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O mimimi da hipocrisia

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Antes que comecem a jogar pedras neste pobre autor que vos escreve, quero deixar bem claro que sou corumbaense, nascido e crescido nessa cidade quente, de terras brancas e que é banhada pelo Rio Paraguai, incrustada no coração do Pantanal Sul-Matogrossense.

De igual forma quero deixar registrado nas primeiras linhas deste artigo, que hoje moro em Campo Grande por motivos relacionados ao trabalho - mas dos 42 anos vividos até o momento, 39 foram vivenciados sob o sol escaldante da Cidade Branca.

Para os visitantes deste blog que estranham esta introdução, faço isso porque infelizmente meu povo tem a mania de achar que quem “sai” da terrinha não é merecedor de crédito, por “não amar mais a cidade” - um sentimento de mágoa pela sensação de abandono coletivo, provocado por uma série de fatores ao longo dos tempos, mas isso é assunto para uma outra história. 

Vamos ao que interessa:

Ontem, eu fiquei chocado ao ingressar nas redes sociais e me deparar com um texto do Sr. Prefeito Paulo Duarte derramando-se em um mimimi imenso, apenas porque a cidade de Corumbá foi CITADA em uma cena de novela da Rede Globo. Por um diálogo que não dura nem 8 segundos, o Sr. Prefeito escreveu um texto acusando a Rede Globo em ter “mania de ser “rainha da ética e senhora da verdade”, visivelmente emputecido com a “má propaganda” relacionada à cidade que ele administra, até o momento.


Para piorar, funcionários foram no mesmo caminho escolhido pelo Prefeito: alguns postaram fotos de um terreno da sua afiliada TV Morena, onde mostrava o mato alto e sugeria criadouro de mosquitos. Outros postavam fotos de atores globais usando drogas. E outros, sem ter mais besteiras para falar, repudiavam e promoviam boicotes (como se houvessem muitas opções de lazer na região) . Certo, certo, certo…

Mas vamos aos fatos:

Como bom corumbaense, eu conheço a minha cidade. Tive a sorte de crescer em boa família, porém de origem humilde - e tive o privilégio de estudar em boas escolas, com muitos sacrifícios. Sempre fui uma pessoa observadora e atenta às transformações físicas e sociais à minha volta. E naqueles anos 80 eu vi muita coisa acontecer, na minha querida cidade natal. 

Em especial, um fato que chamou a atenção de muita gente, naqueles tempos: com o boom da cocaína pelo Mundo, muitas pessoas “coincidentemente” enriqueceram da noite para o dia, em Corumbá. 

Carros luxuosos eram vistos circulando pela cidade. Lindas casas e prédios comerciais eram erguidos rapidamente.  Farmácias vendiam acetona o suficiente para fazer a unha de todas as mulheres de São Paulo. Adolescentes gastavam dinheiro pela cidade, como se fosse água mineral. Não era raro garotos e garotas na faixa dos seus 16 ou 17 anos ganharem veículos novinhos em folha, como presente de aniversário - ou comerciantes quitarem suas dívidas bancárias da noite para o dia, em cash. A dinheirama jorrava de forma tão fluída na cidade que até mesmo POLICIAIS FEDERAIS circulavam com imensas motos importadas e era comum frequentarem altas festas do outro lado da fronteira, promovidas pelos grandes capos bolivianos. Algo não cheirava bem. O cheiro? Cocaína.

Corumbá possui uma imensa faixa de fronteira com a Bolívia e um outro tanto, com o Paraguai. Com o EUA e a Europa sendo os maiores consumidores da mais nova droga popular naquela época, a Bolívia e a Colômbia sendo os maiores produtores dela e isso juntando na fórmula mais de 23.102 km de fronteiras sem o mínimo de fiscalização (incluindo as marítimas), Corumbá era parte importante nesse new business - sendo um importante trecho na rota comercial do tráfico de drogas, assim como Ponta Porã e Foz do Iguaçu.

