Textículo

Welcome, gringos!

Comente este artigo

Uma das principais agendas que o Presidente do Brasil - Jair Messias Bolsonaro cumpriu com o governo americano nesta semana foi a derrubada da existência de visto para americanos que desejarem ingressar em nossas terras tupiniquins. Bolsonaro aliás, fez mais: estendeu o pacote de não-exigência de visto aos cidadãos do Canadá, Austrália e Japão.

A oposição - como já era esperado - esperneou muito, afinal de contas para eles, acabar com essa exigência sem reciprocidade desses países seria um sinal de subserviência - o que demonstraria em tese um presidente submisso e “lambe-botas”, como foi amplamente divulgado em alguns veículos de comunicação e diversos memes nas redes sociais.

Mas será mesmo?

Sabemos que Bolsonaro mostra-se um presidente muito focado na economia e desenvolvimento. O principal indício desse foco foi ter boa parte da sua campanha focada em um economista que propôs muitas reformas, Paulo Guedes. E o que Bolsonaro quis, ao fazer uma concessão diplomática dessa espécie sem exigir reciprocidade alguma?

Vamos aos fatos: Em 2018 o setor de turismo gerou uma participação de US$ 8,8 TRILHÕES de dólares ao PIB mundial (10,4%) e foi o setor responsável por 319 MIlHÕES de empregos em todo o planeta - o motivo de 1 em cada 10 novos postos de trabalho no Mundo.

Mas e no Brasil? Bem, o Brasil é uma vergonha no que se diz respeito ao turismo: há mais de 20 anos, a quantidade de turistas no Brasil não aumenta, ficando na casa dos 5 milhões de turistas estrangeiros/ano.

Ou seja, de nada adianta termos uma cultura riquíssima, incontáveis praias maravilhosas, festas e eventos exuberantes como o Carnaval, uma gastronomia exclusiva e variadíssima e paisagens nativas exuberantes - se o dinheiro dos gringos não está pingando na conta aqui, como deveria.

E isso porque o turismo está crescendo de forma ampla em todo o mundo há cinco anos consecutivos - menos no Brasil: desde 1998 a nossa economia turística está estagnada, dando uma MELHORADINHA em eventos especialíssimos, como Copa do Mundo e Olimpíadas. Só a cidade de Miami recebe cerca de 7 milhões de turistas por ano, 2 milhões a mais que o Brasil TODO.

"Aiiiiin, mas tem lugar pior e menor que o Brasil, com menos atrativos que recebe menos gente que nosso país, né? A violência estraga o Brasil e espanta os turistas!"

Quem? A Tailândia, que recebe mais de 28 milhões e é um lugar perigoso para mulheres que viajam sozinhas? O México, que é o segundo lugar mais perigoso do MUNDO (depois da Síria) e que possui cartéis que fazem o PCC e o CV parecerem clube de crianças - mas recebe 30 milhões de turistas estrangeiros ? E a Africa do Sul, que recebe 10 milhões de turistas, mesmo CapeTown sendo uma das cidades mais inseguras do Mundo?

Mas o turismo no Brasil não vem crescendo nos últimos anos? Praia lotadas, hotéis lotados...

Não, meu amigo. A principal movimentação financeira relacionada ao turismo que você vê no Brasil é o turismo INTERNO, é o brasileiro que está descobrindo que viajar é bacana e faz bem para a saúde física e mental - mas os gringos não estão deixando seu dinheirinho aqui como deveriam.

É bom por um lado, porque o brasileiro está passando por uma fase de valorização do nosso produto interno - porém economicamente falando o dinheiro está apenas trocando de mãos e sendo colocado para circular: do turista ao dono do hotel, do restaurante, da barraquinha de água de coco da praia - mas não estamos obtendo divisas externas e enriquecendo o nosso PIB.

A imagem do Brasil lá fora é ruim? Claro que é! E caras como esse tipo aqui não colaboram para melhorar isso, só piorando a imagem do BRAZILZÃO no exterior:

Mas e nós? O que estamos fazendo para melhorar isso? Bem, a Embratur foi criada em 1966, mas até agora ela não se mostrou para o que veio - e vou dar um exemplo: em 2015 o órgão teve US$ 17 milhões de dólares só para gastar com nossa imagem lá no exterior, em 13 escritórios distribuídos ao redor do mundo.

Sabem quanto o Peru investiu nesse mesmo período (sim, me refiro ao nosso vizinho latino e não à ave natalina)? US$ 50 milhões e 38 escritórios ao redor do mundo para promover o país fazer acordos para mostrar o país de uma forma positiva em novelas, filmes e lançamentos de coleções de moda.

