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Sobre esmaltes e traição

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Nos últimos dias, meus aplicativos de mensagens instantâneas vinham sendo bombardeados por mensagens de conteúdo referente à um caso que parecia ter saído de uma obra-prima de Nelson Rodrigues: após verificar o celular da esposa, marido descobre que ela o estava traindo - e pior, com um dos seus melhores amigos. Tudo devidamente documentado com vídeos gravados em celular, em um escândalo protagonizado em um motel, lá em Minas Gerais. Barraco total, com direito a B.O. policial e tudo aquilo que as massas adoram ver - diariamente - em programas de auditório de qualidade duvidosa.

Pelas redes sociais descobrimos o grau de parentesco dos envolvidos, a desculpa que ela inventou para ir ao motel com seu amante (ir à manicure), a incerteza da paternidade do filho caçula do casal, a profissão da mulher adúltera, as imagens da sua gravidez, dos seus amigos e da sua intimidade. Até mesmo os vídeos de um home porn estão rolando nesse universo virtual, alegadamente sendo protagonizados pelo casal traidor.   
  
E nessas mesmas redes, vemos surgir a todo instante, em velocidade com progressão geométrica, diversas piadas e memes relacionados aos protagonistas da história. Muitas engraçadas e com aquele besteirol típico dos brasileiros - mas apenas porque esse caso não teve um desfecho mais trágico. E chegou bem perto disso.

O que me incomoda nessa história toda não é o caso de adultério, algo tão comum e banal que até já deixou de ser crime em nossa legislação há muito tempo - afinal, desde que a raça humana existe, a promiscuidade também existe - e convenhamos: CASAMENTO  foi uma convenção social criada pelo Homem com o único intuito de preservar patrimônio entre os herdeiros legítimos ( coisa que o reconhecimento de paternidade extra-conjugal também já tirou boa parte do seu propósito inicial).

O que me incomoda é o fato de que vivemos em uma sociedade onde a execração da vida alheia em público passou a fazer parte da nossa rotina de entretenimento diário. Sem conhecer a história dos envolvidos, do seu relacionamento ou do seu passado, já apontamos e designamos do alto da nossa autoridade moral: “Eu não sou puta, para fazer isso”. “Comigo não!” “Mas que vagaba”. “Que gordo safado!” “Mas que corno trouxa! Porque não matou essa vadia?” - como se nunca tivéssemos cometido um ato falho, em nossa vida.

Nunca ninguém ficou com alguém comprometido? Nunca ninguém traiu? Nunca ninguém foi traído? Quem nunca pecou, que atire o primeiro chifre.

Mas não. Dentro dos nossos lares, vestidos com a nossa túnica-da-moral-pujante-conservadora e absolutamente distantes do nosso passado repleto de loucuras juvenis (e outras nem tão distantes assim), temos o poder de julgar a intimidade alheia, apenas com um teclado, um mouse ou um celular.

Não estou aqui para julgar as razões e os motivos que levaram a Fabíola a trair seu marido. Isso é uma coisa que deve ser resolvida apenas entre ela e seu cônjuge. É um assunto de cunho pessoal e privativo - algo muito em falta, nos dias de hoje. 

Muito menos quero falar sobre o machismo que impera nessas críticas, como se apenas as mulheres fossem culpadas pela traição e suas consequências. Eu conheci ao longo da minha vida, muitos maridos que simplesmente não proporcionavam prazer à suas parceiras - e o casamento se arrastava por muitos anos, até o inevitável fim (ou não). De igual forma, conheço muitos homens que tratam melhor suas prostitutas de "tardes de reunião chata no trabalho", com palavras doces, presentes e mimos - do que aquela parceira de todas as horas que vive para cuidar da casa, dos filhos e da administração doméstica: a Amélia dos sonhos, da média masculina brasileira.

O que realmente me dá nojo é a HIPOCRISIA GENERALIZADA - afinal de contas, somos todos santos, não é mesmo?

Eu até entendo as razões pelas quais rimos da desgraça alheia: é comprovado cientificamente que rimos de uma piada, porque é uma desgraça sem um desfecho mortal, que não aconteceu conosco. É por essa razão que o quadro VIDEO CACETADAS está aí no ar, há mais de duas décadas, na sua telinha.

Eu mesmo, quando ví os vídeos, fiquei chocado - e aliviado, quando vi que a história não teve um desfecho trágico. E depois, ao ver os memes e piadas a gente passa a rir, literalmente, da desgraça alheia. Afinal de contas ninguém morreu, né?

O problema é quando essas piadas envolvem vidas - e as vidas que dependem dessas vidas: no caso, os filhos dos envolvidos.

Como será a vida dessas crianças, ao terem conhecimento dessa repercussão inimaginável, no futuro? Como você se sentiria se visse um vídeo da sua mãe transando com outro que não seja o seu pai, em um motel? E pior, ver o seu pai descendo o braço ensanguentado na sua mãe, absolutamente enfurecido - e ter a consciência que a partir daquele momento, sua vida estaria marcada como o filho do corno e da puta da Saveiro no motel?  
  
É complicado. Muito complicado.

“Todos os nossos atos tem consequências”, muitos vão dizer isso.   “Cada um faz suas escolhas”, outros vão citar esse mantra.   
“Nada disso teria acontecido, se eles tivessem optado por um outro caminho”.  
E sim, vocês estão certos. Estão corretíssimos.

Então façam agora, nesse momento, a escolha de não pré-julgar ninguém, de não apedrejar ninguém. Pois nossos atos, ainda que simples, possuem consequências.

Ao apontarmos o dedo para os envolvidos em uma situação dessas, julgando de acordo com os NOSSOS princípios éticos e morais (como se tivéssemos esse direito, não é?), apenas contribuímos AINDA MAIS para o engrandecimento da hipocrisia neste país - e o aumento massivo da execração pública de vidas que poderiam ter tomado outro rumo.  
  
Por exemplo: se não tivesse havido essa superexposição, haveria grandes chances do casal se reconciliar. Isso é mais comum, do que se imagina. Patrimônio, filhos e uma história vivida a dois geralmente acabam falando mais alto do que uns poucos orgasmos experimentados fora do leito conjugal. É claro, muitos vão dizer que “eeeeeuuuu não!” ou “comigo é diferente!”. Mas converse com um advogado especializado em Direito de Família e você saberá que muito casamento em ruína prestes a entrar para as estatísticas de divórcio, acaba nem chegando ao conhecimento do Juiz: o casal se resolve, antes de assinar os papéis.  

Erro. Reconhecimento. Perdão. Reconquista. Vida nova. Esperança.  
  
Esse casal não teve essa chance. Nós não permitimos isso, a cada curtida, compartilhamento ou comentário. Caiu na rede, já era.  

Hoje, somos pedra.   
Amanhã, quem sabe o tamanho da pedrada que poderemos levar?    
 

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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