A escolha por Corumbá era óbvia: fronteira aberta, pantanal, mato, nenhuma estrutura governamental para fiscalizar de forma eficiente e uma quantidade imensa de aeroportos clandestinos em fazendas longínquas nesse pantanalzão-de-meu-deus.

Naquela época, Corumbá não era o segundo arrecadador de impostos do Estado. Não tinha a arrecadação do gás de hoje e a produção de minério era pífia (se comparada à produção atual); o turismo engatinhava, com agências cobrando pacotes a preço de banana e permitindo que turistas saíssem aqui com freezers lotados de peixes (uma farra que até hoje o Pantanal ainda sente).

Sim amigos: o que impulsionou a vida comercial em Corumbá nos anos 80 do século XX foi o pó, a branquinha, a poeira do capeta, a branca pura - ainda que muitos não admitam isso (porque foram beneficiados por ele).

E com o pó, vieram a lavagem de dinheiro, o aumento da corrupção  e as armas. Afinal de contas, drogas e violência andam lado a lado - seja para obtê-la, seja para manter seu negócio.

O fato é que hoje temos uma boa parte da “sociedade” corumbaense  que de uma forma ou de outra prosperou diretamente com o tráfico de drogas: montando novas empresas, aumentando seu negócio, construindo casas de aluguel, acumulando dinheiro para agiotagem, trabalhando com prostituição - ou indiretamente, se relacionando comercialmente com o primeiro grupo, SABENDO que eles traficavam drogas e armas. Alguns pararam, outros foram mortos ou presos. E os que foram presos, voltaram ao negócio com mais cautela, às vezes servindo apenas como "contatos comissionados". Outros, juntaram a grana e as propriedades que o governo não confiscou durante o procsso da prisão, e montaram outros negócios.

A coisa só deu uma AMENIZADA na metade  dos anos 90, quando o DEA - a agência antidrogas americana - bateu na Bolívia e na Colômbia e foi aquele deus-nos-acuda: muitos chefões do narcotráfico foram presos e extraditados para a terra dos gringos, e o volume de droga transacionada diminuiu consideravelmente em nossa região. Muita gente rodou por aqui também. Era comum naquela época ouvir que “fulano foi morar fora”, quando na verdade estava preso por aí. No fundo, não era de todo uma mentira, né?

E nós corumbaenses, sabemos de tudo isso. Somos cúmplices do processo, porque no fundo não nos interessa o pó que “Fulano” vendeu ou quantas AK's-47 ele enviou para grupos terroristas naquele mês. O que interessa para nós são as benesses que “Fulano” pode nos oferecer: empregos, dinheiro circulante, poder, investimentos, status, impostos.

Nós os encontramos todas as noites, nos bares e restaurantes da moda. Bebemos cerveja e comemos com eles. Nós os abraçamos, cumprimentamos e beijamos cada um deles.  Eles são cheirosos, bonitos, bem vestidos. Tem bons carros, empresas bacanas. Compramos dos seus produtos (legais) e utilizamos dos seus serviços. Pagam impostos. Não são os traficantes da Cervejaria, do Borrowski ou da Peixerada - com umas boquinhas de fumo que só servem para alimentar zumbis pobres e famintos. E muito menos são os membros do PCC e de outras facções do tráfico que estão presos na Penitenciária de Corumbá - mas que mantém relações íntimas com alguns moradores da cidade.

Eles têm sucesso, pois jamais foram pegos. Alguns até se tornaram políticos! E nós os admiramos por isso. São Winners!

Quem se importa com a quantidade de pessoas viciadas ou que morreram assassinadas ou de overdose por causa do tráfico - e que eles são cúmplices desse processo? Que nada! Usa quem quer! Bando de manés! O que importa é que eles estão HOJE gerando emprego e renda na cidade e pagando impostos. O passado, passou - com a benção da nossa conveniência.

Logo, quando eu vejo um vejo um mimimi desses - promovido por um Prefeito - eu fico pensando se realmente não há nada melhor para se fazer na cidade: se não tem um buraco em alguma rua para ser preenchido com asfalto de qualidade ou ainda, se não tem nenhum remédio faltando na Farmácia Municipal e que é essencial para a vida de alguém.

