Reportagem sobre o acidente em Goiânia com o césio-137. Fonte: CISCATO, PEREIRA e CHEMELLO. Química, vol 2, 1ª edição. Editora Moderna, 2015, p. 445

Em setembro de 1987, os amigos Wagner e Roberto entraram em um prédio abandonado da Santa Casa de Misericórdia em Goiânia (GO). Ali encontraram um equipamento e o levaram de lá cogitando vendê-lo como sucata, já que era pesado e, assim, possivelmente, feito de chumbo.

Os dois não sabiam, entretanto, que o aparelho em questão era utilizado em tratamentos de radioterapia, e que possuía em seu interior um composto de césio-137, elemento radioativo, motivo pelo qual havia a importante presença protetora do chumbo.

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Com muito esforço, os dois finalmente abriram a cápsula de chumbo onde encontraram um pó branco. Após cinco dias em poder da cápsula, Wagner e Roberto começaram a sentir sintomas tais como enjoo, diarreia, fraqueza, mas não os associaram ao tal pó branco que parecia inocente, semelhante ao sal de cozinha.

Decidiram, então, vender a peça para Devair, dono de um ferro velho da cidade. Os empregados de Devair conseguiram desmontar completamente a cápsula de chumbo e guardaram-na em uma prateleira. Já à noite, Devair ficou fascinado pela luz intensa e azulada que provinha da peça. Não passou por sua cabeça, obviamente, que aquele brilho era o prenúncio do maior acidente radioativo em área urbana que o mundo iria presenciar.

Um ano antes, o mundo havia ficado perplexo com o grave acidente na usina nuclear de Chernobyl, localizada na Ucrânia (na época, parte da antiga União Soviética), que transformou Pripyat em uma cidade fantasma até os dias atuais (veja fotos a seguir). No Brasil, no entanto, este acidente parecia uma realidade muito distante até que, um ano depois, o acidente de Goiânia provou o contrário.

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O pó encontrado dentro da cápsula de chumbo era o cloreto de césio, um sal de fórmula CsCl, em que o isótopo de césio utilizado era altamente radioativo. A sua propriedade de brilhar no escuro chamou a atenção de Devair, que o levou para casa e mostrou a sua família, parentes e amigos. Estes, por sua vez, ao tocarem no pó, involuntariamente espalharam césio radioativo, um vilão invisível, silencioso, mas extremamente perigoso.

Devido à alta solubilidade do cloreto de césio em água, o composto radioativo disseminou-se rapidamente nas redondezas da casa de Devair. Com o tempo, as pessoas começaram a adoecer. Desconfiada, a esposa de Devair levou tal cápsula à Vigilância Sanitária da cidade.

O médico que a recebeu suspeitou de uma possível atividade radioativa do material e chamou o físico Valter Mendes, que trouxe consigo um contador Geiger, um aparelho medidor de radioatividade. Com a indicação do elevado índice de radioatividade na cápsula, o físico alertou as autoridades, que se articularam rapidamente em uma operação para avaliar a magnitude da contaminação.

As vítimas foram encaminhadas ao estádio olímpico de Goiânia, enquanto um clima de pânico se espalhava pela cidade. Funcionários com roupas de proteção avaliavam se as pessoas estavam contaminadas com material radioativo. Mais de 112 mil pessoas passaram por esta verificação. Nos dias seguintes, as áreas relacionadas com a moradia de Devair foram isoladas, objetos foram confiscados e animais sacrificados.

Conforme o tempo passava, outras vítimas sentiam sintomas mais intensos e eram internadas em hospitais. Nas semanas e meses seguintes, instaurou-se no Brasil um ambiente de pânico, medo, preconceito e desinformação. Goianos não conseguiram desembarcar em outros estados. Produtos da cidade não eram vendidos em outros estados: tudo por causa do medo de estarem contaminados. Até os enterros das vítimas, que tiveram seus caixões blindados e cobertos com concreto, sofreram retaliação dos moradores das localidades próximas.

Os objetos pessoais, as ruínas das casas, relíquias de família, animais domésticos, tudo o que constituía o patrimônio das pessoas foi transformado em lixo radioativo e enterrado em um depósito de rejeitos radioativos no Parque Estadual Telma Ortegal – Abadia de Goiás (GO).

A pequena Leide das Neves, 6 anos, foi a primeira vítima da contaminação. Ela não só brincou com césio 137, mas também ingeriu a substância

Leide das Neves e o “pó azul”

O irmão de Devair, Ivo Ferreira, ficou tão impressionado que acabou levando um pouco do pó para sua filha de 6 anos, Leide das Neves. A garota brincou com o pó e depois comeu pão com as mãos sujas, o que fez com que ela ingerisse parte da substância radioativa durante a refeição. Logo depois, Leide também passou mal.

