Textículo

Quando a ignorância vence

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Hoje uma notícia me deixou em choque: a única livraria de Corumbá, minha cidade natal - vai fechar suas portas, em breve.

Eu, particularmente fico chateado, porque isso é sinal que a empresa não estava faturando o suficiente, para manter o negócio viável. Isso, em uma cidade isolada no meio do Pantanal Sul-Matogrossense, com mais de 100 mil habitantes, distante cerca de 460km da Capital do Estado e sem um cinema (há décadas), nem um teatro e poucas opções de lazer - é de entristecer, qualquer cidadão preocupado com cultura de qualidade.

Cultura e educação, meus amigos - são a base de uma civilização.  Se um povo não tem acesso ( ou o costume de acessar ) à cultura de qualidade, então o que resta da mesma só vai se deteriorando ano após ano - e chegamos então ao que chamamos de “cultura inútil”, tão massificada nos dias atuais.  
  
Podemos e devemos consumir cultura inútil, para nossa pura diversão - tal qual consumir junk food, de vez em quando. Quem disse que é proibido comer um Burguer King com batata-frita, uma vez ou outra, no lugar de saladinha e franguinho grelhado? As lombrigas agradecerão - e a não ser que isso seja extremamente mortal para o seu corpo, não fará mal algum comer sáporra um final de semana sim, outro não. De igual forma, aquele FUNK PANCADÃO no final da festa, quando as meninas já estão animadíssimas, desce melhor para a sua noitada - do que aquele cara que só sabe tocar RAUL acústico, em um banquinho e violão. 
  
Mas é o consumo da cultura clássica, é o consumo do conhecimento tradicional que nós dará bases de qualidade para ter parâmetros desse consumo responsável. Você TÊM que consumir Platão, Pitágoras, Sócrates, Machado de Assis, Maquiavel, Carl Sagan e tudo aquilo que a humanidade produziu de conhecimento - desde a invenção da escrita - para poder formular seus próprios padrões de cultura e então, finalmente criar o poder de discernimento sobre o que é bom e ruim - algo tão em falta, no nosso País. Quanto mais conhecimento e cultura adquirida, mais chances você terá, para avaliar melhor tudo a sua volta - e ajudar a transformar não apenas o seu destino, mas de todos que mantém contato contigo, explicando, discutindo, debatendo e agregando valores à sua comunidade.  
  
Eu tenho CERTEZA que incentivar o conhecimento e a BOA cultura, não fazem parte da agenda de prioridades desta nação. Afinal de contas, um povo culto e conhecedor das ciências e saberes é perigosíssimo - não é o povo que elege os homens que detém o poder? Então provavelmente seria mais negócio para estes “representantes” do povo manterem o mesmo, exatamente onde está: dentro dos seus cabrestos, rodeados de cultura inútil e recheados de pão e circo.  

Eu tenho um profundo agradecimento às livrarias, às bibliotecas, aos vendedores de enciclopédia e em especial, ao Natércio - que era dono da banca de revistas mais bacana de Corumbá - que ao lado das minhas escolas, foram os responsáveis por boa parte da minha cultura adquirida.  
   
E também culpo em boa parte, a Prefeitura de cidade - em especial, por esta falência. Muitos de vocês irão me questionar: o que o poder público tem a ver com o fracasso de um negócio privado? Pois bem, eu vou explicar.  
Tudo, meus amigos - absolutamente TUDO o que acontece em uma cidade, é culpa ou mérito do Estado (aqui retratado como Governo Federal, Estadual e Municipal). O Estado controla as nossas vidas como um todo. Ele define a economia, como gastamos e poupamos o nosso dinheiro, educa os nosso filhos e diz como devemos nos comportar, ou até mesmo como devemos morrer (que diga o SUS, não é mesmo?). Ele tem o poder de nos incentivar e nos limitar. O Estado, no formato atual que se encontra no Brasil - tem o absoluto controle, sobre as nossas vidas - AINDA que, com a ilusão de vivermos em uma liberdade democrática.  
  
E nesse caso - em específico - nunca vi UMA campanha sequer da Prefeitura incentivando a leitura, pelos seus cidadãos. Vejo campanhas para festas populares, vejo matança indiscriminada de cães porque não conseguem controlar a raiva e a leishmaniose, vejo obras a toque de caixa e de péssima qualidade (porque um ano eleitoral se aproxima), vejo um turismo cada vez mais apertado, cujos números oficiais não batem com a realidade vivenciada pelos empresários de turismo da região, vejo o desemprego comendo solto, culpa de uma política irresponsável e vejo a fanfarronice típica dos governantes interioranos, quando um novo negócio se estabelece na cidade (mas que fica absolutamente quieto, quando algum deles, fecha). 
  
Eu não vejo a promoção cultural. O Moinho Cultural está em franca decadência, sem apoio ou incentivos. As Bibliotecas Municipais podem te transmitir asma ou doenças respiratórias, de tão sujas que se encontram - um acervo considerável da Biblioteca Lobivar de Matos já foi para o lixo, por pura incompetência administrativa, através da umidade, mofo, furtos e relapso. Obras raras da nossa história regional já viraram comida de traças, faz tempo. Viraram história. 
  
O que mais me dói, é que o povo não se importa, o povo não se preocupa com isso. Mas ele não tem culpa: a culpa da desafinada, sempre é do Maestro que rege a orquestra. A culpa ou o mérito, sempre é do Maestro. 
  
Crianças poderiam ser incentivadas a ler, em feiras culturais. A Semana do Livro poderia ser patrocinada pela Prefeitura, assim como a publicação e reedição de inúmeras obras de artistas locais. Campanhas de trocas de livros poderiam ter sido realizadas. O Prefeito - tão vaidoso nas redes sociais - poderia dar o exemplo, dando livros de presente. O EXEMPLO, vem de cima. E talvez a história da livraria, fosse outra.

Enfim, muita coisa poderia ter sido feita, mas agora não adianta mais. Mais uma livraria vai fechar. A única da minha cidade natal. A livraria da minha cidade sem cinema, sem teatro - agora, sem livraria.

É como um livro que se fecha, com páginas encharcadas de lágrimas, da história mais triste que você poderia ter lido.  
  
É o fim.  

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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