matéria da Veja sofreu. Enquanto algumas mulheres diziam que eu não tinha entendido o ponto principal da questão, pois “o que a revista Veja estava fazendo era impor um padrão de comportamento único e…” Oi? Em qual parágrafo da matérial original a revista Veja diz isso?

“Ahhhhh Fábio, não seja bobo, você trabalha com comunicação. A revista deixou isso implícito, de forma subliminar…”

Propaganda subliminar? E desde quando a Jequiti passou a vender mais, colocando inserções de 1 segundo da marca, ao longo de toda a programação do SBT? Ademais, o público-alvo da revista Veja é um público bem restrito, com uma faixa social bem específica e direcionamento político já construído. Essa matéria não mudaria a cabeça de ninguém. E mais: nunca esse texto teria tomado as proporções que tomou - isso só aconteceu, graças ao alarde que vocês - “feministas” - fizeram. Penso que faltou um pouco de inteligência, aí: a Veja jogou, e vocês caíram como patinhas.

Minha surpresa maior foi o MACHISMO disfarçado de FEMINISMO, nos comentários e compartilhamentos:

“Nosso problema não é com a Marcela, ela pode fazer o que quiser da vida dela”.

E logo em seguida, no mesmo comentário:

“O problema é da Veja, que idolatrou esse tipo de comportamento. Devemos combater esse tipo de comportamento retrógrado e patriarcal. Isso é um retrocesso à tudo o que conquistamos”.

Hellloooou? Quer dizer que a Marcela pode ser o que quiser, DESDE que não seja bela, recatada e do lar? Feminismo meio parcial e direcionado esse, hein? Afinal de contas, AINDA que a Veja tivesse priorizando esse tipo de comportamento, onde fica a liberdade de escolha das leitoras em optar ou não por isso? 
  
Uma outra mulher disse que Marcela é uma prostituta de luxo, acusando-a de ser aproveitadora de idosos (não com essas palavras). Pensei que o feminismo também defendesse os direitos das prostitutas (meu corpo, minhas regras). Quer dizer que o feminismo só defende direitos e liberdades de escolha por classe e posição social? Homens aproveitam-se de mulheres, certo? Mulheres também não podem aproveitar-se de homens? Juro que fiquei confuso.

Teve uma outra, que postou fotos de ensaios sensuais da Marcela Temer no meu perfil no Facebook (que não vou reproduzir aqui, porque não acho correto), dizendo:

“Recatada? Nada contra a sensualidade, tudo contra a hipocrisia”.

Peraí. Ela era modelo, era a profissão dela. Quer dizer que a profissão de uma modelo fotográfico é vulgar? Cadê aquele papo novamente de “meu corpo, minhas regras” e #nãomereçoserestuprada? Qual o problema dela ter feito nu fotográfico? E depois, ninguém tem o direito de mudar de estilo de vida sem que tenha que ficar prestando contas ao passado? Precisa de atestado de pureza para ser chamada de “recatada”? Quem emite esse certificado de qualidade? Um sindicato? 

Outra ainda viajou tanto na maionese que eu pensei que ela trabalhasse na Hellman’s:  

“Ela foi vendida por ser bonita para um velho babão pela sua mãe, como tantas outras meninas nordestinas e..”

Zezuzmariazuzé! Vendida? Escrava branca? Cara, ainda que a MÃE dela induzisse-a a fazer algo, ela tinha VINTE ANOS quando o conheceu e não estava passando fome - coisa absurdamente diferente da miserabilidade que milhares de crianças sofrem no Brasil, e que as colocam em posição de vulnerabilidade sexual. Ela foi em frente (amando-o ou não), porque QUIS.
  
Mas a cereja do bolo foi uma conversa que tive com uma amiga - assumidamente feminista - por telefone, sobre o assunto Marcela Temer:

- Vamos fazer um exercício de substituição? Vamos trocar os personagens da estória? - disse (adoro isso).
- Por quem?
- Vamos colocar Ruth Cardoso no lugar da Marcela? Senhora, idosa, fica em casa para cuidar dos netinhos. Imagine que ela não seria a Ruth que conhecemos, a mulher dos projetos sociais. 
- Ahhhhhh, mas a Dona Ruth Cardoso era bela, recatada, do lar e INTELIGENTÍSSIMA! (sim, ela frisou a palavra em questão - falando mais alto, para dar ênfase) 
- Arrá, olha o preconceito!
- Que preconceito? Dona Ruth era inteligentíssima mesmo!
- Não estou falando da Ruth. Quem disse que a Marcela Temer não é inteligente também? Ela é formada em Direito, burra ela não é. Olha o estereótipo de mulher jovem e bonita (e loira-burra) falando mais alto, dentro de você. O fato dela não realizar grandes projetos ou estar envolvida em grandes causas sociais não tira dela o mérito de ser inteligente, também. É a opção de vida dela.

Senti um certo constrangimento do outro lado da linha. Como eu prezo muito essa amizade, não nos prolongamos muito na discussão  e com um pouco de bom humor passamos para outros assuntos, na conversa.

Mas é notório que existe uma dualidade, um conflito de interesses no universo feminista - parte querendo de facto garantir seus direitos e deveres igualitários na sociedade moderna, mas parte ainda assumindo uma postura de desprezo, pelas suas semelhantes - em especial por aquelas que não se interessam pelas causas feministas ou por aquelas que optam por continuar vivendo de forma “não-recomendada” pela causa.

A falha é exatamente aí, na inobservância de fatos simples, que não necessitam de grandes explicações ou conjecturas - basta o senso comum - tal como na matéria da Marcela Temer, onde a palavra “sorte” foi utilizada na abertura e no desfecho da matéria - para indicar a felicidade que um tem ao ter o outro (“que sorte eu tenho, por ter você do meu lado!”) - e não para valorizar um comportamento específico. 

Relacionamentos que “casam” certinho nos dias atuais (não do verbo casar/matrimônio, mas de dar certo, viu?) é quase como acertar na loteria: quem dá a SORTE de acertar, é meio caminho para a felicidade. A busca pela metade da laranja e do cobertor de orelha segundo pesquisas   no Brasil só perde para a busca pelo emprego ideal. Que digam os sites de relacionamentos online, prósperos como nunca.

O problema do feminismo é querer ver além do óbvio, procurando pêlo em ovo.  

Acaba falhando justamente naquilo que a mulher sabe fazer tão bem: nada no mundo é tão sedutor, quanto o poder de sedução de uma mulher (e por favor, não estou falando apenas no sentido sexual). A mulher tem este dom natural de sedução - e o feminismo acaba extirpando isso, de forma clara e visível. 

O erro de ser feminista nos padrões atuais é querer ser mais, do que querer ser igual. É querer impor, ao invés de conquistar. Discriminam, rotulam e impõe padrões em suas próprias semelhantes.

E no final das contas, acabam errando como os homens - só que agora, também existe um sutiã.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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