Relatórios confidenciais, hackeados do sistema da Vale, mostram que a empresa multinacional registrou um 'quase acidente' em Corumbá e que este, se ocorresse, causaria danos catastróficos na região do Pantanal, em Mato Grosso do Sul.

As informações do ataque cibernético à Vale foram enviadas ao site TecMundo. As informações, que somam cerca de 40 mil arquivos, mostram relatos de incidentes em plantas da mineradora no Brasil e em quatro países, ocorridos, supostamente entre 2017 e 2019.

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Na situação de Corumbá, onde se encontra uma das maiores diversidades da fauna e flora do mundo, consta que o incidente ocorreu em 5 de janeiro deste ano, na pasta de arquivo descrita como ''Cor_URU_Mina Subterrânea”.

No relatório, o acidente foi descrito como ''controlado'' e sem impactos para a comunidade. No campo da descrição resumida do fato, há a seguinte informação:

''Centro-Oeste Material Ger Oper URM Mn queda de material em Fandrill''. Já no campo de descrição detalhada, o relato é o seguinte:

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''A equipe de perfuração iniciou a atividade com o Fandrill no acesso da Nildete às 01:00h após realizar sete furos de cinco metros perceberam uma movimentação na lateral direita da galeria, e decidiram parar a atividade e recolher as hastes que estavam no furo e em seguida houve queda de material na lateral do equipamento''.

Na tabela do registro, o incidente foi teve impacto financeiro de potencial ''leve'' para a empresa.

Entre outras ocorrências, há vazamentos de 500 litros de óleo no mar, no Rio de Janeiro, e acidente onde um motorista da empresa morreu e outros ficaram feridos na região de Turmalina (MG).

A mineradora é a segunda maior empresa desse ramo no mundo e responsável pela tragédia de Brumadinho, ocorrida na sexta-feira passada, dia 25 de janeiro.

Do outro lado, os hackers não detalharam como a companhia foi invadida, apenas notaram que os documentos foram extraídos por meio de uma falha na URL oculta que estava aberta ao público — “Indexação de documentos secretos em um subdomínio oculto, por meio de motores de busca”, notaram.

Os documentos internos mostram como a Vale lida e categoriza incidentes que aconteçam com funcionários ou ambientais

“Um dos documentos relata assalto a mão armada em um duto, e não houve registro de ocorrência policial posterior”, afirmou um dos vazadores à reportagem do 'TecMundo'.

A Vale foi contatada sobre o incidente e a resposta da emrpesa está no final desta reportagem.

Os hackers também enviaram uma nota ao 'TecMundo' sobre os motivos da invasão.“Quanto vale uma vida? Para a Vale do Rio Doce uma vida é apenas um número, uma cifra, um ponto estatístico, um risco mensurável na reputação da marca. Achamos que teriam aprendido com experiências passadas, mas é simplesmente impossível que percebam valor de uma vida, se eu mato 65 pessoas sou retirado de circulação, se uma empresa do tamanho dela mata, recebem uma multa e continuam operando normalmente. Uma multa! Não é a toa que assim a vida também tenha um preço. Eu e você todos temos um preço nessa tabela, é questão de tempo para sermos os próximos, assim que isso for rentável. Não iremos ficar quietos, lutaremos contra a estupidez com a informação. Quanto vale a vida? A vida vale mais do que a vale”, contam no texto, publicado na íntegra pelo portal.

BARRAGENS NO PANTANAL

De acordo com o parecer técnico de 2015 do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul, a Mineradora Vale S.A possui 14 barragens de rejeitos no Morro do Urucum e 1 no Morro de Santa Cruz, denominada Barragem do Gregório, ambas em Corumbá. As informações foram divulgadas pelo próprio MPE-MS, por meio de nota, justificando o arquivamento do inquérito aberto pelo órgão para averiguar parecer técnico recebido naquele ano do Governo do Estado, já sob responsabilidade de Reinaldo Azambuja (PSDB).

As 14 barragens são classificadas como de risco “muito pequeno” quanto ao volume, “baixo” quanto ao risco de acidentes e, apenas uma delas como “médio” Dano potencial Associado.

Primeiro encontro de grupo que fiscalizará situação das barragens em MS foi segunda: trabalhos começam amanhã.

Já a barragem de Gregório foi considerada, de acordo com o parecer do Imasul, como “médio” risco quanto ao volume, “baixo” quanto ao risco de acidentes e “alto” quanto ao Dano de Potencial Associado.

No entanto, o Imasul concluiu que a mesma apresenta boas condições estruturais com presença de vegetação arbórea densa nas áreas de jusante, não sendo constatadas fissuras ou degradação nos taludes e nem a presença de ocupação humana.

