Campanha de vacinação da gripe H3N2 foi levada a população ribeirinha. / Imagem: Nathalia Claro

A vida tradicional pantaneira está longe de se resumir nas modernas rodas de tereré no Porto Geral da cidade. Ela se estende pelos quilômetros de águas do Rio Paraguai, cruzando regiões sinuosas onde o acesso é dificultoso e somente se dá por embarcações especificas que saibam enfrentar o pantanal sul-matogrosessense. As belezas do interior do pantanal de Corumbá podem ser deslumbrantes, mas também guardam a dureza do cotidiano das comunidades ribeirinhas.

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Na última semana do mês de abril, o jornal Correio da Manhã acompanhou a segunda viagem deste ano de 2018 do Programa Povo das Águas até a região mais inóspita conhecida como Taquari, no Pantanal corumbaense. Mesmo com todas as recomendações da tripulação e todas os avisos de quem conhece a região há anos como a coordenadora do programa Elisama Freitas, a experiência foi forte, difícil e bastante conscientizadora. 

Partindo do Porto Miguéis na tarde da segunda-feira (23), a equipe composta de 25 passageiros fora a tripulação, seguiu rumo a uma das localidades mais difíceis de serem acessadas, e portanto, das mais necessitadas entre as populações ribeirinhas. Se por um lado, essas comunidades resguardam tradições seculares de sobrevivência não-urbana com muita força, coragem e orgulho, também segredam os pesares de uma vida isolada que por muito tempo foi quase paralela ao que entendemos por cidadania cá na urbe: dificuldades de acesso à àgua potável, de escolaridade e de atendimentos médicos estão no ápice de uma lista sem fim.

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Para se ter uma idéia, foram mais de 8 horas de viagem no barco hotel, e mais 2 horas de viagem através de lanchas rápidas para os portos mais longínquos onde ocorreriam os atendimentos variados. O valor médio de uma passagem para Corumbá da região do Taquari através de uma “chata” é de 70 reais para cada passageiro, quantia que poucas famílias dispõem facilmente – além de que cada família costuma ser composta por mais de 5 integrantes.

Ribeirinho acompanhou nossa embarcação. / Imagem: Nathalia Claro

A distância e o alto valor de locomoção causam entre os ribeirinhos do Taquari certo distanciamento da cidade de Corumbá, e por muito tempo, causou, também, distanciamento dos direitos mais básicos de um cidadãos, como o acesso a saúde, alimentação e educação.

Para tanto, o Programa Povo das Águas tornou-se um referencial para estas famílias que aguardam ansiosamente a chegada da equipe da Prefeitura Municipal de Corumbá, que neste mês de maio completou sua sexagésima oitava viagem, em quase uma década de atendimentos.

Foram muitas histórias ouvidas e muitas experiências vivenciadas. Ao longo dos atendimentos, nossa reportagem acompanhou desde os atendimentos médicos às ações pedagógicas com as crianças do Taquari. Ouviu mulheres viúvas que domam o rio e suas cheias sozinhas, adolescentes de 14 anos já gravidas e casadas, meninas vaidosas que vestem roupas da cidade, mas se enfurecem só de ouvirem falar que sairão do campo; pessoas que sonham com melhorias para suas localidades e que comungm de um sentimento único de amor e gratidão a terra onde habitam.

Vivendo há mais 50 de anos no Corixão, seu Brazilino não pensa em deixar sua terra. / Imagem: Nathalia Claro

Vou pontuar rapidamente a viagem, para detalhar melhor em matérias porvindouras. Os primeiros portos atendidos foram o Corixão e o Cedrinho. Na segunda-feira, pela noite, o barco hotel atracou quase meia hora antes da região prevista, pois nos deparamos com um grave “problema” natural: o entupimento de camalotes. Diante deste engarrafamento de raízes e porções de enormes vegetais que impedem o prosseguimento de navegações de porte grande, ficou decidido que na manha seguinte, terça-feira, saíriamos dali mesmo através das lanchas rápidas até os portos destinados.

Camalotes causam entupimento e impedem prosseguir viagem. / Imagem: Nathalia Claro

E que viagem de voadeira! O sol forte, os camalotes que formavam verdadeiros labirintos que, não fosse a experiência dos piloteiros fariam-nos perder facilmente o rumo, e aquele espaço pouco confortável dividido com os equipamentos, caixas e demais “entulhos” que seriam utilizados nos atendimentos, faziam dessas viagens uma verdadeira odisseia. Mas o bom humor de toda a equipe, a força e a garra de quem realmente quer dar seu melhor, amenizava qualquer dificuldade. Todos sabiam o porquê de estarem ali e não se abatiam facilmente.

