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Ruiter: o homem que fundiu-se com o hino de Corumbá

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Conheci o Ruiter em sua primeira campanha à Prefeito, em 2004. Eu já havia trabalhado na produção, em outras campanhas políticas - e fui indicado para trabalhar com a equipe de marketing e publicidade, criando peças gráficas e diagramando informativos que seriam impressos para cada bairro de Corumbá.

Naquela época, Zeca do PT era o Governador - e Ruiter era o seu escolhido para ser o Prefeito da Cidade Branca. Apesar de ser moderadamente ativo na política até aquele momento, Ruiter não era um político de facto: tanto é que assim que a campanha iniciou DE VERDADE, na primeira semana de caminhada ele pensou em desistir - aquilo ali não era pra ele. Obviamente ele foi impedido por Zeca, que veio pessoalmente para caminhar ao seu lado e literalmente ensinou-o a apertar mãos e abraçar gente desconhecida - algo tudo muito novo para um Ruiter tímido, contido, de fala baixa e reservado em público.

Confesso que nesse momento, deu um desânimo. Estávamos trabalhando duro, cerca de 12 a 14 horas por dia e não tínhamos certeza sobre o nosso candidato. Então começaram as gravações, porque em breve começaria o horário eleitoral gratuito.

Quem trabalhava no estúdio, começou a animar-se. O “homem” tinha um vozeirão grave espetacular e quando ia soltando-se aos poucos exibia um sorriso largo, revelando uma simpatia admirável. Havia esperança.

Quando o primeiro programa foi ao ar, um telão foi instalado dentro da produtora. Todo mundo ia assistir um trabalho que já havia começado há pelo menos dois meses antes - entre captura de imagens, produção e mixagem de áudio, depoimentos, textos e mais textos irem finalmente à público. 
 
Parecia final de campeonato de futebol: todos reunidos em volta do telão, guaraná e pipoca passando de mão em mão. 

Sem aviso, o vídeo onde uma menininha aparecia assoprando uma estrelinha surgiu no telão. A estrela passeava por belíssimas imagens da cidade e o narrador dizia: “Está nascendo uma nova Corumbá”. O programa todo discorreu sobre a história de Ruiter e os depoimentos de familiares e amigos. Bem no finalzinho do programa finalmente o HOMEM apareceu, e disse um texto que não durou nem 30 segundos: com seu vozeirão confortante disse que estava disposto a construir uma nova cidade em um novo tempo e disse que renovaria nossas esperanças de um futuro melhor. E encerrou, repetindo a frase do narrador:

“Está nascendo uma nova Corumbá”

A platéia na produtora urrava de alegria. Todos arrepiaram-se, outros não conseguiram conter as lágrimas de emoção pela edição fantástica do primeiro programa e que estávamos ali no processo de criação do futuro prefeito de Corumbá. Não havia dúvidas, era ele! Ele havia encarnado o homem que foi escolhido para governar a nossa cidade!

Nunca vi uma equipe trabalhar com tanto afinco e prazer. E como trabalhávamos! Eu fazia minha faculdade de Direito pela manhã e depois do almoço corria para a produtora e só saía de lá quase meia-noite. Alias, o ritmo era tão intenso que resolvi parar de fumar (e nunca mais fumei) justamente nessa campanha.

Mas foi no dia 21 Setembro de 2014 - aniversário de Corumbá - que Ruiter iria fundir o hino de Corumbá com sua imagem. O desfile havia acontecido durante o dia e nessa noite (o programa da hora do almoço era dos candidatos a vereadores) praticamente toda a população de Corumbá já estaria em casa. E foi justamente quando foi ao ar uma das mais belas produções políticas já realizadas em nossa cidade e que tentam imitar, até hoje. 

O programa especial do aniversário da cidade começou com cidadãos comuns parabenizando Corumbá e demonstrando suas esperanças de dias melhores. Em seguida Ruiter deixou sua mensagem pessoal para cidade e seu povo, com aquele jeitão simples e já com total intimidade com a câmera. E então veio a cereja do bolo: demos uma nova roupagem ao “Hino à Corumbá” - e o que antes era uma marchinha, nessa versão acústica seus versos rebuscados finalmente puderam ser apreciados com toda a emoção e sentimento que eles merecem. Até gente que veio de fora para trabalhar na campanha chorou com esse vídeo e dizia que dava vontade de ter nascido aqui. (você pode conferir o vídeo aqui ). 

Foi exatamente nesse momento, que Ruiter começou a fundir-se com o hino da Cidade Branca, pois ali ele resgatou o ORGULHO de ser corumbaense.  

Após a campanha de 2004, eu queria ter participado do projeto de Ruiter, mas a dona da agência disse que não teria espaço para mim lá - e queria que eu continuasse a prestar serviços para a agência, o que eu não concordei. Sabendo que seria barrado de alguma forma lá dentro, afastei-me e terminei a minha faculdade de Direito.