Investimento certo, o retorno vêm, né? Em 15 anos o Peru experimentou um salto turístico de 340%, pulando de 800 mil visitantes/ano para 3,5 milhões. O Peru cresceu (desculpem o trocadilho) e nós ficamos parados no tempo.

E mesmo esses gringos que vem para cá não conhecem a potencialidade turística que o Brasil tem. Para se ter uma idéia desse desconhecimento, Bonito, Pantanal, Chapada dos Guimarães, Chapada Diamantina, Ouro Preto ou Búzios parecem não ter os mesmos atrativos naturais para esses gringos - pois essas cidades não se encontram nem perto dos 10 destinos que os gringos preferem ao visitar o Brasil. Eles estão errados? Claro que não! Eles só conhecem aquilo que divulgamos!

E para piorar, ainda somos um país monoglota, que mal sabe falar e escrever a própria língua portuguesa - o que dirá espanhol ou inglês, o básico para atender os turistas das Américas, por exemplo - com uma infra horrível: sem trens, estradas horripilantes e vôos caríssimos. O próprio setor turístico não se valoriza: há relativamente pouco tempo a profissão de turismólogo foi finalmente regulamentada no Brasil - mas ainda não há exigência de formação acadêmica para o trabalho de profissionais sérios na área, tal como existe na medicina ou na advocacia, por exemplo - o que em tese elevaria o nível de profissionalismo nesses setores e é claro, uma melhor satisfação do cliente atendido por esses profissionais. Fazemos turismo ainda à moda caralha, com raras exceções - eu mesmo moro em uma cidade que é a “Capital do Pantanal”, mas toma um verdadeiro baile de uma cidadezinha muito menor e sem as potenciais atrações turísticas que temos aqui - mas lá eles sabem trabalhar com o pouco que têm e aqui nós não sabemos: preguiça define.

Sendo assim, Bolsonaro ao abrir mão de reciprocidade diplomática e reduzindo a burocracia, o Presidente está tentando abocanhar esse mercado de turistas ricos para gostam de gastar seu dinheirinho em outras paragens, facilitando sua vinda para estas terras tupiniquins. Porque convenhamos: burocracia é um saco.

Com um fluxo maior de turistas, haverá naturalmente uma entrada maior de caixa estrangeiro que justificaria um melhor investimento na infra-estrutura como um todo, uma profissionalização cada vez maior do setor turístico e até mesmo o mercado do turismo interno seria beneficiado com esse boom estrangeiro - pois aproveitaria essa evolução do mercado, também.

Com essa desburocratização quem sabe em pouco tempo superaríamos a marca de visitas da Torre Eiffel em Paris (6,2 milhões em 2017) e talvez um dia, o número de visitas à Catedral de Notre Damme ( 12 milhões / ano ).

Mas é claro, quem sempre passou uma vida curvado lambendo as botas (e bolas) de ditadores de republiquetas subdesenvolvidas não possui a capacidade consegue enxergar a amplitude do horizonte comercial que se abre para nós nesse momento.

Aiiiiin mas e nós? E a reciprocidade? Nós não merecemos isso também?.

Sim, Pequeno Gafanhoto. Mas ainda teremos um longo caminho pela frente em nossa jornada pelo desenvolvimento - até que o nosso país se desenvolva o suficiente a ponto de ninguém daqui precisar fingir que vai ali passear na Disney ou brincar de jogar bolinhas de neve no Canadá, quando na verdade a intenção é entrar ilegalmente em um desses países para viver de faxina, lavando pratos ou trabalhando de madrugada em um Wal-Mart.

Pois até onde eu saiba, nenhum americano virá para trabalhar ilegalmente em confecções bolivianas clandestinas em São Paulo ou disputar vagas com flanelinhas no Rio De Janeiro. Nenhum japonês virá para obter a hegemonia do pastel de flango em Sampa. Nenhum australiano virá para trabalhar suado em uma churrascaria nos pampas sulinos. E de igual forma, nenhum canadense largará seu emprego confortável em Toronto para ser cambista em jogos do Brasileirão. Fiquem tranquilos, a praia deles não é essa - é Copacabana, é Bombinhas, é Porto de Galinhas.

Até lá, da minha parte torço para que a frase abaixo seja nosso mantra, talkei?

"Welcome, gringos! Show me the money!"


Fábio Marchi

Dê sua opinião, comente este artigo!

ATENÇÃO: Os comentários desta matéria são gerenciados pelo Facebook - que posta, agrega os comentários e os exibe nesta página. Este site não se responsabiliza por qualquer comentário indevido, feito à qualquer pessoa ou instituição - sendo cada comentário, de inteira responsabilidade dos seus respectivos autores e as denúncias deverão ser encaminhadas diretamente ao Facebook.