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Os humanos desumanos

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Ao longo dos tempos, acabei me considerando um cara “sangue-frio”. 

Talvez por força da profissão de jornalista, ao ter que noticiar todos os tipos de violência cotidiana, todos os dias - no final das contas acabamos criando uma “casca dura” em torno do coração. Questão de sobrevivência.

Mas confesso que em duas ocasiões eu não contive as lágrimas que insistiram em lavar o meu rosto: o dia em que eu vi a imagem de uma criança refugiada que morreu afogada com o rostinho enfiado na areia de uma praia (dolorosamente indicando que não poderia mais haver vida ali) e ontem, quando vi a foto de uma criança francesa, com seu corpo coberto por um filme plástico onde apenas sabemos que ali jaz uma criança por conta de uma touquinha rosa e sua boneca, que faz companhia ao corpo. Uma pequena poça de sangue abaixo da cabeça da menina, indica a violência sofrida durante o atropelamento coletivo em Nice, França.  

Duas crianças - uma árabe e uma ocidental - mortas pelo TERRORISMO: a primeira fugia dele, a outra deu de cara com ele - literalmente. 

A morte dessas duas crianças teve um efeito devastador em mim. De certa forma também morreu com elas, um pouco da esperança na humanidade, que ainda havia em mim.

Sempre fui um defensor dos princípios humanistas, mas começo a considerar que uma pessoa que tem a capacidade de dirigir um caminhão em alta velocidade para arremessar este mesmo veículo sobre uma multidão de pessoas inocentes em prol de uma “ideologia”, não pode ser considerada humana em hipótese alguma.

Tal como um câncer, a doença devastadora que cresce, se infiltra e alastra dentro de um corpo - causando medo, dor, pânico e morte - o TERRORISMO deve ser extirpado da face da Terra, sem dó.  

“Mas Fabão, você não é um humanista?”

Terroristas não conhecem remorso, piedade ou misericórdia. Na cabeça de um terrorista, tudo o que importa é a causa pela qual ele luta. Você pode cantar músicas de John Lennon, usar camisetas escrito PAZ ou AMOR, ou ainda oferecer flores em uma noite iluminada por milhares de velas - mas tudo o que interessa para ele é te matar, por puro ódio da sua existencialidade. Ele te odeia apenas por você existir - loogo, não são humanos.

Por essa lógica, qualquer tentativa de diálogo é inútil - afinal de contas, você não conversa com um câncer: você o mata, antes que ele mate você. Simples assim.

Mas vejam bem: TERRORISTAS devem ser exterminados - e não pessoas que por um infortúnio do destino possuem a mesma religião que eles (na verdade nem tanto, pois é uma versão absolutamente distorcida do islamismo original). Uma coisa não tem nada a ver com a outra, ainda que alguns setores da mídia ou da sociedade tentem vincular isso.

A maior prova é que existem grupos terroristas que disseminam ou disseminaram o terror em igual ou maior intensidade ao terror que testemunhamos nos dias de hoje pelo ISIS em seus ataques - mas jamais precisaram se esconder sob o véu da religião, para cometer suas atrocidades. 

As FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o ETA (Grupo basco "Pátria Basca e Liberdade", o IRA (Exército Republicano Irlandês) e até mesmo o HAMAS (ainda que o significado seja "Movimento de Resistência Islâmica" é um grupo de ideologia mais política, que religiosa - eles mesmos assumiram isso) são alguns dos exemplos de grupos terroristas que matavam ou ainda matam inocentes - e não usam a RELIGIÃO como pretexto. Matam por puro prazer em sentir ódio. Se fossem muçulmanos de verdade,conheceriam uma das frases mais bonitas do Alcorão: "Matar uma pessoa é como matar toda a humanidade".

Sendo assim, essa RELIGIÃO que o ISIS prega (uma versão extremamente subvertida, distorcida e perversa do Islamismo), é mais uma válvula de escape para esses malucos - mas poderia perfeitamente ser qualquer outra ideologia maluca, com o único propósito de disseminar ódio:

“Eles comem batatas fritas! Heresia! Batatas devem ser comidas cruas! Morte aos infiéis!”

