Textículo

Sobre Deuses e Intolerância

Comente este artigo

Imagine a seguinte cena:

Um bando de homens arrastam um prisioneiro, aos gritos e prantos para o centro de uma praça. Ele está magro, visivelmente abatido pela tortura e humilhação sofrida dentro da cadeia, com o único objetivo: que ele admita o crime de ser um infiel.

Eles colocam seu pescoço em um toco de madeira, pedem para que ele se arrependa dos seus pecados e então, com um golpe certeiro de uma espada afiadíssima, sua cabeça sai rolando, para deleite da multidão que assiste ao espetáculo macabro.

Para sua sorte, sua morte foi rápida - apenas porque ele havia confessado seus crimes, desde que foi capturado, cerca de 30 dias antes da sua execução - senão morreria carbonizado pelo fogo, não sem antes cutucarem seu corpo, com lâminas afiadas.

Agora veja:

A carroça partiu cedo. Dentro dela, vários barris de alcatrão e piche, material comum de isolamento de casas, para suportar o frio gélido da noite e reparar vazamentos. À noite, o viajante chega à entrada da cidade dos infiéis. Depois de identificado, ele consegue passar, fingindo ser um comerciante. Então, quando todos estão dormindo, ele esparrama sua carga em pontos estratégicos da cidade - onde as lonas, tendas e prédios são muito próximos uns dos outros - e começa a provocar um grande incêndio, que destrói metade da cidade. Muitos morreram dormindo, várias crianças morreram pisoteadas. O cheiro de churrasco humano dura semanas, na região.

Visualize o seguinte:

Uma mulher, acusada de adultério pelo seu marido é torturada por dias, com seus seios sendo prensados entre duas tábuas recheadas de grandes pregos em formato de cunha, para não deixar sair muito sangue - evitando assim que ela morra por desidratação, antes da hora. No seu reto e na sua vagina, grandes pedras são inseridas à força, para que ela se arrependa de ter fornicado com outros homens, além do seu marido. Antes que as torturas começassem, ela foi estuprada por vários guardas, às vezes dúzias deles - dependendo da beleza, da importância e da jovialidade da mesma.

O sofrimento se consome com ela sendo amarrada em um tronco de madeira - e em seguida, a população começa a alvejar contra o seu corpo magro e nu, pedras de tamanho médio: nem muito grandes que possam matar rapidamente, nem muito pequenas, que não possam provocar muita dôr. Se ela tiver sorte, alguém a atingirá na cabeça com força e ela perderá os sentidos, antes de morrer “lapidada”.

Por último, veja este caso:

Um judeu foi capturado. Ele é fiel à sua religião e seus dogmas - e seus algozes sabem disso. Não adianta ele oferecer ouro e jóias pelo seu resgate, como muitos o fazem - isso não aliviará os seus pecados e a sua dor. Afinal de contas, o que os judeus fizeram com “o seu povo e os seus líderes religiosos” é imperdoável. 

Então após a humilhação e torturas de sempre, levam-no para um local aberto, tiram suas roupas e começam o processo de empalamento: enfiam uma longa estaca de madeira ensebada em gordura animal no seu ânus e fazem com que ela saia pela cabeça, através da sua boca. O trabalho é feito por um perito no assunto, um profundo conhecedor da anatomia humana - pois o prisioneiro não pode morrer no processo de empalação, evitando assim, que qualquer órgão vital seja atingido pela estaca durante o ato. 
  
Depois disso, dois homens amarram seu corpo nesta longa estaca - deixando-o bem firme - colocam-no sobre dois suportes de madeira, com um vão livre entre elas. Neste espaço localiza-se uma pequena fogueira, com as chamas vivas o suficiente para provocar calor e dor - mas não tão altas, para que não o matem em pouco tempo. Então, como um churrasco, o carrasco vai girando seu corpo ensanguentado sobre as chamas, até a morte - que dependendo do tamanho do corpo, da intensidade do fogo e da resistência do prisioneiro, podem durar horas. A morte é humilhante, porque porcos são considerados impuros no judaísmo - e nada melhor do que matar seu inimigo, da mesma forma que um animal que ele abomina.
 
Horrível, não é mesmo? Pois bem, as cenas descritas não fazem parte das atrocidades provocadas pelo ISIS, o grupo radical islâmico que está aterrorizando boa parte do Mundo: essas cenas faziam parte do cotidiano comum, durante as Cruzadas Cristãs e a "Santa" Inquisição - o período vergonhoso do cristianismo que abrangeu de 1231 quando foi criada pelo papa Gregório IX, e terminou com extinção do Santo Ofício em 1834.

As regras da época não eram muito diferentes das que são impostas hoje, por esse grupo terrorista enlouquecido pela fé e pelo sangue, atualmente: ou você é um de nós ou você é o inimigo. Não há meio termo, nem diálogo, nem justificativas: você merece morrer.

A intolerância religiosa não é um privilégio da nossa era. As religiões sempre competiram entre si, muitas vezes banhando-se em sangue, nesse processo. Os romanos, politeístas perseguiram os cristãos…e vários povos bárbaros, cultuadores de outros deuses, acabaram com os romanos. "Nosso deus vai ajudar a conquistar e dominar, e ponto final. Matem os infiéis". E por aí vai.