Não tive mais contato com a política, estava focado em outras coisas. Quando Ruiter foi reeleito em 2008, minha preocupação era com minha consultoria na mineradora Rio Tinto (hoje Vale) e preparar-me com o nascimento da minha filha caçula, Isabelle.

Então um dia minha mãe - que era Conselheira Tutelar - disse-me que Ruiter “a perseguia” em seu trabalho. Indignei-me. Criei raiva, afinal de contas - era a minha mãe. Eu era bem mais jovem, inexperiente e não entendia como funcionava o poder público e as raposas, lobos e abutres que vivem dentro e ao seu redor. Desgostei-me de Ruiter e em certo ponto, arrependi-me de um dia ter trabalhado para ele. Vida que segue.

Fui embora de Corumbá buscando melhores oportunidades de vida para mim e para minha família em 2011 - em Rondonópolis-MT. E de lá com muito desgosto vi que Ruiter estava apoiando seu então amigo de infância e compadre Paulo Duarte, para ocupar o seu cargo. Não gostei, porque  achava de uma tremenda estupidez um Deputado largar seu cargo para se tornar-se Prefeito - afinal de contas, quem olharia por Corumbá na Assembléia? E depois, durante uma visita de Paulo Duarte à produtora em 2004 ele não foi simpático comigo. Ao cumprimentá-lo, ele nem olhou-me nos olhos - pouco importando-se com a minha presença, preterindo-me à outras pessoas presentes. Fiquei com a mão estendida no ar e completamente sem-graça. Encarei isso como um ato de soberba e prepotência imensas - completamente antagônica à personalidade que Ruiter demonstrava. E fica aqui minha dica para os novatos na política: a primeira impressão SEMPRE é a que fica - a primeira impressão que Paulo me passou foi essa, e ele nunca mais conseguiu reverter essa imagem em mim - e sem sombra de dúvidas, esse pequeno episódio teve grande influência para que eu me decidisse à apoiar Ruiter e não ele, doze anos depois.  
 
Falando em apoio, em 2015 eu havia acabado de montar um jornal online com a radialista Lu Barreto - o MS Diário (hoje, Correio da Manhã). Então um dia soubemos que Ruiter estava descontente com seu partido (PT), que havia um sentimento muito forte de traição no ar e que estaria havendo uma conversa entre ele e o Governador Reinaldo Azambuja (PSDB).

A Lu me garantiu que Ruiter era o melhor político que ela havia conhecido na vida, que tinha absoluta certeza que ele não perseguiu a minha mãe em hipótese alguma - e que isso era coisa de gente que fazia as coisas por conta própria e acabava jogando na conta do prefeito, com a famosa frase “ordens lá de cima”. E isso fazia sentido. Mais velhaco na política (havia feito uma campanha intensiva para eleger Reinaldo no ano anterior), isso era perfeitamente plausível. Cansei de ver gente falando em nome dos seus chefes, mas que no final das contas o chefe não sabia de porra nenhuma. Dei uma nova chance ao HOMEM. Após ele ingressar no PSDB, um dia soube que ele estava em Campo Grande e pedi uma carona para ele, para Corumbá. Já nem esperava por uma resposta, quando vi a mensagem no celular: “Vou amanhã às 7h. Te pego onde?”

No dia seguinte, viajamos juntos e conversamos durante toda  a viagem. É claro, não resisti e toquei no assunto “minha mãe”.

- Fábio, eu nunca “persegui” sua mãe, não havia razões para isso. Quando você é Prefeito, um monte de gente acaba tomando decisões  em seu nome - mais para dizer que tem autoridade na decisão daquele momento, para ninguém questionar aquele ato - mas pouca coisa acaba chegando até mim, de fato. É chato, porque não pense que você ou sua mãe são as primeiras pessoas que se aborrecem comigo, por coisas que eu não fiz. Mas de qualquer forma, se você ou sua mãe se magoaram comigo, eu peço desculpas, afinal de contas o Prefeito sempre é o responsável.”

Abro aqui um parênteses: quando você conheceu um político tão humilde desse jeito? A partir daquele momento, eu vi novamente o homem que prometia fazer nascer uma nova Corumbá. E empenhei-me ao máximo para isso. Viajamos mais algumas vezes juntos e pude conhecer o Ruiter contador de piadas e situações que só ele puxava a gargalhada - mas ria de uma forma tão espontânea, com as sobrancelhas longamente arqueadas para cima, os olhos pequenos ficando mais pequenos e o sorriso com os dentes cerrados, mas absolutamente largo - que você acabava rindo da risada dele. Conversamos sobre projetos e formas de incrementar a renda na cidade, sobre coisas que seriam ou não seriam populares, coisas que poderiam REALMENTE transformar a vida das pessoas - e ele opinava e escutava à tudo atentamente.

