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Tira o médico!

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Ainda que não pareça (hehehe), eu tenho 43 anos muito bem vividos. Isto significa que fui um adolescente nos anos 80 e conheci o boom dos videogames no Brasil - e especial os jogos do tipo Atari, que vinham naqueles cartuchos de plástico com um circuito impresso dentro que muitas vezes tínhamos que literalmente soprar, para funcionar. Os controles frágeis tipo joystick quebravam com facilidade - pois a pressão da gurizada exercida sobre eles não eram previsíveis nos testes de controle de qualidade, tenho certeza disso: boa parte da minha mesada era destinada a comprar controles novos!

Mas os jogos daquela época tinham uma característica: não tinha SAVE. Para quem não entende o universo dos jogos, a função SAVE significa que você salva aquela fase do jogo e, se morrer - continua a partir dali. Função muito boa se você passa horas na frente de uma TV durante uma partida e de repente, pá! Morreu.  
  
Na minha época, se você estivesse na fase 456789º de um jogo e acabassem suas vidas nessa fase (ainda que só faltasse só uma fase para o final),você tinha que começar TUDO DE NOVO, DO INÍCIO, sem chororô. E dificilmente se você completasse um jogo e não houvesse testemunhas - você viraria apenas uma lenda no colégio. Nada de prints de tela, nada de scores online. Ou isso acontecia com seus amiguinhos presenciando o gran finale, ou nada feito, nunca aconteceu.

E para piorar, os melhores games estavam nos fliperamas. Galaga, Ghost n’Goblins, Sunset Riders, Pac Man, Phoenix, Double Dragon eram alguns dos jogos que se você morresse, sua ficha já era. Sua suada mesadinha também. Você tinha que ser BOM, para que sua diversão rendesse - ou todo seu rico dinheirinho ia em poucos minutos dentro da máquinas desafiadoras. Sim, era um grande desafio. 

Era difícil ser gamer naquela época. Muito difícil. Só os fortes entenderão (Uma lágrima masculina escorreu aqui).

Agora vou lhes contar como anda sendo a minha experiência nos dias atuais.   
  
Dias atuais? Sim, eu continuo jogando - só que desta vez online, em um PC bem equipado com uma placa de vídeo turbinada e uma conexão veloz para não ter problemas de “lag” ou “ping”. 

Jogar me distrai e ajuda a desestressar. Penso que é preferível “matar” um monte de gente online do que partir para isso na vida real - pois às vezes bate uma vontade, hehehe. Calma, isso é seguro e saudável - só pessoas que já são doentes é que não sabem diferenciar o mundo real do virtual.  
  
Mas eu observo uma característica interessante na geração que joga, nos dias atuais: eles choram. Meudeus, como eles choram quando perdem!

Eu jogo um jogo de tiro online chamado WARFACE - A FACE DA GUERRA, assim como a minha esposa Ana - que também ama jogos de First Person Shooter (Jogo de Tiro em Primeira Pessoa). Temos dois perfis dentro do jogo e nos divertimos bastante. Juro que se alguém alheio à nossa diversão nos pegasse conversando em alguns momentos, ficaria confuso e espantado ao nos ver discutindo sobre o modelo de uma pistola ou “comprar” um determinado rifle sniper.   
  
Nesse jogo, você pode escolher na partida ser um Fuzileiro, um Médico, um Engenheiro ou um Sniper - cada um com suas características de modo de jogo e armas e equipamentos próprios.

E o Médico - senhoras e senhores - carrega consigo uma espingarda calibre 12”. Dependendo do modelo, mata com um tiro só, à curta distância. Se você equipar um médico com um bom colete, com luvas que aceleram o carregamento da arma e com botas que aceleram sua corrida - o médico acaba sendo o melhor personagem do jogo.

É claro, ele não é invencível. Suas armas principais tem alcance curto e você pode matá-lo à média e longa distância, facilmente.

Mas a gurizada não quer nem saber:

“Tira o médico!”

é o mantra em muitas partidas que eu jogo. Outros atingem outros níveis estratosféricos de choro: “Tira as bombas!”

Isso me faz refletir que essas novas gerações não gostam de encontrar dificuldades pela frente. Quando encontram com algo que está sendo difícil de lidar, choram para que as dificuldades sejam extirpadas de sua vida - ao invés de lutar e persistir para que as mesmas sejam superadas.

Isso é um comportamento bastante preocupante. Podemos estar diante de gerações que simplesmente terão muitas dificuldades em superar problemas pessoais e profissionais apenas porque não gostam de serem contrariadas e cuja frustração não sabem como lidar.

A minha geração foi educada a superar as dificuldades e que o sucesso disso seria apenas e exclusivamente de nossa responsabilidade. Porém não isso é o que vejo nessa gurizada. Os games são apenas um leve reflexo de todo um sistema que foi construído de forma a evitar “traumas” no desenvolvimento dos jovens.

Podem observar: boa parte dos mimimis desnecessários que acabam se tornando “polêmica” nas redes sociais são iniciados e propagados pelos jovens, em sua grande maioria. Tudo pelo fato de que não aceitam um determinado tipo de comportamento, filosofia, ideologia contrários às suas. 

Alguns de vocês vão dizer: 

Ahhhhhhh mas isso é característico dos jovens.

Sim, eu sei - já fui jovem. 

Mas hoje em dia parecem que perderam a mão, tornaram-se desinteressantes, chatos demais, chorões demais, politicamente corretos demais. Tudo é preconceito, politicamente incorreto, machismo, homofobia. Os jovens perderam suas característica de jovens irreverentes e agentes de transformação: tornaram-se adultos cedo demais - e pior - mimados demais.

Confesso que me preocupo bastante com isso, afinal tenho uma filha de sete anos que quando menos eu perceber, já terá se tornado uma aborrecente do século XXI.

Até lá, vou frustrando um pouco essa gurizada com meu médico, no Warface.  Eles precisam entender a frustração de morrer com um tiro só, quando menos esperarem. De preferência, “de costinha”, que é mais gostoso.

E podem chorar, que o chôro é livre. 

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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