Textículo

O WhatsApp e os Defensores da Moral F.C.

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Esta semana um juiz atendeu um pedido dos responsáveis pela investigação das ações de uma quadrilha do crime organizado, que incluía - entre outros crimes - ações de pedofilia.

O pedido? Quebrar o sigilo das mensagens de WhatsApp dos criminosos investigados - pedido que foi ignorado pela empresa cuja sede localiza-se na Irlanda.

Em um MUNDO NORMAL, quando uma pessoa ou empresa descumpre uma ordem judicial, qual é a atitude mais comum da Justiça? Mandar prender os responsáveis ou ainda, estabelecer uma multa diária até o cumprimento da sentença, não é mesmo?

Mas qual foi a reação do juiz? Ordenou que as OPERADORAS DE TELEFONIA bloqueassem o serviço do WhatsApp no Brasil, por 48 horas - em uma daquelas decisões típicas de uma República das Bananas, que só contribuem para estereotipar ainda mais o nosso país.

Vou repetir: ordenou que as OPERADORAS DE TELEFONIA bloqueassem o serviço de WhatsApp, no Brasil. Taqueopareo.

É claro, a princípio, todos acharam que isso seria mais um blefe    ou ainda, que algum juiz de segunda instância e com um melhor bom senso anulasse esse pedido ridículo e sem noção alguma, a tempo.

Mas não. À meia-noite do dia 17 de Dezembro do Ano da Graça do Nosso Senhor 2015, o aplicativo de mensagens instantâneas mais popular do Brasil - com uma base de 100 milhões de usuários - saiu do ar.

Pensem na revolta da população, que usa o aplicativo diariamente para putaria, comunicar-se com amigos e familiares e realizar negócios.

Não deu nem 15 minutos após o bloqueio realizado pela OPERADORAS DE TELEFONIA, já existiam tutoriais sendo compartilhados na rede, ensinando como usar o serviço de VPN (Virtual Private Network) para continuar usando o serviço, mesmo após o bloqueio das OPERADORAS.

O que é VPN:  
  
O serviço de VPN funciona como um “túnel virtual”. Sua conexão trafega dentro desse “túnel” e lá na saída dele, você aparece com outro IP, geralmente em um país neutro ou com legislações cibernéticas muito mais brandas. Se não fosse esse sistema de VPN, nem saberíamos o que acontece em muitos países onde a internet é vigiada e censurada pelos seus governos, que perseguem e punem seus usuários “rebeldes” e proíbem o acesso à sites estrangeiros de notícias, que se posicionam claramente contra seus regimes. Então, como era de se esperar, apareceram os Defensores da Moral F.C. com o seguinte discurso, resumido abaixo:  

“Então vocês reclamam sobre a corrupção, mas acham um jeito de burlar uma decisão judicial, né? Vocês não tem moral para falar de corrupção, não!”

Até mesmo o ativista-político-queridinho-da-Presidente e roqueiro nas horas vagas Tico Santa Cruz, escreveu no seu perfil na rede social Facebook:  

“…Imediatamente milhares de brasileiros já conseguiram dar “um jeitinho” para fazer o WhatsApp voltar a funcionar. O velho e bom “Jeitinho Brasileiro”. 
ÃH????????? 
Será que as leis só valem quando atendem aos nossos interesses e quando elas nos atingem de alguma forma nós entendemos que é possível e aceitável burlar? 
Deixo essa reflexão num momento onde todos estamos trabalhando no país nossas questões éticas e morais.”  


Tiquinho, membro honorário dos Defensores da Moral F.C. não entende de leis e de tecnologia - e como boa parte dos brasileiros adora opinar sobre aquilo que não compreende, mas vamos lá tentar elucidar esse caso:

Em primeiro lugar, a decisão judicial obrigava AS OPERADORAS a bloquear os protocolos de comunicação do WhatsApp, para forçar essa empresa a entregar os dados de sigilo telefônico.  
  
É algo mais ou menos assim: “Ei, Operadoras! Impeçam fulano de sair de casa, não deixem ele falar com ninguém. Quero ver se ele não vai me dar o que eu quero, em 48 horas”. Bacana, né? Muito justo.

Só que essa decisão NÃO SE APLICAVA AOS USUÁRIOS, apenas às OPERADORAS DE TELEFONIA. Nem mesmo o WHATSAPP - vejam bem - nem mesmo o UÁTIS ÁPI (Zap-zap, para os íntimos) foi obrigado a cancelar o seu serviço, para os usuários brasileiros.

Sendo assim, NENHUM BRASILEIRO OU BRASILEIRA cometeu crime algum, por duas razões:

- Quem tinha obrigação de fazer, ou seja, de OBEDECER a decisão judicial eram as OPERADORAS. Na decisão o juiz não proibia nenhum usuário brasileiro de utilizar o aplicativo.

- Ao usar um serviço de VPN (legal e gratuito), o IP final (aquele que entra em contato com o WhatsApp para receber o serviço) é um IP estrangeiro, e portanto fora do país e da eficácia “legal” dessa decisão judicial esdrúxula.

Sendo assim, antes de chamar qualquer amiguinho ou amiguinha de corrupto - por usar um serviço de comunicação legal e sem descumprir medida judicial alguma - é bacana estudar um pouquinho do assunto, antes de ir escrevendo bobagens pela grande rede.

Eu sei que existem os vários “pais da moral e dos bons costumes” espalhados por aí: faz parte dessa nossa fauna digital e estamos todos acostumados com isso, desde a era do Modem Lascado. Geralmente essas pessoas são aquelas que não pensam duas vezes antes de instalar um skygato em casa, estacionam em vaga de idoso ou deficiente, procuram um amigo na fila do banco para pagar um boleto ou ainda, pedem para o sobrinho instalar a última versão (piratex) do Office, no seu computador - porém, nas redes sociais, agem como se fossem um Mestre Jedi na luta pelo lado bom da Força. Mas só nas redes sociais.

Só que dessa vez meus amiguinhos, vocês erraram feio no mimimi. Tão feio, que deu até vergonha. Se eu fosse vocês, pediria desculpas enquanto ainda dá tempo.

O lado bom dessa história é que ficou provado que o brasileiro não se intimida com nenhuma forma de censura imposta pela Justiça ou Governo - um ponto positivo - afinal de contas pelo andar da coisas, em breve vamos precisar de muito VPN e serviços de anonimização pela frente, por aqui. 

Caminhamos para isso. “Viva la Revolución!” 

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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