Todo mundo já ouviu falar dele e sabe que ele é o melhor alimento que um recém-nascido pode receber. Mas o que é exatamente o leite materno?

A questão é mais complicada do que parece. Sabe-se que grande parte dele é água, especialmente no início da mamada. À medida que o bebê mama, o leite vai se tornando cada vez mais gorduroso.

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E, além de água e gordura, a receita leva vitaminas, açúcares, substâncias anti-inflamatórias, sais minerais, células-tronco e até microRNA. “Ainda estamos começando a entender tudo o que ele contém”, afirma o epidemiologista Cesar Victora, um dos pesquisadores mais renomados do mundo sobre o tema da amamentação.


Foi Victora, professor emérito na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que liderou, na década de 1980, o primeiro estudo do mundo a mostrar que a amamentação exclusiva (sem chazinho, sem água) até os seis meses de idade reduz em 14 vezes o risco de morte por diarreia e em 3,6 vezes o risco de óbito por infecções respiratórias.

Uma das explicações está justamente na composição mágica do leite da mãe, que não só fornece os nutrientes necessários ao crescimento da cria como tem substâncias capazes de protegê-la contra infecções.

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É o caso dos oligossacarídeos. Até pouco tempo atrás, não se entendia o porquê da presença desse açúcar no leite, já que ele não é absorvido pelo corpo do bebê. “Seu papel é atender as bactérias do microbioma, favorecendo o desenvolvimento de um tipo de flora essencial para um sistema intestinal saudável”, afirma Victora.
Replicado em outras partes do mundo com resultados semelhantes, o estudo da UFPel levou a Organização Mundial da Saúde a divulgar, em 1990, a Declaração de Innocenti, orientando o aleitamento exclusivo até os seis meses de idade.

Novos trabalhos mostram que o impacto da amamentação continua a ecoar ao longo da vida adulta, influenciando fatores como a tendência à obesidade, o QI, a escolaridade e até a renda. É o que mostrou uma pesquisa feita pela equipe de Pelotas, que acompanhou a saúde de todas as crianças nascidas em 1982, 1993 e 2004 na cidade gaúcha.

Comparando bebês que mamaram por menos de um mês com os que mamaram durante um ano, os que mais mamaram tinham, aos 30 anos, quatro pontos a mais no score de QI, quase um ano a mais de escolaridade e uma diferença de renda de cerca de R$ 340. O estudo isolou dez variáveis sociais e biológicas (como escolaridade e renda dos pais, tipo de parto, tabagismo materno, entre outras) para garantir o rigor da análise e definir exatamente o papel do leite materno nesse contexto. O resultado foi publicado em 2015 pela revista científica The Lancet.

A ciência vem mostrando que a amamentação é benéfica também para as mães, que ficam mais protegidas contra o câncer de ovário e de mama. A cada ano que a mulher amamenta, o risco de que venha a desenvolver câncer de mama cai 6%. Segundo o American Institute for Cancer Research, isso ocorre porque a lactação induz um padrão hormonal único associado a um período de amenorreia (ausência de menstruação), o que reduz a exposição da mulher a variações hormonais associadas a esse tipo de tumor.

Além disso, amamentar ajuda a recuperar o peso pré-gestação e também facilita a superação da depressão pós-parto, afirma a pediatra Honorina de Almeida. Conhecida como dra. Nina, ela é uma das fundadoras da Casa Curumim, espaço especializado em aleitamento materno em São Paulo, que presta atendimento a famílias que precisam de um suporte extra para viabilizar a amamentação.

Mas, se amamentar é algo natural, por que tantas mulheres sofrem com esse processo? E, se é de graça e traz tantos benefícios, por que menos de 40% dos bebês de países em desenvolvimento recebem aleitamento exclusivo até os seis meses? No Brasil, segundo a II Pesquisa de Prevalência do Aleitamento Materno nas Capitais Brasileiras e DF, de 2009, o tempo médio de aleitamento exclusivo é de 54,1 dias — menos de dois meses.