Ou qualquer baboseira do tipo. Para disseminar ódio, vale qualquer coisa - basta uma simples idéia sugestiva dentro de uma cabeça vazia, que ela servirá de receptáculo. “Mente vazia, oficina do Diabo”.

Sabemos que existem fanáticos religiosos em qualquer religião ou filosofia, pois eles sempre existiram e infelizmente, sempre existirão. Imbecis existem aos montes, em todos os lugares da Terra. Porém, isso tem uma tendência maior de acontecer a partir do momento em que você é induzido a acreditar que APENAS a sua religião é a verdadeira e todas as outras são falsas e levam à perdição humana, de forma INCONDICIONAL. É uma afirmação perigosa - e que infelizmente, ninguém que está VIVO está apto a provar. Até mesmo a “inofensiva” Igreja Católica de hoje em dia também já teve seu passado de extremismo religioso: as Cruzadas e a Santa Inquisição que o digam. Até o Papa já admitiu que a Igreja errou, ao condenar, torturar e queimar centenas de milhares de pessoas na fase mais triste da história da Santa Igreja.

E não é raro encontrarmos igrejas cristãs extremistas nos dias de hoje - por exemplo - que incitam o ódio, o preconceito e a intolerância religiosa em seus cultos. Daí, partir para a ação é um pulo - basta apenas uma mente fraca e uma ordem para o ataque.

Só não vemos mais ações extremistas de fanáticos religiosos no mundo ocidental - praticados por OCIDENTAIS - porque aqui a nossa CULTURA não tolera esse tipo de coisa: a mulher aqui tem muito mais mais liberdade sexual, profissional e política, a democracia é mais constante, os gays estão conquistando seus direitos dia-após-dia e a liberdade religiosa já existe por aqui há um bom tempo. A vida obviamente não é perfeita do lado de cá - afinal de contas, ainda existe muuuuuita coisa para se mudar - mas em comparação com o lado de lá, vivemos em um paraíso. 

Apenas e tão somente por esses fatores comportamentais e culturais, é que a lavagem cerebral não se completa com tanta facilidade por essas bandas ocidentais, ainda que porventura vejamos de vez em quando uma ofensa à Umbanda aqui, um chutezinho à imagem de uma santa ali ou um espancamento de gays, acolá.

Sendo assim, o problema não é a RELIGIÃO, mas sim um bando de malucos que possuem uma visão deturpada da mesma e acabam levando seus atos insanos às últimas consequências.

Esses caras são tão malucos, que se algum dia o líder deles disser que “estão deturpando o Islã fora do ISIS”, são capazes de explodir Meca em pleno Ramadã (o período mais sagrado do islamismo). Eles não estão preocupados com ninguém, só com suas 72 virgens no Paraíso.  

É claro que a propaganda do terror acaba levando ao medo coletivo: até pouco tempo atrás, acreditávamos que todos os comunistas comiam criancinhas (ainda que em eventos de canibalismo tenham acontecido de forma pontual, na antiga URSS, China e mais recentemente, na Coréia do Norte - por conta de crises severas de produção de alimentos e fome generalizada). Durante a Inquisição para fazer com que a população apoiasse a matança indiscriminada de judeus, dizia-se que eles matavam crianças cristãs para usar o sangue delas em um tipo de pão que eles produziam (sendo que povo judeu é proibido beber o sangue de qualquer animal, muito menos sangue e carne humanos).

Dividir, para dominar. Tática antiga, mas eficiente.

Terroristas devem ser exterminados da face da Terra, sem sombra de dúvida. Sem diálogo, pois infelizmente não há como dialogar com eles, eles são a exceção à regra de Gandhi.

Porém, para que isso aconteça efetivamente - além de ações militares eficientes, existe algo que devemos lutar incansavelmente, dentro de nossos corações e mentes:

O combate ao preconceito e à desinformação.

Enquanto não entrar na nossa cabeça que todo terrorista PODE ser “muçulmano” - mas nem todo muçulmano é terrorista, só estaremos alimentando esse ódio que eles pregam em seus atos insanos.

Até que isso aconteça, eles estarão em franca vantagem: ao pensar com o preconceito no coração, você acaba pensando como eles.
Por ora, vamos perdendo esse jogo - e chorando, com seus resultados.

No momento, os que deixaram de ser humanos - os desumanos - estão vencendo.

 #PrayforNice

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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