É claro, muita coisa mudou de lá para cá, em parte pela facilidade dos meios de comunicação e consequentemente, pela distribuição de conhecimento agregada: afinal de contas, quando existe a liberdade de produção artística, científica e cultural, existe uma troca de idéias e pensamentos que motivam o crescimento e o desenvolvimento humano - e muitos dogmas arcaicos e abomináveis são deixados para trás.  
  
Olhe o quanto evoluímos em 100 anos, desde que passamos a incorporar a tecnologia em nossas vidas. Olhe para 1915 e olhe para 2015. São apenas 100 anos e toda a sociedade mudou - e que mesmo com todas as guerras e barbáries produzidas ao longo desses anos - eu considero o período de ouro da nossa espécie. Muitas doenças mortais foram erradicadas, aumentamos nossa expectativa de vida e temos muito mais conforto em nossa existência - inclusive até no momento da nossa morte, se advier por meios naturais.

Porém, a intolerância ainda é a praga que assola a Humanidade: a incapacidade de aceitar o diferente, o desprezo por aqueles que pensam ou são diferentes, o ódio puro, por aqueles que discordam das “suas verdades”.

O que vemos hoje sendo praticado pelo ISIS não é muito diferente  do que muitas igrejas pregam entre seus fiéis, ainda nos dias atuais. A única diferença, é que pelo nosso sistema legal isso não é permitido, de forma alguma. Seria crime. Porém, se estivéssemos sob códigos de conduta religiosos, tal como é a Sharia (lei religiosa islâmica que é aplicada na vida civil) adúlteras, gays e mulheres não-virgens seriam executadas em praça pública, sem dó - porque é exatamente isso, que a intolerância religiosa prega: o ódio inconsequente, para com aqueles, que eles não conseguem convencer e arrebanhar.
  
Eu mesmo, já presenciei cultos cristãos onde a verborragia discriminatória contra os não-crentes era tanta, o discurso de ódio, castigo e vingança era de uma aspereza tão grande - que eu me perguntava “como um Deus de Amor coloca um cara desses para ser seu líder na Terra”?  

Hoje, condenamos as ações do ISIS, mas se não observarmos o comportamento religioso atual no Ocidente, corremos o risco de voltarmos ao passado e, na filosofia do olho por olho - dente por dente, agiremos assim até ficarmos cegos e banguelas.

O papel da religião deveria ser o de aproximar as pessoas, de promover a caridade, o amor e a compaixão entre todos os seres humanos da face da Terra - até mesmo com aqueles que não tenham religião alguma: como forçar alguém a fazer o que não deseja, desdenhando assim, do “livre arbítrio” que você acredita que o seu Deus deu para ele? Não é um problema seu. Nunca foi. 

Juro que tenho medo, quando escuto alguém dizendo “eu não faço parte do Mundo”. É perigoso, pensar assim. Os jihadistas pensam da mesma forma, apenas não lutam por uma cruz. Pois é justamente esse processo de isolamento e de introspecção, de “não se misturar” com os outros, é que leva ao fundamentalismo religioso. 

Sua igreja não se mistura “com o Mundo”? Triste. Porque quando você não conhece o outro, você não o respeita, você não o ama e nem se importa com ele. Como “amar seu próximo” dessa forma, sem compreensão, conhecimento, compaixão e diálogo?    
  
Quando alguém diz que não acredita no seu Deus ou tira sarro da sua religião, qual é o seu sentimento? No seu íntimo, você sente raiva? Deseja que a ira do seu Deus recaia sobre ele e que ele chore arrependido pela sua blasfêmia? Passa pela sua cabeça “quando ele estiver queimando no Inferno, aí é que eu quero ver”?   
  
Pois é. Nada muito diferente, do que pensaria um bravo combatente jihadista do ISIS. A única diferença entre você e ele é que você é impedido por um código de ética e de conduta legal, que o acompanha desde sua infância - e eles não tem mais isso.

Então na próxima vez que você observar um comportamento extremista religioso, e começar a se horrorizar e criticar sobre os atos deles - reflita um pouco sobre os SEUS atos, os SEUS pensamentos e a SUA forma de agir.

Você pode já ser um jihadista, um voraz combatente em sua “guerra santa”…e nem se deu conta disso, pois está cego pela fé. Cegos não conseguem enxergar a luz.

Eu não sei o que Jesus, Maomé, Deus, Alah, Olorum, Buda, Shiva ou qualquer uma das centenas de milhares de entidades divinas e personagens santos contidos na História Humana fariam, se existissem e se visitassem a Terra.

Mas tenho certeza que ficariam lamentavelmente decepcionados conosco: pois trocamos a palavra AMOR - pela DOR - durante todo esse tempo.

Na verdade, temos conhecimento de tudo, da composição atômica até a galáxia mais distante.

Mas ainda não conseguimos aprender o básico:  amar incondicionalmente.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

Dê sua opinião, comente este artigo!

ATENÇÃO: Os comentários desta matéria são gerenciados pelo Facebook - que posta, agrega os comentários e os exibe nesta página. Este site não se responsabiliza por qualquer comentário indevido, feito à qualquer pessoa ou instituição - sendo cada comentário, de inteira responsabilidade dos seus respectivos autores e as denúncias deverão ser encaminhadas diretamente ao Facebook.