O Imasul constatou ainda, que nas barragens situadas na porção mais baixa do terreno referente ao Complexo Fe Pé da Serra havia extravasamento de resíduos para o solo à corrente fluvial, sendo que a deposição deste material provocou mortandade de algumas espécies arbóreas. O parecer verificou também uma pequena erosão na base na Barragem 02Fe As, interligada à barragem 03 Fe As.

Diante disso, foi instaurado Inquérito Civil em face da Vale, cujo objeto era averiguar a situação estrutural das barragens de rejeitos de minérios localizadas no Morro do Urucum e Morro Santa Cruz, ambos de responsabilidade da empresa. O inquérito objetivou ainda solicitar adoção de medidas apontadas no parecer técnico do Imasul, para saneamento das irregularidades.

Na ocasião, a 2ª Promotoria de Justiça de Corumbá notificou a empresa para que providenciasse a paralização do extravasamento e a realização da remoção dos rejeitos de minério nas barragens situadas na porção mais baixa do terreno referente ao Complexo Fe Pé da Serra, bem como a mitigação das erosões localizadas nas barragens 01 Fe AS (parte interior, nas proximidades do ponto de descarga do efluente) e 02 Fe AS (na base).

O MPE-MS solicitou ainda a recuperação da área de 0,2208 hectares nas proximidades do Complexo de Barragens Pé da Serra do Urucum, que foi afetada pelo lançamento de resíduos.

Após a notificação da empresa, em julho de 2016, a Promotoria promoveu o arquivamento do inquérito, devido ao cumprimento na íntegra de todas as exigências feitas à Vale. De acordo com os autos, todas as correções foram realizadas para sanar as irregularidades apontadas pelo Imasul.

Já no ano passado, inspeção realizada em setembro do ano passado pela Agência Municipal de Proteção e Defesa Civil de Corumbá constatou infiltração na barragem Laís, da mineradora Vetorial, também localizada no Maciço do Urucum.

No entanto, de acordo com o primeiro-tenente do Corpo de Bombeiros Isaque do Nascimento, diretor-executivo da agência, o problema é considerado “tênue” e não representa risco, apesar de ser sinal de alerta quanto às condições da estrutura.

AVERIGUAÇÃO

O Governo do Estado, por meio do Imasul, coordenará o trabalho de fiscalização das barragens de rejeitos de minério de ferro em Corumbá neste ano. Os trabalhos práticos começaram nesta manhã, já que nesta terça-feira (29) mais uma rodada de reuniões foi realizada, desta vez com as mineradoras Vale, MMX e Vetorial .

Segundo o Governo, trata-se de uma ação preventiva para que se tenha de fato a garantia de segurança das mesmas, considerando os impactos humanos e ambientais causados pelo rompimento da barragem em Brumadinho (MG).

Segundo o engenheiro Odilon Silva, gerente de operações da Vale, simulações feitas por computador indicaram que, em caso de rompimento da principal barragem de Urucum, a Gregório, com 9 milhões de metros cúbicos de capacidade, a chamada mancha de inundação atingiria os balneários localizados no distrito de Maria Coelho, chegando à rodovia BR-262, numa extensão de 16 quilômetros. Na região residem cerca de 200 pessoas.

Apresentação do relatório da Vetorial, na sede da Administração da Hidrovia do Paraguai (Ahipar)

Para o diretor-presidente do Imasul, Ricardo Eboli, a grande preocupação é essa mancha chegar à Baía do Jacadigo, a alguns quilômetros da rodovia, que tem ligação com o Rio Paraguai, o que causaria uma destruição ambiental sem precedentes ao Pantanal.

A Vale informou que caso ocorra um incidente no fim de semana, a população flutuante na região chegaria a 600, número previsto pela gestão de crise montado pela empresa.

A Vetorial também expôs seu plano de monitoramento e de atendimento emergencial aos moradores que vivem ao redor da Morraria de Urucum, onde a empresa opera uma siderúrgica e retira o minério de suas minas.

TRAGÉDIA

A Vale está nos holofotes por um crime ambiental: o rompimento da barragem de Brumadinho, Minas Gerais, que aconteceu na última sexta-feira (25). Rompeu-se uma barragem de rejeitos de mineração construída no ribeirão Ferro-Carvão, no Córrego do Feijão, que até o momento deixou mais de 84 corpos e 276 pessoas desaparecidas.

Após o acidente, a Vale afirmou que irá desativar todas as barragens similares que existem no Brasil.


OUTRO LADO

Por meio de nota, a Vale se posicionou sobre a reportagem. Confira a íntegra:

Reportagem editada às 18h48 do dia 31/1/2019 para acréscimo do posicionamento da Vale e informações adicionais.

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