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Pacu Frito e Cerveja

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Dia 02 de Setembro é uma data que sempre divide minhas emoções. Primeiro, porque é a data do aniversário de Ladário, a cidade-irmã de Corumbá, e que é muito querida por mim - pois antes mesmo de entender o que era Ladário, eu ouvia a minha Tia Cecília gritando para mim, quando me via cabisbaixo, meio muchocho: “Anima, Ladário!!!”. Então eu ria, e seguia a vida.  
  
Ladário também se fez presente na minha juventude, entre os namoricos na cidade ao lado - e quando eu servi a Marinha, me alistando voluntariamente para ser Fuzileiro Naval - alguns dos melhores anos da minha vida. Adsumus, Pantanal!

Mas por outro lado, é o aniversário da morte do meu avô, “Seu” Domingos Marchi.  
  
Quando criança, eu não entendia muito o jeito bronco daquele italianão bem calvo e de bigode grosso, sempre com um cigarro entre os dedos - especialmente quando enfurnava no seu “quartinho”, um puxadinho na casa da minha avó, com todos os badulaques, bugigangas e ferramentas, que você poderia imaginar.

Lá ele ficava - durante horas a fio - puxando o seu cigarro, consertando coisas ou inventando coisas e ouvindo sua rádio predileta: A Rádio Globo AM, do Rio de Janeiro.  
  
Eu fui criado pelos meus avós maternos, como muitos de vocês já sabem - e no caso do meu avô, ele não tinha muito jeito com crianças. Talvez porque tenha aprendido a virar adulto, desde os 11 anos de idade - e por esta razão, tive poucas demonstrações do seu afeto. Mas as poucas vezes que eu tive este privilégio, eu me sentia no paraíso. Como na vez que ele vez para mim, um caminhãozinho de madeira. Ele fez os moldes, cortou, lixou, colou e envernizou. Não era um Scania, mas era o caminhãozinho de madeira mais lindo, que eu tive na vida. Da outra vez, eu escolhi uns moldes de gesso da Disney, nas Casas Palmira - que ele pacientemente moldava para mim - e eu passava horas a fio, pintando miniaturas do Mickey, Pateta, Pato Donald, Tio Patinhas e Pluto, até enjoar.    

Mas a lembrança mais gostosa que eu tenho dele, era quando nós dois sentávamos na ponta do corredor, duas cadeiras, lado a lado, um banquinho à frente, com um prato de postas de pacu frito, fumegantes - e uma garrafa de cerveja, que pareava uma caneca de alumínio, toda amassada.

Ali, como um ritual, geralmente aos sábados - nós dois comíamos o peixe e bebíamos a cerveja, na mesma caneca. Os dois homens da casa (ainda que eu tivesse uns cinco ou seis anos). Quase não falávamos nada. Era apenas degustar o peixe que ele mesmo fritava, e beber aquela cerveja gelada - que nunca mais bebi outra igual, na vida.

Meu avô se foi, há 18 anos. Dia 02 de Setembro, de 1997, tomado pelo câncer de pulmão, que o consumiu vorazmente, em pouco mais de seis meses. Ele fumava desde os 13 anos de idade. Não teve chances, nem para quimioterapia - e que pensando bem, também seria inútil, pois ele sempre disse que se o fim dele fosse assim, ele não queria e não faria tratamento algum.  
  
Eu cuidei dele, o quanto pude. Banhos, limpeza, troca de fraldas, alimentação, companhia. Então ele se foi, nos meus braços, em uma manhã do aniversário da Pérola do Pantanal, quando pude sentir o seu último suspiro, sua vida indo embora e deixando para trás, apenas a saudade.    
  
Nunca mais bebi cerveja com pacu, na vida. Até bebo, se forem outros peixes. Mas com pacu, nunca mais. O sabor jamais seria o mesmo - e eu prefiro evitar mais decepções, na vida.  
  
Mas confesso que faço questão de comer pacu frito com a minha filha Isabelle. Sempre que vamos à uma peixaria, é o peixe que eu peço, para ela. Afinal de contas, é o peixe que ela mais gosta - desde que ela provou - quando era muito pequena.  
  
Seu bisavô ficaria orgulhoso, ao vê-la comendo o peixe com espinhas mais saboroso, do mundo. E tenho certeza que daria para ela, sua caneca de cerveja - mandando o resto do Planeta às favas, com o politicamente correto.

Talvez eu mesmo faça isso, um dia. Talvez. 

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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