Durante sua campanha, licenciei-me do jornal para engrossar suas fileiras. E como foi árdua essa batalha! Sem dinheiro, sem recursos, apenas na GARRA. Quando a coisa pesava e precisava de uma resposta, ele falava: “Chame o Fábio, ele vai saber como lidar com essa situação aqui”, o que me enchia de orgulho - pois ele confiava na minha lealdade, capacidade e profissionalismo para lidar com situações críticas. Imagine brigar contra a MÁQUINA local e para piorar as coisas, mais de 80% das pessoas que Ruiter havia ajudado no passado ou que faziam parte do seu time original (entre eles muitos “amigos”) agora estavam jogando contra ele. Até mesmo a DONA da agência que tinha todo o seu acervo de imagens das campanhas passadas - e que tinha se dado bem na Prefeitura por oito anos - tinha virado as costas para ele. Tivemos que nos virar para arrumar imagens antigas com os colaboradores, porque não tínhamos UMA imagem disponível para utilização na campanha - mais uma traição que o coração de Ruiter teve que aguentar.  
 
Mas era o homem-hino que estava ali. O homem que havia personificado o hino de Corumbá e sua essência de coragem, de esperança em dias melhores. E assim, com muita luta, suor e lágrimas dele e de sua equipe, retomamos Corumbá nas Eleições 2016.

É claro, isso teve um preço: treze anos depois da sua primeira campanha política (ele tinha 40 quando venceu pela primeira vez), sua saúde já não era a mesma. A política consome seus jogadores, meus amigos. Na dúvida, compare a imagem de alguém antes de se tornar um político e após o seu mandato. Imagine alguém que tem que resolver TODOS os problemas de uma cidade todos os dias - mesmo aqueles que estão fora de sua alçada, porque SEMPRE o que acontece na região, a culpa é do PREFEITO e jamais de um secretário, de um funcionário, de um gerente, de um diretor. Sempre é do Prefeito. É um KARMA muito grande, um fardo que poucos conseguem carregar - e Ruiter abraçou esse sacerdócio por três vezes.

E três vezes foi demais para nosso homem-hino. Seu coração repleto de traições recebidas ( e que generosamente perdoou alguns - aos protestos de muitos ), de preocupações com problemas jurídicos, de ordem pessoal e profissional começou a apresentar problemas. Por algumas vezes ele teve alguns picos de pressão preocupantes, aqueles sinais que o corpo dá quando está atingindo o seu limite. E ele ultrapassou esses limites: raramente tirava um tempo para si, para o seu lazer, para sua família. Esse último mandato estava exigindo demais dele, a Prefeitura estava com problemas demais deixados pela gestão anterior, os processos não o deixavam governar direito e não davam tempo nem folga para ele terminar de arrumar a casa -obrigando-o a viajar para capital de carro praticamente todas as semanas, desde que assumiu. Para piorar, os parceiros políticos com que ele contava, só enrolavam e estavam deixando-o em má-situação com a população. E de quebra, ainda vinha um ano eleitoral pela frente e a pressão de toda uma classe política local para ele fazer pelo menos um deputado por Corumbá (e que não fosse do time que jogava contra). Isso em uma rotina de vida onde você não pode comer sossegado em um restaurante ou ir à feira - por exemplo - pois sempre aparece alguém pedindo para resolver algum problema (que obrigatoriamente terá que ser resolvido), pois essa é a real vida de um político com total acesso ao povo, como Ruiter foi.

Enfim, o limite do nosso Ruiter chegou. E o homem que um dia foi chamado para resolver todos os problemas de uma cidade, teve que nos deixar.

Culpa nossa. Gritamos tanto “Chama o Ruiter”, que alguém lá em cima resolveu chamá-lo, também. Mas mesmo no seu caminho rumo à Eternidade, o HOMEM ainda demonstrou mais um gesto da sua nobreza e generosidade ao presentear-nos com a frase:  

“Não demore muito pra apaziguar, pra amar e pra perdoar.“  

Ai daqueles que pela soberba, orgulho ou prepotência não tiveram  a humildade suficiente para sentir novamente o seu abraço ou sua voz inconfundível dizendo “Para com isso, vem cá, vem comigo, deixa isso pra lá”. Perderam o privilégio imenso e a oportunidade de ter novamente a amizade de um dos mais nobres homens que já conheci - pois agora já era, nunca mais. Pobre consciência, pobre remorso. Enfim, escolhas - não é mesmo?

Aqui, fica apenas a saudade e o sentimento de ter conhecido uma das maiores personalidades que a nossa história já teve. Alguém digno de fazer parte dos nossos livros, das nossas recordações, de ser inspiração para os nossos jovens, como o exemplo de alguém que amou tanto uma cidade - que acabou fundindo-se com o hino dela, pois agora e daqui muitas décadas será impossível ouvir essa música sem lembrar-se dele e seu legado - tarefa árdua para aqueles que pretendem superar seus passos.

Seguindo à risca a letra do nosso hino, Ruiter teve Corumbá, viveu muito feliz aqui e hoje encontra-se em nosso céu brilhante.   
  
Para mim, só resta dizer:

Obrigado por tudo e até um dia, bugre.    


Foto: Minha mãe Vera Lucia Marchi, eu e Ruiter após um comício, durante a campanha de 2016.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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