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O que faz uma cidade ser bonita?

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Eu nunca irei me esquecer da minha primeira viagem às cidades de Gramado, Canela e Bento Gonçalves - no Rio Grande do Sul.

Esqueça qualquer foto ou vídeo que você porventura possa buscar na internet para conhecer essas cidades, depois deste texto. Não  há imagem que represente a sensação de estar fisicamente nesse municípios maravilhosos: ruas sem sujeira, com asfalto de boa qualidade (sem remendos) e com muitos dos cruzamentos sem semáforos (os motoristas param os veículos, quando você coloca o pé na rua dando a intenção que vai atravessá-la), calçadas limpíssimas e padronizadas, cestos de lixo em todos os lugares, casas e prédios bem cuidados e pintados (até as construções mais simples), arborização eficiente e com visível manutenção periódica, praças limpas e conservadas e um atendimento ao turista com uma educação de fazer inveja ao Japão.

No final das contas não são apenas os atrativos e pontos turísticos dessas cidades que ficam em sua memória, mas sim a PRÓPRIA cidade em si.

Eu fiquei muito feliz ao saber que a entrada da minha cidade natal - Corumbá - será reformulada e readequada para fazer jus à beleza que a Cidade Branca possui, mas está apagada devido à sua última gestão ineficiente.

Corumbá é uma cidade turística - o que significa que boa parte da sua renda é gerada através do recebimento de visitantes para aproveitarem seus atrativos, eventos e pontos turísticos. Não podemos negar os investimentos a serem feitos nessa área, pois quando acabar o minério e com ele os impostos arrecadados ou ainda, se mudarem a Legislação que hoje beneficia Corumbá a receber os impostos do gasoduto Brasil-Bolívia, a nossa querida cidade entrará em processo de falência - a menos que o nosso turismo já esteja desenvolvido a ponto desses recursos financeiros não abalarem tanto assim a economia local.

Como sabemos, o turismo em Corumbá até hoje não desencalhou, é muito subdesenvolvido. Bonito, a nossa principal cidade-concorrente dá um show em cima do turismo corumbaense - e olha que no fundo eles são apenas uma amontoado de fazendas com morros e córregos. Só. Bonito não tem e jamais terá o esplendor de estar dentro do Pantanal Sul-Matogrossense e de igual forma, a nossa cultura, tradições e história riquíssimas.

Mas existe uma coisa que Bonito aprendeu antes de nós - e talvez esteja aí o grande segredo para o seu rápido desenvolvimento turístico: Bonito pensa como Gramado, Canela ou Bento Gonçalves, tornando-se a própria cidade, a principal atração turística.  

Em Bonito, a prefeitura faz a sua parte com uma coleta de lixo eficiente e o povo aprendeu a não jogar lixo na rua. As ruas são  limpas e pintadas - e os vandalismos à monumentos e pichações quase que inexistem. O povo sabe que o turista precisa se SENTIR BEM, para voltar a gastar na cidade novamente em suas próximas férias. E dificilmente alguém volta em uma localidade suja, mal-cuidada. Nós viajamos e PAGAMOS para ver coisas bonitas ou pelo menos, limpas. É triste um local ser lembrado pelo cheiro de urina, como a Bahia - por exemplo. 

O anúncio recente do pórtico de Corumbá finalmente ser reformado (após muita enganação no passado), é um anúncio que me deixa feliz, por ser um prelúdio que Corumbá está começando a receber a atenção turística que merece, começando pelo nosso cartão de visitas.

A intenção é ótima, porém não será suficiente.

O que será feito com os diversos empreendimentos abandonados, ferro-velho e terrenos baldios que acumulam lixo, vetores de doenças e servem de abrigo à marginais não apenas logo na entrada da cidade, mas em toda ela?

Eu gosto de pegar o exemplo de um posto de combustível abandonado (e que ilustra este artigo), logo quando se entra no perímetro urbano de Corumbá. Aquilo ali pega muito mal para a cidade. O primeiro posto quando se entra na cidade (ou o último, para quem sai) daquele jeito. Um empresário que visita a cidade e que pensaria em montar seu negócio nessas bandas, já colocaria em dúvida a saúde da economia local - e com isso, em xeque a criação de possíveis novos postos de trabalho. Afinal de contas, em todas as cidades por onde passei, nunca vi posto de combustível em saída de cidade ficar desse jeito, horrível.

Primeira impressão, pessoal. Ali, na cara da cidade: má impressão.

Voltando ao exemplo das cidades-modelo lá em cima, até os imóveis “abandonados” nesses municípios eram pintados, lacrados e limpos periodicamente. Terrenos baldios ou eram murados (com calçada) ou recebiam cerquinhas de madeira pintada - e grama plantada em toda sua extensão, regularmente aparadas.

O poder público faz a sua parte, mas a população tem que fazer a sua também. A contrapartida tem que existir, para que a coisa se desenvolva como um todo. 

Até hoje não vi uma administração em Corumbá com a coragem necessária para tomar ações drásticas (porque mexem no bolso do contribuinte) mas que no final das contas, todos saem ganhando. Um exemplo: criar muros e calçadas padronizadas (a desculpa que todos alegam para andar no meio da rua e assim, atrapalhar o trânsito) para TODOS os terrenos baldios da cidade e colocar a conta no IPTU. Eu sei, isso já existe - mas quem coloca em prática?

Quando teremos calçadas padronizadas com piso tátil para deficientes visuais e rampas de acesso para cadeirantes? Quando teremos lixeiras públicas padronizadas (não aqueles trambolhos inúteis, pelamordedeus) em todas as calçadas (pelo menos 4 em cada lado de quadra) e também a EDUCAÇÃO necessária para jogar o lixo, no lixo?

Quando teremos um plano de arborização eficiente - com a participação popular para encher Corumbá de verde e superarmos Campo Grande, considerada hoje a cidade mais arborizada do Estado e uma das mais arborizadas do país (de cada 100 residências, 96 possuem árvores) - o que para nós corumbaenses é motivo de VERGONHA, pois estamos literalmente DENTRO do Pantanal  e não somos tão arborizados assim. Mais raiva dá, ao saber que se tivéssemos uma arborização eficiente como a Capital, baixaríamos cerca de 5ºC a temperatura média anual da Cidade Branca. 

Alguns de vocês vão falar que eu estou viajando - afinal de contas, é Corumbá - ali as coisas são beeeeem difíceis. Sim, eu sei. Mas temos que começar por algum começo, não é mesmo? Se você acredita que nada vai mudar, então caro(a) leitor(a), nada mudará.

Mas se você deseja que a SUA cidade mude, então você terá que mudar primeiro - afinal de contas o mundo à sua volta só muda, quando VOCÊ muda.

Plante uma árvore, recolha seu lixo. Não jogue lixo na rua. Trate bem nossos visitantes. Pinte sua casa, trate bem dos seus terrenos - isso é ser cidadão, também.

Ademais, não podemos esquecer que a nossa casa apenas reflete quem somos, na verdade: nossa higiene, nossa educação, nossos princípios.

Nossa casa, nosso espelho. Quem é você nessa imagem?


PS: Não sei quem é o proprietário desse imóvel aí da foto, mas espero sinceramente que ele dê um fim comercial ou social à essa obra. Da forma que está, só ajuda a denegrir a imagem da nossa cidade e contribuindo para o aumento da violência e transmissão de doenças.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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