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Um Carnaval com gosto de mel

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Quando fomos convidados para conhecer o Carnaval na pequena cidade de Fátima do Sul, confesso que duvidei do potencial da festa realizada na região. Afinal de contas, o que uma cidadezinha com apenas 53 anos de emancipação e 19.000 habitantes poderia oferecer de atrativos - para alguém que como eu, que estava acostumado ao Carnaval Corumbaense, o mais tradicional e badalado do Estado? 

Para mim, um folião que desde criança brincou no Riachuelo F.C. e Corumbaense F.C. nas inesquecíveis matinês infantis, que tem “Flôr de Abacate” no playlist do iPod e que criou a marca e desenhou as camisetas e abadás do Bloco Afoga o Ganso por 23 anos - Fátima do Sul não poderia oferecer muitas surpresas e expectativas: pois na minha cabeça-bairrista-corumbaense, não havia outra forma de se divertir nesta época do ano, que não fosse desfilando pelas ruas de Corumbá.

Mas enfim, eu já morei fora da minha cidade natal por um bom tempo - e isso meus amigos, ajuda muito na hora de abrir sua cabeça para valorizar novas experiências. E munidos desse pensamento, rumamos para Fátima do Sul, distante cerca de 230 km da capital, Campo Grande: eu, a minha sócia Lu Barreto e a minha esposa Anna Marchi.

Escolhemos uma rota tranquila (evitando ao máximo a BR-163 nesse  feriadão de Carnaval) passando por Sidrolândia, Maracaju e Rio Brilhante, quando finalmente entramos na 163 e pouco tempo depois, já estávamos em Fátima do Sul. Confesso que se saíssemos  direto pela BR-163 nosso tempo de viagem seria muito mais rápido, mas as meninas optaram por uma viagem sem pressa - e quem estava no comando do volante era a Anna - logo, manda quem pode; obedece quem tem juízo.

Ao saírmos da BR-163 e adentrarmos na BR-376 - a rodovia que dá acesso à Fátima - já começamos a perceber que a paisagem havia mudado. Uma vegetação nativa se misturava com plantações de soja, cana e milho - dando um aspecto de interior muito aconchegante e convidativo.

Nem 15 minutos nessa estrada e já avistávamos a ponte sobre o Rio Dourado, caudaloso e de águas muito agitadas - visivelmente acima do nível normal.

Chegamos na hora do almoço de um sábado - a festa já havia começado na sexta - e era visível a ressaca coletiva da cidade: tudo quieto e silencioso, com alguns poucos corajosos a enfrentarem o sol que brilhava bravamente, após muitos dias chuvosos.

Almoçamos em um supermercado, o JuliFran e logo de cara vimos que o Carnaval de Fátima teria um toque corumbaense em sua edição: encontramos no mesmo local, a banda corumbaense Sedução e a banda Mika7, que sempre animou o Bloco Afoga o Ganso, em Corumbá.

Fomos então para o nosso hotel, o Hotel Princesa - que fica localizado a poucas quadras da Orla, um parque com lagos artificiais maravilhosamente construído para o lazer da cidade, com pistas de caminhada, ciclovia, muita grama e prática de jetski no lago principal. O Hotel Princesa, apesar de ser o maior hotel da cidade ainda é um hotel simples, porém muito aconchegante: não tenho do que reclamar do ar-condicionado com a capacidade para gelar até a alma de um corumbaense calorento, a cama é confortável e o quarto tem bastante espaço. E o café-da-manhã tem entre frutas, bolos e sucos, uma deliciosa manteiga caseira cujo sabor ainda persiste em minha memória.

Gurizada pratica jetski todo final de semana
Gurizada "brinca' de jetski nos finais de semana na Orla

E após fazer um tour pela cidade, nos preparamos para o segundo dia da festa, que estava programada para iniciar as 21:00h. Conhecedores desses eventos, resolvemos jantar em uma pizzaria ( de longe, a comida de rua mais popular de Fátima - existem pizzarias por todos os lados ) e lá pelas 22:30 resolvemos ir para o local do evento.



Segurança é reforçada: ninguém passa sem ser revistado

Passamos pela revista obrigatória (muito rigorosa, por sinal) em uma das entradas de acesso e…pá! Não tinha ninguém lá dentro! Tudo vazio! Pensamos conosco: “Putz, que roubada! A propaganda negativa provocada pelo Ministério Público deve ter afetado a decisão das pessoas em participar da festa” - avaliamos.

Camarotes vazios, som mecânico rolando umas músicas dance dos anos 90 e uns poucos corajosos (e bêbados) arriscando a dançar na cara do palco: essa era a situação da festa, quando chegamos.    

Bateu um friozinho na barriga: fomos convidados para ver isso?

Resolvemos voltar para o hotel e dar um tempo, para voltar mais tarde. Lá ficamos conversando até perceber que a banda Mika7 estava no mesmo hotel.  Então eles nos convidaram para ir no ônibus com eles para a festa. 

E qual foi a nossa surpresa, ao chegarmos novamente ao evento da  Fátima Folia, que o local estava absolutamente cheio? Wtf? Onde estava esse povo todo? Tudo lotado! Camarotes, pista, tudo! Aproximadamente 25.000 pessoas chegaram quase ao mesmo tempo! Nunca vi isso na minha vida.

Depois ficamos sabendo que existem vários blocos particulares em Fátima - onde pudemos observar que o Paparazzo e o Meio Limão eram os mais populares, com muitos integrantes brincando pelas ruas. Também vimos muitos paraguaios aproveitando a festa ( Ponta Porã fica a duas horas e meia de viagem dali ), fazendo a folia com a cotação do dólar - para a alegria dos comerciantes fátimasulenses.