MAMILOS PLANOS OU INVERTIDOS
Podem dificultar o início da amamentação, mas não necessariamente a inviabilizam. Algumas estratégias ajudam a aumentar o mamilo, tais como compressas frias, sucção com bomba manual e uso de conchas.

LEITE EMPEDRADO
Esse ingurgitamento patológico deixa a mama muito distendida e dolorida. Recomenda-se ordenhar um pouco os seios antes da mamada, só o suficiente para amaciá-los e facilitar a pega, massagear as regiões afetadas, aplicar compressas frias e usar um sutiã firme. Analgésicos e anti-inflamatórios podem ajudar.

CANDIDÍASE
Infecção por fungo que gera coceira e sensação de queimadura e agulhadas nos mamilos. Se o problema surgir, é preciso tratar a mãe e o bebê simultaneamente. Chupetas e mamadeiras podem favorecer a volta da infecção, por isso, elas devem ser fervidas diariamente.

MASTITE
Processo inflamatório no tecido mamário que pode evoluir para uma infecção bacteriana. Relacionada à estagnação do leite, causa dor, vermelhidão, febre alta e calafrios. Casos mais graves exigem antibióticos ou mesmo drenagem cirúrgica.

Fonte: Ministério da Saúde
“Para responder a essas questões é preciso resgatar uma série de mudanças sociais ocorridas ao longo da história da humanidade”, afirma o pediatra Roberto Issler, membro do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Maternidade e vida moderna

Em comunidades primitivas, a experiência da maternidade era vivenciada de forma coletiva, e não tão individualmente como ocorre hoje. Dessa forma, a comunidade amparava a nova mãe e passava para ela conhecimentos sobre o ato de amamentar. Adotava-se rotineiramente o leite compartilhado, que comprovadamente ajuda no sucesso da amamentação (embora seja um tanto polêmico por conta do risco que oferece à segurança do bebê). Além disso, a taxa de fecundidade era muito mais elevada: a cada filho que nascia, a mulher acumulava experiência.

Décadas atrás, vários desses elementos ainda davam o tom da vida familiar no Brasil. Em 1960, 55% da população era rural e cada casal tinha em média seis filhos, segundo dados do IBGE. Em 2015, 85% dos brasileiros viviam em áreas urbanas e a taxa de fecundidade era de menos de dois filhos por casal. E caindo. Ou seja, é bem provável que a mulher que se torna mãe hoje não tenha convivido com outras lactantes, não conte com o suporte direto de outras mulheres da família e viva a experiência da amamentação apenas uma vez em toda a vida. Isso sem falar que muitas delas precisam voltar ao mercado de trabalho quatro meses após o parto.

“Nesse contexto, o profissional de saúde acaba se tornando a principal, senão única, fonte de informação e apoio para a lactante”, comenta Issler, citando a importância da Iniciativa Hospital Amigo da Criança. Criada em 1990 pela OMS e pela Unicef, ela estabelece dez medidas fundamentais para a promoção do aleitamento materno e conta, atualmente, com mais de 300 hospitais habilitados no Brasil. “Quando eu estava na faculdade de medicina, não se dava importância a informações que hoje são consideradas básicas para o sucesso da amamentação”, lembra Cesar Victora.

Também relevante e preocupante é a relação do profissional de saúde com a indústria alimentícia. “Existe muita pressão sobre os pediatras, que recebem patrocínios de viagens, congressos, conferências. Embora os médicos não admitam, há, sim, uma influência perniciosa que não pode ser ignorada”, alerta o pesquisador. Estamos falando aqui de um mercado bilionário: no ano 2000, as vendas globais de fórmulas substitutas do leite materno totalizavam US$ 18,6 bilhões. Em 2014, esse número chegava a US$ 44,8 bilhões.

A percepção da fórmula como uma opção moderna, um sinal de prestígio para mulheres urbanas (em oposição à amamentação, vista como uma prática pouco sofisticada ligada às camadas mais pobres da população), é um dos fatores que levaram à desvalorização do aleitamento materno ao longo do século 20. Foi uma escolha direcionada pelo estilo de vida, e não pela saúde – e que, nos últimos anos, tem se invertido, mas não sem enfrentar todo um outro conjunto de obstáculos.

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