Porque convenhamos, isso é uma atitude ridícula e triste a se fazer: tal como o pai que quer matar o cara que ele pegou na cama com a filha, pois acabou com sua “honra” - porém mal ele sabia que aquele rapaz era o décimo quinto, do mês (e olha que era o 14º dia na folhinha, hein?). 

Todos nós, CORUMBAENSES, sabemos que o que a Rede Globo fez foi mostrar um fato verídico, algo que existe. Não tem nada de discriminatório, muito menos tentou denegrir a moral da cidade. Tal como o Rio de Janeiro tem favelas e morros tomados pelo tráfico, assim como sabemos que São Paulo tem uma violência urbana altíssima e que em Brasília, a corrupção reina. E confesso que estou pensando como o prefeito de New York lida com o fato de que 99% dos filmes rodados na cidade tem algum maníaco psicopata ou um terrorista querendo explodir tudo. Deve afetar bastante a moral da cidade, né?

Enfim, temos um fato negativo sim e daí? Não é de agora, nunca ninguém se propôs a resolver e convivemos com isso até hoje, DE BOA, porque simplesmente ACEITAMOS. A população ACEITA. Sendo assim Prefeito, aceita, que dói menos.

O que eu acho uma besteira imensa, é arrumar briga por algo inútil com uma emissora de TV que já promoveu a cidade de inúmeras formas. Penso eu, na minha humilde opinião, que a ingratidão sempre traz consequências terríveis - ainda mais quando o feedback é realizado pela imprensa.



Para isso, a Rede Globo servia.

Corumbá, por todos os motivos citados acima CONTINUARÁ sendo uma rota de drogas e armas e continuará aparecendo eventualmente em uma notícia ou outra sobre o assunto. Infelizmente, não tem como mudar Corumbá de lugar. De igual forma, Rio de Janeiro continuará tendo favelas e São Paulo continuará com um índice de criminalidade alto. C'est la vie, não se mate por isso. Um mimimi desses pode até ser "importante" em campanha pré-eleitoral, mas não vai mudar em nada a situação da cidade.

E eu faço o meu convite a todos os meus amigos que estão protestando contra esta “desagradável afronta à honra de Corumbá promovida pela Rede Globo”, que parem com essa bobagem e  utilizem suas energias e suas redes sociais para se indignarem com a FORMA como Corumbá se encontra: praças fechadas, ruas esburacadas, saúde precária, sem atrativos e planejamento turístico eficiente e com uma segurança pífia, que deixa a desejar.

Nós temos um Prefeito que briga pela “boa imagem”, a grande parte da população briga por melhores condições de vida. Cada um tem suas prioridades.

Porque 8 segundos em uma novela, meus amigos, jamais serão equivalentes à uma má experiência real. Se você se preocupa com o que vão falar da sua cidade, você deveria era estar lutando para que Corumbá se tornasse uma cidade digna, e não por xurumelas jogadas ao vento, sem o mínimo de razão e bom senso.

Porque quando tivermos uma cidade digna, bonita e limpa, tenho certeza absoluta que 8 segundos de novela não terão espaço na memória de alguém, competindo com as mais belas experiências que Corumbá e seu Pantanal, podem e devem proporcionar.

 

PS: Antes que comecem a jogar as pedras que mencionei lá em cima (de crack não, por favor!) quero deixar bem claro que NÃO são todos os comerciantes e pessoas da “sociedade” corumbaense que algum dia já estiveram envolvidos direta ou indiretamente com o tráfico de drogas. Se você começou mais um mimimi por causa deste texto, é sinal que você não leu até este trecho. Existem sim pessoas que jamais estiveram envolvidas com os crimes mencionados e é possível sim, enriquecer sem cometer o ilícito - ainda que seja a forma mais difícil, neste país. Mas é possível. 

PS2: E se você leu até aqui e mesmo assim começou a mimimizar neste texto, o público deve estar imaginando que a carapuça deve ter servido. Carapuça BRANCA, se é que me entendem. Então contenha-se nos comentários, para não pegar mal.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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