Os camarotes são muito espaçosos. Marcas de cerveja e outras bebidas são livres.

Fomos para o nosso camarote e ficamos curtindo a festa e impressionados com a estrutura do evento: camarotes gigantes, com dois níveis e até com um imenso bar e banheiros disponíveis dentro da própria estrutura. Nunca vi uma estrutura dessas, em Corumbá - nem nos eventos particulares. Depois de muita agitação, fomos para o hotel descansar - e ficamos sabendo que a festa terminou quando o sol já estava raiando.

Acordamos cedo e fomos para a Orla. Tínhamos notícia que ainda tinham foliões aproveitando as primeiras horas do dia à beira dos lagos. E realmente eles estavam lá, escutando música nos carros e se divertindo como se não houvesse amanhã. Alguns não aguentaram o cansaço e acabaram dormindo pela grama, mesmo - o que é possível em uma cidade com um índice de criminalidade muito baixa, como Fátima do Sul.

Lá pelas 9:00h fomos para o Aqua Park de Fátima do Sul, o único parque aquático do Estado - e que é um excelente complemento de orçamento da cidade, cuja arrecadação é a quarta de Mato Grosso do Sul…“se você contar de baixo para cima” - como eles mesmo dizem, com muito bom humor.

O Aqua Park abre às 10:00h da manhã e ficamos impressionados com  a quantidade de turistas que chegavam à todo momento, em carros particulares ou em ônibus de turismo especialmente fretados para esse fim. O parque é municipal, mas a entrada não é gratuita: cidadãos fátimasulenses (com comprovação de residência) pagam R$ 10, turistas pagam R$ 15. Crianças até 6 anos não pagam e estudantes pagam meia, desde que apresentem carteirinha estudantil.



O lugar mais refrescante da cidade: Aqua Park

O Park oferece muitas piscinas, para todos os gostos e idades. Tem tobogã, alguns brinquedos, vários carrinhos de lanches rápidos e um restaurante. O atendimento no restaurante deixou um pouco a desejar, com um sistema confuso de senhas de pedido aleatórias, o que te obriga a ficar esperando em uma expectativa desnecessária. O pessoal do atendimento também parece não ter tido um bom treinamento para se relacionar com os visitantes - pois não praticam o mínimo da cordialidade necessária para cativar os clientes. Sendo justo porém, a comida tem sabor de caseira, é saborosa e tem um preço justo (Prato feito self-service por R$ 14). Existe também a opção para quem quiser alugar um quiosque com churrasqueira por R$ 170 (com 10 ingressos inclusos), mas as reservas tem que ser feitas com antecedência.

Ficamos no Aqua Park até a tarde e voltamos para o hotel. 

Ao final da tarde, pudemos comprovar a hospitalidade do povo fátimasulense, de um jeito inusitadíssimo. Vou contar:

A Lu ama café. Ama café a ponto de ficar irritada se não tiver uma xícara a sua disposição, nos horários costumeiros. Então saímos para bater umas fotos da Orla e achar um café para ela (pois não tinha café no hotel). Como era de se esperar, não havia uma padaria ou café abertos no final de tarde de um Domingo de Carnaval em uma cidade interiorana - e a Lu ia se irritando cada vez mais com essa situação.

Então eu vi uma senhora sentada na sua confortável cadeira de linha, na calçada defronte à sua casa - e resolvi parar o carro, perguntando:

- Olá, onde posso achar um lugar para tomar um café?
- Iiiih moço, hoje vai ser difícil. Mas posso passar um agora para vocês, se quiserem. Não querem descer?  

  
Dona Célia e a hospitalidade fátimasulense

Paramos por ali mesmo. Dona Célia salvou a nossa vida. Não saberíamos o que aconteceria se a Lu ficasse sem sua dose vespertina de café. O que soubemos nesse momento, é que o povo de Fátima do Sul ainda possui aquela hospitalidade interiorana que tanto sentimos falta nas grandes cidades. Carinho com quem é de fora, sabe? E o bônus desse inusitado encontro, foi que tomamos o café artesanal Coimbra, coletado, torrado e moído pelo seu próprio irmão, sem misturas de outros grãos. Café bem preto, forte e com gosto caboclo.

Despedimos da Dona Célia e fomos nos aprontar para mais um dia de festa - que como as noites anteriores, “entupiu” de gente após a meia-noite e foi até o sol raiar, novamente.

Na manhã do dia seguinte, tomamos o nosso café-da-manhã e partimos de Fátima do Sul, uma cidade pequena, com povo hospitaleiro, educado e com um Carnaval de qualidade que nos surpreendeu; não é AINDA um Carnaval luxuoso e com investimentos como o de Corumbá, mas tem potencial para crescer muito, pois eles pensam nos mínimos detalhes e implementam o que têm de melhor, dos carnavais “concorrentes”.

Fátima do Sul é uma cidade com um potencial turístico incrível, e tem tudo para ser um pólo de visitas e passeios como Corumbá ou Bonito, por exemplo. Bastam o povo e o poder público acreditarem nesse potencial.

Não sei se voltarei lá no Carnaval do ano que vem (pois não sei nem como será o meu amanhã, rsrsrsr) - mas recomendo enfaticamente que se você tiver a oportunidade de conhecer essa admirável cidade, não a perca: visite e deixe-se encantar pela Cidade Favo de Mel.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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