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Sobre Amor e Fuzis

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Ao assistir à um vídeo de um ex-fuzileiro naval, denegrindo a Marinha, a localidade onde serviu e as pessoas com quem conviveu, a princípio eu senti muita raiva. Muita raiva.

Não apenas por ser corumbaense e pantaneiro - entrando, assim para o rol, dos ofendidos - mas também, por ter sido um Fuzileiro Naval, em Ladário.

Entrei para a Marinha na Turma II-93, depois de quase um ano de concurso público, entre testes físicos, psicológicos e exames de saúde. E uma vez lá dentro - além de muito ralo aprendi muitas normas, regras e conceitos escritos e várias outras tácitas, implícitas - que seriam muito complicadas para um paisano, sem o treinamento adequado, compreender.

Uma, entre várias delas, é o conceito da “movimentação”. 

Enquanto muitos acham que a “movimentação” - ou a transferência compulsória de militares, entre suas unidades espalhadas pelo país - é uma forma do militar ganhar dinheiro (porque ele recebe uma verba indenizatória para realizar sua mudança), ela possui outros sentidos que vão muito além disso.

O primeiro deles, possui caráter preventivo. Em um país imenso com o nosso, recheado de Estados insatisfeitos e com um histórico separatista (Confederação do Equador, Praieira, Farroupilha, Contestado, Conjuração Baiana, Sabinada, Conjuração Carioca, etc…) seria desnecessariamente perigoso, deixar os militares, concentrados apenas nos seus locais de origem: bastaria apenas um Comando fraco e uma centelha política local, para que o pior, acontecesse.

O segundo, possui uma razão estratégica: suponhamos que um militar do Rio de Janeiro seja designado, emergencialmente, para defender o Pantanal - que hipoteticamente, estaria sendo invadido. Ele não conhece nada sobre corixos, vazantes, sucuris, plantas venenosas, piranhas, o calor infernal e sufocante, queimadas e aquelas coisas que só os pantaneiros conhecem muito bem, inclusive as nuvens de mosquitos, capazes de abater a moral de qualquer unidade militar. Ele não conhece o terreno, o clima, as adversidades locais, o povo, nada. Vai morrer ou, no mínimo, facilitar exponencialmente, as condições para isso. Por essa razão, um militar bem preparado deve, em teoria, conhecer os pampas, o cerrado, o pantanal, a amazônia, a caatinga, as regiões praieiras e tantas outras micro-regiões que só um vasto país de dimensões continentais - como o Brasil - pode oferecer.

A terceira razão - e considero a mais nobre de todas - é para despertar o AMOR no militar, pela terra onde ele passa. Amor?

Sim, o Amor.

Amigos, ser militar não é abraçar uma profissão comum. Ser militar é uma doação de si, por uma causa maior: proteger e servir, a todos os cidadãos de uma nação, independente da sua cor, credo ou cultura - e até mesmo, morrer por eles. Ser militar é tão diferente de ser um civil, que até mesmo a legislação aplicada, é diferente da civil.

Sendo assim, quando você é movimentado para uma determinada localidade, um dos objetivos é que você conheça a região, conviva com o povo, assimile seus costumes e culturas e - com isso - você desenvolva carinho, amor e respeito para com aqueles que você foi designado, proteger e servir, naquele momento - afinal de contas, se tocar o horror por ali, você deverá estar preparado para morrer, defendendo essas pessoas, não é mesmo?

Eu me lembro que, quando eu era Fuzileiro Naval, eu tinha a visão - ao olhar para os civis comuns - de que eles eram pessoas indefesas e frágeis, e que era o meu dever, protegê-las a qualquer custo. Quando você desenvolve esse sentimento, então meu amigo - você é um militar preparado, para desenvolver o seu trabalho, da melhor forma possível.

É claro, nem todos nasceram para serem militares. 

Não é fácil passar por um treinamento onde apenas os mais fortes permanecem, até o final. De igual forma, não é para qualquer um, uma rotina de privações de liberdade (manobras, serviços de guarda, etc…), com picado e jacuba nem sempre são tão bons, em um trabalho onde a morte o acompanha sempre, todos os momentos - parte pelo equipamento letal que o acompanha, parte pelo objetivo principal do ofício: lutar até a morte, quando necessário - e que o soldo nem sempre corresponde aos méritos, pela grandeza da profissão.

Da mesma forma, nem todos desenvolvem o “espírito de corpo”, o sentimento de que você é uma parte importante, dentro de um organismo complexo - e que se você falhar - todo o resto do corpo falhará. Esse é um conceito de difícil aplicação na vida civil, até mesmo, nas grandes corporações - e que faz todo o sentido, para a sobrevivência da organização, reduzindo as margens de erro (que podem resultar na perda de várias vidas, em caso de falha) a níveis mínimos.

Mas aí, um tempo depois de ver o infeliz vídeo desse boy, passei a sentir um certo alívio: o alívio por saber que a Marinha do Brasil havia expulsado esse boca preta  “por não ter cumprido os requisitos necessários pautados na ética, na moral, na hierarquia e na disciplina, características fundamentais dos verdadeiros marinheiros”, um claro sinal que a Marinha continua sendo A MARINHA, ou seja, não está à culhão, como boa parte das instituições civis, neste país. 

Por uma série de razões do destino, eu não fui em frente, na minha carreira militar. Mas levo comigo todos as coisas boas que aprendi lá, e coloco em prática, na minha vida diária - é claro, nada relacionado à preparar explosivos, atirar com um fuzil em zona cinco ou calar sentinela de madrugada - mas a disciplina, a paciência, a resiliência, a tolerância e aquela camaradagem que só quem serviu, sabe como é.

Reza a tradição que, “uma vez Fuzileiro, sempre Fuzileiro”. Mas pessoas como esse infeliz bola-sete metido a rasteiro - ou seja, um embusteiro - nunca serão. Nunca serão.   

Ele esteve na Marinha - mas nunca fez parte, dela.
  
ADSUMUS, PANTANAL!
 


PS: Propositadamente, eu escrevi no texto acima, palavras e expressões militares. Segue aqui um pequeno glossário, para melhor compreensão.

  • Ralo - treinamento rígido militar, que inclui flexões, corridas e exercícios táticos, muitas vezes sendo executados sob pressão psicológica.
  • Paisano - Civil comum. Pessoa que não é militar.
  • Moral - Ânimo, vontade de lutar, de realizar o seu trabalho
  • Tocar o horror - Acontecer algo fora da normalidade, para o pior.
  • Militar Preparado - militar capacitado e apto, a desenvolver suas funções. 
  • Picado - Alimentação militar (Café, Almoço, Lanche, janta, etc..)  
  • Jacuba - Suco
  • Soldo - Remuneração militar
  • Boy - Soldado novato, inexperiente.
  • Boca Preta - Militar que fala demais, inclusive o que não deve.
  • À culhão - Algo desorganizado, bagunçado, sem obediência.
  • Zona cinco - área principal de um alvo
  • Camaradagem - solidariedade militar
  • Bola-sete - militar marcado para sair de baixa, ou seja, ser demitido.
  • Rasteiro - militar que cumpre todas as suas obrigações, rigorosamente.
  • Calar sentinela - matar um inimigo, que está de guarda.
  • Embusteiro - impostor, mentiroso, safado
  • Nunca serão - expressão designada para aqueles que não chegarão à uma determinada etapa da carreira militar.
  • ADSUMUS - Palavra-lema dos Fuzileiros Navais. Tem em sentido próprio o significado de “estar presente” e em sentido figurado - “Aqui estamos, refletindo a presteza e o permanente estado de prontificarão dessa tropa profissional”. 
Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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