Foi inaugurada no Museu de História do Pantanal (Muhpan), a nova sala expositiva "Braços Cativos no Espaço Urbano e Rural de Corumbá" que resgata a memória do negro no Pantanal, história esta esquecida por muito tempo pela historiografia regional.

A solenidade de inauguração ocorrida na quinta-feira (05) no auditório do Muhpan que se localiza no Porto Geral de Corumbá, contou com a presença do secretário da Fundação da Cultura e do Patrimônio Histórico de Corumbá, Joilson Silva da Cruz,  de Edenir de Paula, presidente do Instituto das Mulheres Negras do Pantanal, de Benedito C. G. Lima, escritor e membro fundador do Movimento Negro em Corumbá, da coordenadora do projeto Ketylen Cruz, historiadora, da presidente da Fundação Barbosa Rodrigues, mantenedora do museu, Maria Verônica Nogueira, além de inúmeros convidados e interessados no evento. 

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Tanto Edenir de Paula quanto Benedito C. G. Lima destacaram a importância do novo acervo expositivo que localiza a memória do negro dentro do projeto educativo e histórico do MUHPAN. A história do Negro no Mato Grosso do Sul possui capítulos por tempos desconhecidos e ignorados pelos historiadores.

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Todavia, as recentes pesquisas vêm elucidando registros que demonstram uma origem escravagista na região em decorrência do desenvolvimento do sul do Mato Grosso, até a criação do atual estado do Mato Grosso do Sul. Resgatar esta memória, é portanto, um dever histórico e político do poder público local. 

Contemporaneamente, políticas de resgate, afirmação e valorização da identidade negra vem sendo promovidas em âmbito global, como por exemplo o Plano de Ação de Durban (2001), a promulgação do Ano Internacional dos Afrodescendentes (2011) e da Década Internacional dos Afrodescendentes (2013).

No Brasil, a promulgação da Lei 10.639/2003 é fruto desta luta pelo resgate, reconhecimento, valorização e preservação da contribuição dos negros na construção do país, por meio da educação. O resgate, o reconhecimento e a valorização da memória negra, como realizado no novo acervo do MUHPAN, podem contribuir para o alcance de uma melhoria na condição da população negra, em muitas esferas.

Desde a fundação do MUHPAN em 2008, foi-se questionado a ausência de uma sala dedicada a história do negro na região pantaneira em seu circuito educativo. Após longos estudos, finalmente, as demandas foram atendidas, e agora a população terá acesso a essa importante, e por vezes dolorosa, memória que integra a identidade do povo pantaneiro.

A vinda dos negros como mão de obra escrava iniciou por volta de 1540, com as expedições do espanhol Cabeza de Vaca. O fluxo escravista teve sua continuidade no ano de 1600, com os Bandeirantes, em suas comitivas, e com a chegada dos fazendeiros desbravadores de terras das regiões ao norte de Mato Grosso, São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e vários outros estados.

Foram estabelecendo suas posses, derrubando matas, plantando, criando gado, e engenhos erguidos à custa do trabalho escravo de descendentes africanos.

Isto posto, é urgente e imprescindível desvelar a africanidade, a memória negra presentes na construção do Brasil, e preencher as lacunas da historiografia oficial, eurocêntrica e racista. 

A readequação do circuito educativo do MUHPAN conta com o patrocínio do programa Caixa de Apoio ao Patrimônio Cultural Brasileiro da Caixa Federal que desde o final de fevereiro de 2017, tem se dedicado a investir da melhor forma possível nas  adequações previstas (placas, sinalizações, suportes com textos, equipamentos). 

A responsabilidade da pesquisa ficou à cargo da historiadora e professora da UFMS-CPAN, Elaine Aparecida Cancian de Almeida, autora do livro  "A cidade e o rio: escravidão, arquitetura urbana e a invenção da beleza - o caso de Corumbá (MS)", quem acompanhou e forneceu todo o material histórico para criação do espaço.

A criação expográfica foi realizada  pela  Via Impressa Design Gráfico e Edições de Arte, especialista  em linguagem museal e executadas pela Arquiteta Ana Paula Badari. Já a coordenação do projeto ficou a cargo da historiadora Ketylen Karine Santos.

A historiadora Ketylen Karine Santos e a arquiteta Ana Paula Badari. / Imagem: Nathalia Claro

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