Fala de um estudante que desistiu do mestrado na USP após transtorno depressivo (2017). / Imagem: Portal Metrópoles

Aos 27 anos, o biólogo Iran Augusto Neves ostenta um raro currículo acadêmico. Há poucas semanas, recebeu o grau de mestre, conferido a duras penas pelo programa de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP), uma das mais conceituadas do país. Iran está orgulhoso do feito, mas poderia estar mais.

Nem tudo foram flores no caminho que percorreu da graduação até a defesa da sua tese – na verdade, por causa dela, Iran quase perdeu a vida em janeiro. Quis ele mesmo tirá-la, num dia de exaustão no laboratório.

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Não conseguiu. Mas entrou para a estatística crescente, segundo pesquisas, de estudantes travando batalhas simultâneas com os prazos e as agruras da pesquisa de um lado e a ansiedade e a depressão do outro. Conforme dados recentes, estudantes de mestrado e doutorado possuem risco 6 vezes maior de desenvolverem transtornos de depressão e ansiedade.

Só na turma de Iran, foram duas tentativas de suicídio desde que ele ingressou no mestrado – que o biólogo saiba. Uma delas, no laboratório. Outro colega, de um departamento vizinho, conseguiu.

“Antes de tentar me matar, pensei em desistir. Mas não podia, pois, se largasse o mestrado, teria de devolver todo o dinheiro da bolsa recebido até ali, que é pífio (R$ 1,5 mil por mês, pela Capes), mas eu não tinha. Ainda precisava ouvir da minha orientadora: ‘como assim você não tem dinheiro para estar aqui todos os dias se você recebe para isso?’. Ela não tem noção do que é esse dinheiro”, desabafa o mestrando.

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Estudos já publicados

Um estudo publicado na revista científica Nature, em 2017, aponta que 36% dos alunos de mestrado e doutorado sentem-se deprimidos ou ansiosos em grau moderado ou grave. Na população geral, o índice fica na casa dos 6%.

Os números vieram de entrevistas com quase 3 mil pessoas, em 26 países, de áreas diferentes do conhecimento. O mesmo problema foi relatado por alunos da saúde, das ciências biológicas, de exatas e de humanas. E pesou mais para mulheres e transgêneros do que para estudantes homens.

Ao todo, 41% dos entrevistados afirmaram ter ansiedade moderada ou grave, enquanto 39% disseram estar deprimidos. Entre alunas, o índice ficou nos 43% e 41%, respectivamente. Enquanto isso, mais da metade dos alunos trans lidam com algum grau de sofrimento mental nas academias: 55% com ansiedade e 57% com depressão.

“Muitos estudos mostraram que mulheres estão mais suscetíveis a desordens mentais do que homens. Por isso, não ficamos surpresos com nossos resultados, pois alinham-se a trabalhos anteriores”, disse, Teresa Evans, líder do levantamento e professora da Escola de Medicina da Universidade do Texas. Isso não significa, na sua avaliação, que os números não reforcem a necessidade de se debater o espaço e a cobrança das mulheres na academia.

(Des)Orientadores

Durante as entrevistas, os pesquisadores do Texas perguntaram aos voluntários também sobre a relação com professores e orientadores de teses. A maioria não se mostrou satisfeita com a pessoa com a qual mais lidam no período de diplomação.

Mais da metade deles disseram não se sentir valorizados pelo professor e não acham que os orientadores sejam bons mentores ou, ainda, que farão grande diferença na vida profissional da cada um no futuro.

Entre os relatos recebidos pela reportagem, é comum surgirem, naturalmente, histórias de abuso, agressões verbais, ameaças ou carga excessiva de trabalho. Iran, da USP, conta que chegou a ser obrigado a passar 16 horas em um seminário científico certa vez sob ameaça de perder a bolsa-auxílio, única fonte de renda.

Novas pesquisas

Novas pesquisas conduzidas pelos pesquisadores Matheus Bortolosso Bocardi e Maycoln Leôni Martins Teodoro, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMS), estão buscando conhecer a saúde mental dos estudantes de Pós Graduação do Brasil.

A pesquisa está inserida no projeto “FATORES DE RISCO E DE PROTEÇÃO PARA ANSIEDADE, DEPRESSÃO E IDEAÇÃO SUICIDA COM ESTUDANTES DE PÓS-GRADUAÇÃO”. do Laboratório de Processos Cognitivos (UFMS).

Quem for aluno de programa strictu sensu e desejar responder à pesquisa pode acessar o link abaixo.

Questionário da pesquisa sobre saúde mental de mestrandos e doutorandos


Com informações do Portal Metrópoles.

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