Foi o olhar atento de Maria Gabriela que fez com que ela percebesse que todos que tiveram contato com o pó, estavam se sentindo mal. A desconfiança da esposa de Devair fez com que ele E mais um funcionário do ferro-velho levassem a capsula até a Vigilância Sanitária para que o problema fosse identificado. A peça foi transportada de ônibus, contaminando assim ainda mais pessoas no trajeto. Além disso, a peça ficou dois dias exposta em cima de uma cadeira na Vigilância.

Diante da falta de informação e do descarte inadequado do equipamento, foi só em 29 de setembro de 1987, que um físico que visitava a cidade na época, desconfiou do aparelho e levantou a suspeita de que ele poderia ser uma fonte de radiação. A partir daí, o que antes era apenas um pó azul brilhante dentro de uma cápsula se transformou em uma tragédia radioativa.

“Aproximadamente há uns 70, 80 metros já tinha estourado a escala. Eu achei que o detector estava com defeito”, afirmou em entrevista recente ao Fantástico, da Rede Globo e ao Portal G1, o físico da Comissão Nacional de Energia Nuclear, Walter Mendes Ferreira. Ele foi o responsável por identificar pela primeira vez, ainda na Vigilância Sanitária, a fonte de radiação.

“Quando fomos até a casa de Ivo, sua filha Leide era uma fonte ambulante. Os valores que ela tinha eu não conseguia medir, o detector já estava saturado também. As taxas eram extremamente elevadas, inadequadas para o convívio de qualquer ser humano, por isso foi evacuada toda a região”, completou o físico.

A menina Leide das Neves Ferreira foi a primeira vítima fatal, morrendo em 23 de outubro de 1987. Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos, esposa de Devair também morreu no mesmo dia.

No dia 27 de outubro, um dos funcionários do ferro-velho, Israel Batista dos Santos, de 20 anos foi mais uma vítima da tragédia. No dia seguinte, outro funcionário do mesmo ferro-velho, Admilson Alves de Souza, de 18 anos, foi o quarto a vir a óbito, devido à contaminação. As vítimas foram sepultadas um caixão especial revestido com chumbo para evitar a propagação da radiação.

A população foi orientada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), que montaram um esquema de triagem no Estádio Olímpico. Durante a descontaminação, cerca de 112 mil pessoas foram colocadas em quarentena e banhadas constantemente com utilização de esfregão. Sete pontos de Goiânia que foram evacuados na época do acidente por causa do alto índice de radiação.

Cerca de 6 mil toneladas de material contaminado estão enterrados em duas enormes caixas de concreto para um depósito especial, localizado no município de em Abadia de Goiás, 23,3 km da capital Goiânia. Agentes da comissão, policiais e bombeiros também ficaram encarregados de destruir os utensílios pessoais das pessoas que tiveram contato com o pó, uma vez que esses objetos estavam igualmente contaminados.

O irmão de Devair e de Ivo, Odesson Alves Ferreira, foi a última pessoa a sair da quarentena.

“Peguei um fragmentozinho, do tamanho de um grão de arroz, mais ou menos e coloquei na palma da mão e esfreguei nos dedos. A amputação do dedo foi proveniente disso, porque queimaram também esses dois dedos justamente onde eu peguei”, contou também em entrevista ao Fantástico.

Quarenta e nove pacientes vítimas da radiação do césio 137 foram levadas para o Rio de Janeiro, onde foram tratados no Hospital Naval Marcílio Dias, referência no tratamento de vítimas de acidentes radioativos. Vinte e um desses pacientes passaram por tratamento intensivo. Foram registradas oficialmente quatro mortes causadas pelo césio-137.

Ações durante o acidente com o césio-137 em Goiânia, em 1987 –

30 anos depois

Três médicos responsáveis pela clinica abandonada, mais um físico e o dono do prédio foram condenados em 1996 por homicídio culposo – quando não há intenção de matar. Os médicos Carlos Bizerril, Criseide Dourado e Orlando Teixeira além do físico Flamarion Goulard receberam a pena de três anos e dois meses em regime aberto de detenção. Em 1997, a pena foi substituída por serviços comunitários. O dono do prédio Amaurillo Monteiro foi condenado a 1 ano e 2 meses, depois conseguiu a suspensão da pena. Em 1998, todas as penas foram extintas por um indulto presidencial.

O crime prescreveu em 2005. Trinta anos depois da tragédia, no último dia 2 de setembro, em entrevista ao Fantástico, o físico Flamarion Goulard levanta mais uma polêmica sobre o caso.
Diante da declaração, a associação mantenedora da unidade instaurou uma sindicância para apurar a denúncia feita três décadas após o fato. As pessoas afetadas pela radiação recebem cobertura do plano do Instituto de Assistência aos Servidores Públicos do Estado de Goiás (Ipasgo), além de pensões. No entanto muitos ainda relatam que faltam apoios médico e financeiro.

