Foi-se o tempo que o universo RAP,  rhythm and poetry, literalmente, ritmo e poesia, era “coisa de menino”. Aliás, esse papo de “coisa de menino” está mais que ultrapassado. O empoderamento feminino é um signo cada vez mais forte de nossa geração e felizmente vem deixando rastros no universo cultural.

Nesse sentido, a presença de mulheres em estilos musicais que eram dominados por nomes masculinos como o rap e o hip-hop vem se intensificando e tornando-se porta voz dessas “minas” que através do chamado “slam poético” abordam temas como o feminismo, a luta contra o racismo, a força da cultura negra, dentre outros, e resignificam toda uma realidade periférica.

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A “poesia slam” começou nos EUA, mas logo se popularizou no Brasil, sobretudo nas periferias. Esse tipo de poesia integra o gênero RAP e tornou-se representado no Brasil por nomes como Racionais MCs, Emicida, Marcelo D2 e Sabotage. É notório que a predominância masculina ainda é resistente e o machismo é forte – mas isso se torna mais um atrativo para a resistência das mulheres interessadas no estilo.

É o que nos diz a slammer e poetisa corumbaense Raah Conde:

Atualmente, no cenário musical, principalmente dentro do RAP, onde grande maioria são homens na voz, as mulheres aos trancos e barrancos lutam pra conseguirem seu espaço. Embora na cena do RAP tenha excelentes artistas mulheres, mesmo assim, até nós mulheres, procuramos pelos MCs homens, e não pelas “minas” MCs. É um cenário totalmente machista, tanto em letras, como em várias ocorrências no mundo do rap. Mas isso não nos desanima!

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Raah Conde, slammer e poetisa
Raah Conde em apresentação no Slam Camélias, em Campo Grande / Imagem: Facebook

Raah relata que sua coragem se intensificou quando foi convidada para ir para a cidade de Dourados na 1ª Edição do Slam Luminescência.
 

Quando fui para esse evento, conheci essa preta porreta que é a Stefanie Rodrigues, conhecida como Afrodite, quem se apresentará no Café Literário com Rap nessa semana em Corumbá. Já é o 3º ano que faço o café literário, e sempre nessa tecla contra o machismo. Pra que homens, quando se na verdade temos poetisas, escritoras incríveis nesse mundão à fora?

Raah Conde

O evento que ocorrerá no SESC de Corumbá na quinta-feira (21), às 19h30, além da apresentação da slammer Afrodite de Dourados (imagem de capa), também contará com uma oficina de turbantes com o Coletivo Black Pant (Crespos e Cacheados de Corumbá/Ladário). E outra: o microfone ficará aberto para que outras meninas possam declamar suas poesias, sejam no estilo RAP, sejam no estilo tradicional.


 

Em Corumbá, o movimento de rua vem tomando conta cada vez mais, juntxs conseguimos dar um baita ponta pé, exemplo temos o FASP 2018, entre vários outros rolés que estão para acontecer na cidade.

Raah Conde

Poesia Slam

A poesia slam que costuma se desenvolver em campeonatos ao microfone, onde o público costuma ser o jurado, não é declamada e cada poeta imprime ao seu texto cadências, ritmos e leituras próprios, que, sem sua voz, seriam decididos pelo leitor. É um poema que necessariamente terá ruído, barulho, vida própria – nada parecido com uma leitura silenciosa e calma, normalmente associada ao gênero poético. E neste sentido, acaba sendo a porta voz da alma do sujeito, seguindo o temperamento e os sentimentos do artista naquele instante.

Para a Luanny Cezário, universitária do curso de História do Campus Pantanal que também é uma slammer, as palavras se tornaram mais do que seu refúgio, um impulso para seu crescimento pessoal e profissional.

Eu comecei por um acaso no Slam, eu nunca imaginei fazer das palavras meu refúgio. Aos poucos eu venho conseguido conquistar pequenas coisas com a poesia, mas que são de extrema importância. Primeiro eu compareci em uma reunião por um acaso do Resiliência Poética, e acabei recebendo a proposta para tentar criar ou apenas recitar uma poesia não autoral, com a ajuda de alguns amigos e atualmente também organizadores do movimento, Bolinha (Marcos Gonzaga), Nelly (Misrrahely), Lauriana e do Odvan, e acabei me identificado com a poesia marginal.

Luanny Cezário, universitária e slammer
Luanny Cezário, universitária e slammer em Corumbá

Para Luanny, a voz feminina no Slam Poético vem abrindo diversas possibilidades para que a mulher tenha sua representatividade cada vez maior, sobretudo dentro de um movimento em que a maior parte do gênero é dominada por homens. Essa participação vem trazendo à tona assuntos que não são tratados como deveriam e que a maioria das vezes passam sem nenhuma importância pelos homens.

As mulheres no Slam estão mostrando que uma por uma se unindo, chegaremos longe, mostrando que é necessária a sororidade para se viver nos tempos de hoje em dia. Se não for elas por elas como é que vamos progredir? Somos necessárias em qualquer movimento, e dá uma junção perfeita a poesia marginal com a voz de uma pessoa aflita com alguma situação.

Luanny Cezário

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