Chegando aos portos, desciam-se os equipamentos e os passageiros, e instalava-se improvisadamente nossos postos de atendimento. Debaixo de arvores, em cima de caixa d-água vazias, sentados em tocos de árvores... assim eram os atendimentos, sem luxos e sem facilidades para os profissionais. Dedicação e amor. Posso resumir o trabalho duro nestas duas palavras.

Defesa Civil e Assistência Social prestavam serviços e realizavam o cadastro das famílias ribeirinhas. / Imagem: Nathalia Claro

Por volta das 9h00 da manhã a população ribeirinha alcançavam os atendimentos. Vinham a maioria em grupos grandes, montados em cavalos, a pé ou até em tratores. Notei com muita curiosidade que as mulheres faziam questão de melhor se arrumarem, com os cabelos bem penteados e maquiadas, mas num contraste bastante notório com os pés enlamaçados. Uma imagem que dialoga fortemente conosco. Os homens vinham todos com seus melhores chapéus e o cinturão com as facas no coldre.

Partindo das questões que permeiam o modo de vida das comunidades ribeirinhas, é possível identificar desafios peculiares para as equipes de saúde que as assistem, relacionados à baixa densidade demográfica, tendo em vista a dispersão dos moradores na floresta ao longo do curso dos rios. Esse cenário, presente no território do Taquari, remete à dificuldades operacionais para o trabalho, pela indisponibilidade de transporte para oportuno deslocamento da equipe, repercutindo na baixa frequência de contato da equipe de saúde com os moradores. 

Logo, os médicos Juliano e Clélia faziam os atendimentos mais procurados pela população, seguidos pelos dentistas Fátima e Juliano. Embora uma vida aparentemente saudável, deparamo-nos com siatuações dolorosas envolvendo a saúde como um adolescente que cortara o pé esquerdo e cuja ferida estava quase necrosada, um homem de 25 anos cuja pedra no rim havia se deslocado para a uretra e sofria de dores absurdas, além de inúmeros casos relacionados a saúde bucal que demandaram a extração de dentes já apodrecidos. 

Dra. Fátima realiza a extração de um dente apodrecido no porto 7 irmãos. / Imagem: Nathalia Claro

A Dra. Clélia (ao meio) atendendo seus pacientes através do atendimento humanizado, junto a pedagoga Miriam (Emília). / Imagem: Nathalia Claro

O dentista Juliano ensinando as crianças do porto Santa Ana a escovarem os dentes. / Imagem: Nathalia Claro

O programa Povo das Águas levou também a assistência social e pedagógica a população. A educação infantil ribeirinha, sobretudo do Taqauri, ainda apresenta pouca visibilidade e faltam estudos que retratem esta realidade. Na perspectiva de romper com leituras fragmentadas da escola infantil ribeirinha e na defesa de uma educação democrática, igualitária e rica do conhecimento e da cultura, configura-se como problema do poder público,

Portanto, levar brincadeiras e leituras para as crianças do Taquari é um ponto tão vital do Programa Povo das Águas quanto os atendimentos vinculados a saúde. 

Pedagoga Miriam se veste de Emília para introduzir a literatura de Monteiro Lobato às crianças ribeirinhas. / Imagem: Nathalia Claro

Nós trabalhamos para que a cada edição o Povo das águas se aperfeiçoe e torne a prefeitura mais próxima de suas populações pantanal adentro. Por este motivo cada vez integramos mais profissionais de diferentes áreas desde a saúde ao jurídico, do social ao educativo, pois entendemos que não basta dar os atendimentos básicos de sobrevivência, mas também garantirmos o pleno acesso desses moradores a programas de interação política, social, jurídica, e também de entretenimento, estética, dentre outros.

Elisama de Freitas, coordenadora do Programa Povo das Águas
A coordenadora Elisama de Freitas distribui chinelos e cobertores doados à população do Taquari. / Imagem: Nathalia Claro

A vaidade também não foi deixada de lado. Cortes de cabelo oferecidos pelos voluntários Rubens Neto, de apenas 16 anos, e sua avó dona Maria, causavam a alegria de homens e mulheres interessados em dar um up no visual.

Corte de cabelo oferecido pelo jovem e talentoso voluntário Rubens Neto. / Imagem: Nathalia Claro

As comunidades ribeirinhas são historicamente pioneiras no povoamento da região pantaneira, e por isso, devem ter visibilidade, reconhecimento e direitos assegurados pelo Poder Público. A comunidade da região do Taquari, por exemplo, é uma comunidade bastante tradicional. Caracteriza-se por ser um dos primeiros aglomerados populacionais humanos a montante da cidade de Corumbá. Por estar em uma região estratégica para a pecuária e pesca, consolidou-se ali desde o início da ocupação da região, com pecuaristas e pescadores profissionais artesanais miscigenando-se com indígenas locais e descendentes de espanhóis vindos da Bolívia (fronteira) e Paraguaios (remanescentes da guerra de 1864).

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