Mina dos Belgas no Morro Santa Cruz, Corumbá-ms. Conhecida como “mina dos belgas”, trata-se do acesso as galerias escavadas junto aos veios de minério de manganês, situados nas cotas superiores do morro de Santa Cruz. Na realidade, trata-se de uma das entradas, uma vez que existem ainda outras adjacentes a ela. / Imagem: Global Geopark Network

As reservas minerais no Maciço do Urucum, em Corumbá, sobretudo os depósitos de manganês e ferro, configuram uma das maiores riquezas naturais do Brasil e do mundo. Atualmente, estas reservas estão sob operação exploratória pelas empresas Urucum Mineração e Mineração Corumbaense Reunida, de propriedade da Companhia Vale.

O interesse econômico sobre a morraria não é recente, todavia. Há cento e doze anos, a notícia das lavras de ferro e manganês em Corumbá alcançaram a Europa e trouxeram enorme visibilidade estrangeira em cima de tais depósitos. Os primeiros a ambicionarem a concessão de exploração de lavras em Corumbá foram os belgas, isso em 1906.

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Subida do Morro do Urucum em 1918 / Imagem: Revista Brasileira de Mineração e Metalurgia

Conforme o decreto de concessão de direitos n. 6426 de 21 de março de 1907, a primeira lavra foi implantada pelos belgas da Compagnie de l’Urucum entre 1906 e 1918 no distrito ferromanganesífero do Urucum, compreendendo as terras de propriedade da família italiana de sobrenome Carcano. Essa fazenda era liderada pelo fazendeiro Maximiliano Cárcano, dono de um pequeno engenho de açúcar e da sociedade civil Firma Maximiliano Carcano & Sobrinhos.

Segundo o registro da transcrição nº 768, livro 3-I, fls. 226 no Serviço Registral Imobiliário de Corumbá, em 1915 as terras da fazenda Urucum e da região agregada Aguassu possuíam área de 3.600 hectares e 1.800 hectares respectivamente, situadas entre a região conhecida como Bund’Alta, na então cidade de Santa Cruz de Corumbá. Hoje, a exploração abrange as morrarias de Urucum, que chega a 1.000 metros de altitude; Santa Cruz; São Domingos; Grande; Rabichão e Tromba dos Macacos. Mais ao Sul, a cerca de 50km, estão as morrarias de Zanetti, Albuquerque, Mato Grande, Saiutã e Pelada.

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Segundo o ato de concessão disponível na Câmara de Corumbá (1906, Cap. 01, art. 01-04), a sociedade belga teria no Brasil uma sede administrativa e uma representação oficial confiada a um agente responsável. Sua duração fora fixada em trinta anos, mas poderia ser prorrogada sucessivamente, como também poderia ser dissolvida em qualquer tempo antes da expiração de seu termo por decisão da assembléia geral. Os belgas iriam embora de Corumbá em 1918 em decorrência da eclosão da Primeira Guerra Mundial na Europa.

Lia-se no ato de lavratura, nas cláusulas que acompanham o decreto:

O objetivo da empresa era a extração e a venda de minérios de manganês e de ferro, seu tratamento sob qualquer forma que fosse e, em geral, tudo o que se referisse á indústria do manganês, do ferro e dos seus derivados. Ela poderia explorar todos os produtos e jazidas em geral, terras, minerais, metais, pedras preciosas e outros materiais, quer fossem do domínio mineral, quer do domínio agrícola, tudo isso tanto na Bélgica como no Brasil e em quaisquer outros países.

A fim de consolidar o projeto de extração, a Compagnie trouxe engenheiros belgas e operários dos países vizinhos e implantou uma via férrea de bitola estreita entre as lavras e a margem direita do rio Paraguai, visando ao escoamento da produção.

Boca da mina de manganês explorada pelos belgas em Corumbá (1918) / Imagem: Revista Brasileira de Mineração e Metalurgia

Colonização belga nas fronteiras brasileiras

 Para além da extração, lia-se no decreto uma interessante cláusula a respeito da colonização na região lindeira às reservas. Para adentrarmos este ponto, é necessário contextualizarmos a empresa neocolonizadora belga, que, no final do século XIX e inicio do XX, fora assiduamente atuante no continente Africano, sobretudo no Congo.

No século XX, o império belga consistiria em três colônias em África: Congo Belga: 1908 - 1960; Ruanda: 1919 - 1962 (obtida dos alemães após a Primeira Guerra Mundial) e Burundi: 1919 - 1962 (obtida dos alemães após a Primeira Guerra Mundial). 

Na época que os interesses belgas alcançaram o Brasil, a Bélgica apossou-se do chamado Congo Belga, território colonial estabelecido no centro do continente africano. A colonização belga na região ficou conhecida pela brutalidade usada contra os nativos.

Neste mesmo período, as pretensões belgas no Brasil se localizaram no extremo oeste brasileiro, e tiveram como alvo parte da região onde ficam Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia. Ou seja: bem distante dos olhos do governo federal de então. Tudo começou em 1895, quando a Compagnie des Produits Cibils, sediada na Antuérpia, adquiriu uma fábrica construída por um argentino para produzir derivados de carne, na região de Descalvados (município de Cáceres, MT), fronteira com a Bolívia.

Logo depois viria a ocupação em Corumbá, em 1906. Não existe até agora nenhuma prova efetiva, mas é provável que por trás das ações dos empresários belgas que atuavam em Mato Grosso estava o rei Leopoldo II. Essa conjectura é possível de ser feita quer pelos sócios das empresas que atuavam em Mato Grosso, ligados ao rei, quer pelos administradores que foram enviados a Descalvados, todos ex-oficiais da força militar de Leopoldo no Congo.

Crianças do Congo com as mãos decepadas pelo regime do rei belga Leopoldo II. Detalhe da capa do livro Les fantomes du roi Leopold, de Adam Hochschild. / Imagem: Hochschild

O regime da colônia africana de Leopoldo II, o Estado Livre do Congo, tornou-se um dos escândalos internacionais mais infames da virada do século XIX para o século XX. O relatório de 1904, escrito pelo cônsul britânico Roger Casement, levou à prisão e à punição de oficiais brancos que tinham sido responsáveis por matanças a sangue frio durante uma expedição de coleta de borracha em 1903 (incluindo um indivíduo belga que matou a tiros pelo menos 122 congoleses).           

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