O ato "Marielle Vive", que está sendo organizado por estudantes de todo Câmpus Pantanal da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, ocorrerá nesta quarta-feira (21) às 17h00, na avenida Rio branco, de frente a Unidade I. A homenagem é dedicada à vereadora Marielle Franco, executada na quarta-feira passada (14) junto a seu motorista Anderson Gomes (39), em uma emboscada no centro do Rio de Janeiro.

A vereadora de 38 anos, que era socióloga e ativista dos Direitos Humanos, também era integrante da Comissão que averiguava a intervenção militar no estado do Rio de Janeiro, além de ser crítica ferrenha da truculência das ações militares nas favelas, sempre denunciando mílicias e apoiando famílias de vítimas da violência da cidade.

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Sua morte, ainda apurada, ergueu intensos debates nas redes sociais, e evidenciou o ódio e o preconceito de grande parte de usuários que compartilharam inúmeras notícias falsas para denegrir a imagem da vereadora. As chamadas "Fake News" foram, inclusive, compartilhadas por representantes jurídicos, sendo os mesmos hoje investigados por suas respectivas corregedorias.  

A manifestação foi idealizada pelas alunas do curso de História, Victória Lara e Luanny Cesário, e espera abranger toda a comunidade acadêmica, bem como os cidadãos de Corumbá e Ladário interessados em participar. Além da homenagem, haverão diálogos mediados pelas professoras Cláudia Mondini (Psicologia) e Vivian Veiga de Almeida (Sociologia), sobre a Violência contra a Mulher, o papel da mulher na política brasileira, as ações da Polícia Militar no Brasil, além de um panorama sobre as políticas que permeiam a intervenção militar no RJ.

Porque falar de Marielle?

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O Brasil é um país onde se cometem mais de 60 mil homicídios por ano. Nós, os sobreviventes — num país com estes índices de homicídios, nós, que ainda estamos aqui, somos mesmo sobreviventes — fomos anestesiados por tanta violência. Certamente, os assassinos de Marielle acreditavam que sua morte seria só mais uma na estatística. Renderia uma notícia no “Jornal da Globo”, um título na primeira página do jornal do dia seguinte, a promessa de algum delegado de que o crime seria investigado e os culpados seriam punidos. Como acontece todos os dias com todos os homicídios e, 24 horas depois, não se fala mais nisso.

Mas a morte de Marielle não foi só mais uma. A repercussão foi inesperada. Marielle foi a mulher negra e favelada que superou o as limitações da mulher negra e favelada que povoa movimentos ativistas na favela. Foi uma ativista muito além do clichê. Sua morte sensibilizou coxinhas e lulistas. Fez chorar os que apoiam e os que criticam a intervenção federal. Mobilizou os mais altos escalões da República, e os mais baixos também. Marielle não era só mais uma. Não foi por acaso que sua plataforma, na campanha mais recente para a eleição de vereadores do Rio, conquistou muitos jovens. Principalmente jovens do sexo feminino. Na Zona Norte e na Zona Sul. Marielle foi a candidatura do novo. 

Homenagear a vereadora é pensar em todas as mortes que sucedem, seja no Rio de Janeiro, seja cá no Mato Grosso do Sul. Recentemente, quando este Correio esteve cobrindo a entrega do prêmio Helô Urt na semana passada, um dos eventos simbólicos da semana da Mulher, o clima não era dos mais confortáveis. Comemorávamos a semana da Mulher, na mesma semana em que uma grande mulher política fora executada barbaramente. 

A jornalista responsável por fotografar e redigir a matéria na noite daquela premiação, esta que aqui escreve, se emocionou quando a Secretária de Cidadania e Direitos Humanos desabafou sua profunda angústia naquela noite. A Secretária, Beatriz Cavassa, representante política da sigla PSDB, partido este notoriamente de Direita , chorou ao microfone consternada com a morte de Marielle Franco, vereadora da sigla de esquerda do PSOL. Naquele momento, não haviam siglas. Haviam mulheres, consternadas pela violência tão brutal ao nosso gênero. 

Não podemos, do mesmo modo, acreditar que a morte de Marielle Franco se restringe ao gênero. A morte de Marielle abrange outras váriaveis: raça, classe, orientação sexual e POLÍTICA. O jogo político é o jogo que vitimizou a mulher Marielle Franco. É o jogo político no qual, muitas vezes, somos peões de "poderosos". A morte de Marielle foi, mais do que tudo, um ordem direta de silêncio para aqueles que, como ela, não se aquietam, que denunciam, que desejam ser protagonistas de nossa sociedade, e não meros expectadores. Por isso, falar sobre Marielle, gritar sobre sua morte, protestar e lembrar sua memória é protagonizar. É agir contra interesses maiores, seja você mulher, seja você homem, seja você eleitor do partido x ou y. No final, estamos todos, peças de xadrez, fadados a ir para a mesma caixa.

Esperamos a presença de todos para que esse evento sirva como uma reflexão da nossa atual sociedade e nosso lugar dentro dela. Esperamos que todos tragam algo para homenageá-la. Sendo uma flor ou mesmo uma poesia ou o que desejar. 

Victória Lara, acadêmica do curso de História da UFMS-CPAN

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