“Esse equipamento não estava largado lá. Aquele equipamento quando foi desmontado, o cabeçote foi lacrado e transferido para o Hospital Araújo Jorge. Ele acabou voltando para a clinica, mas não sei explicar porquê. O Doutor Bizerril sabia muito bem do risco desse equipamento. Não sei quem nem como levaram esse equipamento para lá”, revelou, sem justificar no entanto, como o equipamento foi parar no prédio abandonado.

Devair, o dono do ferro-velho morreu de cirrose em 1994. Um enfisema pulmonar matou seu irmão, Ivo, o pai da menina Leide em 2003. Ambos caíram em depressão: Devair, por se sentir culpado por abrir a capsula e Ivo, por conta da morte de sua filha. Os dois catadores que tiraram o equipamento da clínica estão vivos. Wagner Mota Pereira ainda corre o risco de amputar um pé queimado pelo césio. Já Roberto Santos Alves teve o antebraço amputado na época.

O Centro de Atendimento aos Radioacidentados (Cara) é o órgão da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO) responsável pelos atendimentos às vítimas do césio-137. Dados da Superintendência Leide das Neves (Suleide) apontam que a unidade presta assistência direta, atualmente, a 738 vítimas.

Conhecido como Jajá, o comerciante Jair Onofre do Prado, hoje com 65 anos, era vizinho de Devair, quando ainda morava em frente ao ferro-velho em que a peça foi aberta totalmente, na Rua 26-A, localizada no Setor Aeroporto.
Os pacientes estão divididos em três grupos: os que apresentaram mais de 20 rads no corpo, que é a unidade de medida de quantidade de radiação identificada; os com menos de 20 rads; e o formado por vizinhos do local onde houve o acidente e trabalhadores que atuaram na área contaminada. Os filhos e netos dos dois primeiros grupos também têm direito à assistência.

“Parece que foi ontem, quem viveu não esquece. A gente sofreu discriminação. Se falasse que morava na zona do césio, era terrível, a pessoa se afastava”, relatou ao G1.

CRONOLOGIA: COMO TUDO ACONTECEU

1985 A história começa em 1985, ano em que um instituto de tratamento de câncer desativa sua unidade de Goiânia. Quase todos os equipamentos foram levados, mas uma máquina de teleterapia (espécie de radioterapia) é deixada para trás. O aparelho usava cloreto de césio em pó como fonte de energia.

13 de setembro de 1897 Dois catadores de reciclagem retiram parte do aparelho da então clínica abandonada, o Instituto Goiano de Radioterapia.

18 de setembro de 1987 Os dois vendem a peça de mais de 300 kg para um ferro velho. O dono do lugar, de nome Devair, chama dois funcionários para completar a desmontagem. Lá dentro do cabeçote de chumbo, os trabalhadores encontram um capsula com 19g de um pozinho, esbranquiçado de dia, mas com um brilho azulado quando colocado no escuro noite. No dia seguinte, Devair já começa a passar mal e põe a culpa em uma feijoada.

24 de setembro de 1987 Ivo, irmão de Devair visita o ferro velho e leva um pouco do pó brilhante para casa no bolso da calça. A filha dele, Leide brinca com o pó e logo depois come um pão com as mãos ainda sujas. Um dia depois, Leide começa a passar mal.

28 de setembro de 1987 Desconfiada da substância de brilho azul, Maria Gabriela, mulher de Devair, convence o marido a levar a peça para a Vigilância Sanitária. Um funcionário do ferro velho ajuda Devair a carregar ao equipamento que é transportado dentro de um ônibus coletivo.

30 de setembro de 1987 A cápsula ficou dois dias em cima da cadeira na Vigilância Sanitária. Até que um físico que estava em Goiânia por acaso, é acionado. Ele consegue um medidor de radiação e identifica o perigo do equipamento. É ai então que os técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e policiais militares começam a descontaminação da região. Mais de 112,8 mil pessoas são monitoradas (129 estavam gravemente contaminadas) e 6 mil toneladas de material contaminado vão para um depósito especial.

23 de outubro Morrem no mesmo dia, um mês depois da contaminação, a menina Leide Ferreira, de 6 anos, filha de Ivo e Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos, esposa de Devair.

27 de outubro Morre um funcionário do ferro velho, Israel Batista dos santos, de 20 anos.

28 de outubro Um dia de depois de Israel, morre também o outro funcionário do ferro velho, Admilson Alves de Souza, 18 anos.

1996 Três médicos responsáveis pela clinica abandonada, mais um físico e o dono do prédio foram condenados por homicídio culposo com pena de três anos e 2 meses em regime aberto de detenção.

1997 Os médicos Carlos Bizerril, Criseide Dourado e Orlando Teixeira além do físico Flamarion Goulard tiveram a pena foi substituída por serviços comunitários. O dono do prédio Amaurillo Monteiro foi condenado a 1 ano e 2 meses, depois conseguiu a suspensão da pena.

1998 Todas as penas foram extintas por um indulto presidencial.

2005 O crime foi prescrito pela Justiça.


Informações do Jornal Correio 24 horas.

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